quarta-feira, 11 de março de 2026

Ah, Dona Oneida…

 



Por Diego de Almeida


Ah, Dona Oneida…

Ah, Dona Oneida... Matrona machista, mãe de quatro varões, tão obsequiosa em sempre olvidar objetificações ojerizantes. Dizia-se protetora; na verdade, era sacerdotisa de um pequeno culto doméstico: o culto aos próprios filhos.
Morava numa casa de esquina, daquelas antigas, com grades altas e cortinas sempre semicerradas. Ali dentro, criara quatro homens como quem cria galos de briga — não para lutar, dizia ela, mas para jamais perder.

— Homem não se curva — repetia, enquanto servia o café. — O mundo já tenta dobrar vocês demais.

O mais velho, Rodrigo, aprendera cedo que charme era uma moeda. Falava macio, sorria fácil, e deixava atrás de si uma sequência de histórias mal resolvidas. Sempre que alguma moça aparecia à porta, olhos vermelhos e voz trêmula, Dona Oneida suspirava com uma paciência quase pedagógica.

— Minha filha, você deve ter entendido errado. Rodrigo é um rapaz tão correto…

E fechava o portão com um gesto suave, como quem encerra uma conversa trivial.

O segundo, Marcelo, preferia a ironia. Dizia que o mundo era um teatro e que todos fingiam virtudes. Aprendera com a mãe que a culpa era uma ferramenta: útil quando projetada nos outros.

— Mulher hoje em dia gosta de drama — dizia Dona Oneida, abanando a cabeça. — Antigamente sabiam seu lugar.

O terceiro, Gustavo, era silencioso. Observador. Absorvera da casa uma filosofia menos ruidosa: a de que o poder verdadeiro se exercia na indiferença. Nunca gritava, nunca discutia. Apenas descartava pessoas como quem troca de camisa.

E o caçula, Henrique, ainda ensaiava o papel. Crescera vendo os irmãos retornarem tarde, rindo de histórias que Dona Oneida ouvia com indulgência quase devota.

— São jovens… — justificava ela, sempre. — Homem precisa experimentar o mundo.

Entrementes, como diria algum cronista antigo, havia algo de curioso naquele lar: a ausência completa de espelhos morais. Nenhuma pergunta incômoda. Nenhum limite real. Apenas uma narrativa contínua de absolvição.

Para Dona Oneida, seus filhos eram vítimas de um mundo ingrato. As mulheres eram exageradas. Os amigos, invejosos. Os patrões, injustos. O mundo inteiro conspirava contra seus quatro varões impecáveis.

E assim, noite após noite, ela os acolhia de volta ao porto seguro da casa.

— Aqui vocês sempre terão razão — dizia.

O curioso é que, com o tempo, os rapazes começaram a acreditar nisso.
Rodrigo já não seduzia: consumia.
Marcelo já não ironizava: desprezava.
Gustavo já não ignorava: manipulava.
Henrique aprendia depressa.

Ensinará algo mais perigoso: a nunca serem responsabilizados.

Cria adultos frágeis — armados com a arrogância de quem jamais aprendeu que liberdade e responsabilidade caminham sempre juntas.

E Dona Oneida, sentada à cabeceira da mesa, servia mais café, mais desculpas, mais indulgência.

Era uma pedagogia silenciosa.

Não lhes ensinara a serem homens.

E quando, anos depois, os quatro começaram a colher as consequências inevitáveis — processos, rupturas, isolamento...

Certa feita, após discutir com a namoradinha da escola, Henrique chegou em casa. Não havia ninguém...  Chamou alguns amigos. Depois, ligou para a namorada e convidou pra tomar um sorvete, pra fazer as pazes... ela foi. E com toda a sabedoria e astúcia de seus 17 anos, regou a taça de sorvete com as gotinhas que sua mãe usava pra dormir... Quando a menina ficou desacordada, Henrique pôs à mesa e chamou os amigos que aguardavam em silêncio no outro cômodo. Fizeram a festa! Refastelaram-se... não havia limites. Não havia não... tampouco, havia sim.

