Entrementes — palavra que anda sumida do vocabulário moderno, mas que cabe como uma luva aqui — saiu o resultado do tal ENAMED. E eu confesso: não fiquei surpreso. Fiquei, sim, inquieto. Que é pior. Os números são frios, como toda estatística. Um terço das escolas de Medicina com desempenho insatisfatório. Um terço! Traduzindo em gente de carne e osso: milhares de jovens médicos que, dentro de poucos meses, estarão atendendo gente como você, como eu, como sua mãe, como seu filho — com uma formação que o próprio Estado brasileiro reconhece como insuficiente. Não é uma discussão acadêmica. É uma discussão de pronto-socorro.
Sou médico. Gosto de sê-lo. Levo isso a sério. Talvez sério demais para os tempos líquidos em que vivemos, em que tudo virou serviço, produto, pacote, assinatura mensal. Inclusive a Medicina. O ENAMED veio para medir o óbvio: se estamos formando médicos que sabem o mínimo necessário para não fazer bobagem grave com um ser humano fragilizado numa maca. E a resposta foi: nem sempre.
Como foi que a gente chegou até aqui? Não foi de repente. Não foi ontem. Não foi por acaso. Foi um projeto. Mal desenhado, mal regulado e pior executado. Há uns vinte anos, alguém teve a ideia genial: “O Brasil precisa de mais médicos. Logo, precisamos de mais faculdades de Medicina.” Soa lógico. Parece progressista. Fica lindo no discurso eleitoral. Só esqueceram de um detalhe menor: qualidade não se imprime em decreto. Abriram cursos onde não havia hospital-escola. Onde não havia professor titulado. Onde não havia paciente suficiente para ensinar clínica. Onde não havia biblioteca decente, muito menos tradição acadêmica. E assim nasceu a aberração: diplomas iguais, médicos profundamente desiguais.
Hoje, Medicina virou um dos negócios mais rentáveis do ensino privado. Mensalidades de cinco dígitos. Turmas lotadas. Marketing agressivo. Outdoor prometendo “seu sonho de ser médico começa aqui”. Começa, sim. Termina mal, às vezes. Existe uma hipocrisia coletiva em torno desse assunto. Todo mundo sabe. Pouca gente fala. Médico mal formado não é só um drama pessoal do recém-formado inseguro. É um risco sanitário. É o infarto que passa batido. É a sepse que se diagnostica tarde. É o antibiótico errado. É o exame pedido sem critério. É a cirurgia indicada sem necessidade. É a complicação evitável. Não é teoria. É rotina hospitalar.
E aí começa a espiral: mais erro, mais processo, mais medicina defensiva, mais exames inúteis, mais custo para o sistema, mais desconfiança social. Todos perdem. Menos quem vendeu a vaga a doze mil reais por mês. Sempre houve médico ruim, é verdade. E sempre haverá. Somos humanos, afinal. A diferença é a escala industrial da coisa. Antes, o médico ruim era exceção. Hoje, corre o risco de virar produto seriado de um modelo educacional frouxo, permissivo e mercantilizado. O ENAMED apenas colocou números naquilo que todo mundo que pisa num hospital público (e alguns privados também...) já sente no dia a dia. Ele não é um ataque à Medicina. É um exame de consciência coletivo.
E aqui vem a parte incômoda para os relativistas: não é mistério por que algumas escolas dão certo. As que vão bem no ENAMED são, em geral, as mesmas de sempre. Públicas tradicionais, algumas privadas muito bem estruturadas. Elas têm hospital-escola de verdade, professor que dá aula e pesquisa, currículo baseado em evidência, não em moda pedagógica, rigor avaliativo, cultura de estudo, meritocracia sem firula. Não é magia. É método. É trabalho sério. É tempo. Formar médico não é startup. Não é franquia. Não é fast-food.
E qual é, afinal, o papel do médico nisso tudo? Aqui eu falo com algum lugar de fala, como dizem por aí. O médico não é só um prestador de serviço técnico. Não é um “fornecedor de laudo”. Não é um “aplicador de protocolo”. Ele é, ou deveria ser, guardião da vida, tomador de decisões irreversíveis, referência ética, líder técnico de equipes, última linha entre o erro e o desastre. Quando essa função se esvazia, a sociedade inteira paga o preço. Uma Medicina fraca gera uma sociedade insegura. Uma sociedade insegura gera mais controle, mais judicialização, mais desconfiança, mais burocracia. E aí ninguém mais confia em ninguém.
Quanto ao futuro, vejo três cenários. O primeiro é o brasileiro clássico: fingir que nada está acontecendo. Continuar abrindo faculdades. Continuar diplomando mal preparados. Continuar empurrando com a barriga. Esse termina mal. O segundo é o mínimo decente: usar o ENAMED como régua regulatória real. Fechar cursos ruins. Cortar vagas. Exigir padrão mínimo. Já ajudaria. O terceiro — que eu duvido, mas torço — é uma reforma de verdade: exame nacional obrigatório para exercício profissional, residência como porta de entrada padrão, investimento pesado em hospitais-escola, valorização real da docência médica, freio total na abertura de novos cursos. Sonhar não custa nada. Implementar custa coragem política.
Entrementes, seguimos. Eu sigo indo ao consultório. Você segue confiando no médico que lhe atende. O sistema segue rangendo. O Estado segue fazendo de conta. E o ENAMED fica ali, como um espelho incômodo na parede, mostrando um reflexo que ninguém gosta muito de encarar. Porque, no fundo, todo mundo já sabia. Só faltava a prova.

Excelente reflexão! Triste realidade…
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