Dona Oneida chegou pouco depois ainda em tempo de ver uma menina semi-vestida, desacordada no chão da sua cozinha. Chamou um carro de aluguel, colocou a "mocinha que bebeu um pouco demais" dentro e mandou ela embora... Depois, chamou a atenção do caçula e seus amigos:

— Meus anjos, não tragam esse tipo de garota pra dentro de casa. Depois ela vai querer dar problema pra vocês... Façam o que tiverem que fazer na rua, da próxima, tá bom?

Ela não entendeu o porquê de a polícia bater na sua porta alguns dias depois e de levarem seu príncipe apreendido... nem entendeu porque aquele bando de repórteres  falavam tão mal de seu filhinho e dos amigos dele.

Dona Oneida apenas suspirou e soluçou, olhando pela janela.

— Esse mundo está cada vez mais cruel com os homens…

Nunca lhe ocorreu que, talvez, tivesse criado quatro homens incapazes de viver nele.

Porque proteger demais, às vezes, não cria filhos fortes.

Ah, Dona Oneida... poderia ser Josefa, ou Maria... Osmar ou José Carlos. Não é sobre como se chama, mas como se cria!




terça-feira, 10 de março de 2026

Sobre Lealdade...


Por Diego de Almeida


Eu costumo aprender muito com meus amigos... geralmente são grandes fontes de inspiração para mim! Desta feita, não foi diferente; Há certas frases que, embora simples, carregam dentro de si um peso moral considerável.

Não são frases rebuscadas. Não são discursos cuidadosamente elaborados. São afirmações diretas, pronunciadas quase com naturalidade, como quem diz algo óbvio; e justamente por isso revelam muito sobre o caráter de quem as profere.

Outro dia ouvi do meu Irmão Breno uma dessas frases. Não foi durante uma sessão solene, nem durante algum debate filosófico profundo. Foi em conversa comum, dessas que surgem entre Irmãos após os trabalhos, quando a formalidade ritualística dá lugar à convivência fraterna.

Ele disse, com absoluta simplicidade:

“Desde que fui iniciado na Loja Gênesis, sempre estive nela… e sempre vou continuar nela, com meus Irmãos.”

Confesso que aquilo me fez pensar... Porque, embora curta, a frase expressa algo cada vez mais raro no mundo moderno: lealdade.

Vivemos uma época em que quase tudo parece provisório. As pessoas trocam de emprego com frequência. Mudam de cidade, de projetos, de círculos sociais. Mudam até mesmo de convicções com certa facilidade.

Se algo incomoda, abandona-se...
Se algo exige esforço, troca-se...
Se aparece uma opção aparentemente mais vantajosa, muda-se de direção!

Não há, em si, nada de errado com mudanças, afinal, a vida também é movimento.

Mas existe uma diferença fundamental entre mudança por crescimento e mudança por mera conveniência. E a lealdade pertence justamente ao campo oposto da conveniência. Ser leal não significa permanecer onde tudo é perfeito. Significa permanecer porque aquilo tem valor, mesmo quando existem imperfeições.

Isso vale para a amizade em geral. Amigos de verdade não são aqueles que aparecem apenas nos momentos agradáveis, nas comemorações e nas mesas fartas. Esses, convenhamos, costumam ser numerosos.

O teste real da amizade ocorre nos momentos menos confortáveis.

Quando surgem divergências.
Quando aparecem dificuldades.
Quando a convivência exige maturidade... Ah! Maturidade... quanto isso nos faz falta, cada vez mais e mais!

É nesses momentos que se revela quem está ali por circunstância… e quem está ali por convicção. 

A lealdade se manifesta justamente na permanência. Não na permanência cega, mas na permanência consciente. 

Muita gente sabe que eu participo de uma sociedade de estudos filosóficos chamada Maçonaria (e não é religião, ok... eu sou católico!). Na Maçonaria, esse conceito de lealdade ganha ainda mais profundidade.

Quando alguém é iniciado, não ingressa simplesmente em um grupo social ou em um círculo de convivência. Ingressa em uma fraternidade iniciática, construída ao longo de séculos. Ali convivem pessoas de histórias distintas, temperamentos diferentes e opiniões diversas. E isso é natural.

A Loja - nome dado à reunião dos Maçons - não é um lugar onde se reúnem pessoas perfeitas. Muito pelo contrário: ela é justamente o espaço onde homens e mulheres imperfeitos se encontram para trabalhar sobre si mesmos, para lapidar, pouco a pouco, a própria pedra bruta.

Nesse processo, inevitavelmente surgem divergências. Isso é natural! Às vezes surgem incompreensões. Outras vezes surgem diferenças de visão.

Mas é justamente nesse contexto que a lealdade se torna essencial; A lealdade é o cimento invisível que mantém a construção de pé.

Por isso aquela frase do Irmão Breno me pareceu tão significativa. Ela não foi dita em tom dramático. Não foi uma declaração solene. Foi apenas uma constatação tranquila: ele escolheu permanecer.

E permanecer, meus caros, é também um ato de caráter!

Num mundo em que muitos estão sempre procurando o próximo ambiente mais conveniente, há algo de profundamente digno em quem decide cultivar raízes. 

Porque, no fundo, uma Loja não é apenas um espaço ritualístico. Ela também se torna parte da nossa história.

É ali que recebemos nossas primeiras instruções.
É ali que aprendemos nossos primeiros símbolos.
É ali que encontramos pessoas que, com o tempo, deixam de ser apenas conhecidos e passam a ocupar o lugar de verdadeiros Irmãos.

A lealdade, nesse contexto, não significa apenas permanecer em um lugar. Significa construir memória coletiva. Significa participar da construção de algo que existia antes de nós e continuará existindo depois de nós.

Entrementes…

Talvez seja isso que mais me chamou a atenção naquela frase aparentemente simples: Ela não falava apenas sobre presença. Falava sobre pertencimento.

Num tempo em que tantas relações parecem frágeis, temporárias e descartáveis, ouvir alguém afirmar com serenidade que continuará ao lado de seus Irmãos é quase um pequeno gesto de resistência moral.

E confesso: achei bonito.

Porque, no fim das contas, instituições não sobrevivem por séculos apenas por seus símbolos, rituais ou tradições. Elas sobrevivem porque existem pessoas que escolhem permanecer.

E não são apenas as instituições: serve para os grupos de amigos, os colegas de classe, os funcionários de uma empresa, os integrantes de um partido político ou sindicato... em qualquer ambiente ou situação onde dois ou mais serem humanos estiverem juntos, poderemos aplicar o conceito e a necessidade da lealdade, nas suas mais diversas formas!

E a lealdade - silenciosa, discreta e constante - continua sendo uma das pedras mais sólidas sobre as quais qualquer fraternidade pode ser construída.

domingo, 8 de março de 2026

8 de Março: Tanto Conquistado! Tanto Ainda a Conquistar...

 


Por Diego de Almeida

Todos os anos, quando chega o Dia Internacional da Mulher, repetem-se dois rituais quase automáticos. De um lado, as flores, as homenagens, as mensagens bonitas nas redes sociais. De outro, uma espécie de disputa ideológica sobre o que afinal significa o tal “feminismo”. Entre elogios superficiais e caricaturas militantes, o sentido original da data muitas vezes se perde.

E, como tantas outras coisas em nosso tempo, aquilo que nasceu como reivindicação legítima acaba sendo transformado em slogan, bandeira partidária ou guerra cultural.

Mas se fizermos um pequeno exercício de memória histórica, veremos que o feminismo, em sua origem, não surgiu para estabelecer uma guerra entre homens e mulheres, tampouco para negar as diferenças naturais entre os sexos. Surgiu, sobretudo, como um movimento de equiparação de direitos civis, políticos e sociais.

E isso, convenhamos, não é pouca coisa.

Durante séculos, em grande parte do mundo, as mulheres não podiam votar, não podiam possuir propriedades de forma independente, não tinham acesso à educação formal e eram frequentemente excluídas das esferas de decisão pública. O feminismo histórico foi, antes de qualquer outra coisa, uma reação a esse estado de coisas.

Não se tratava de afirmar que homens e mulheres são absolutamente idênticos em tudo — ideia que, além de biologicamente questionável, é sociologicamente ingênua. Tratava-se de algo muito mais simples e muito mais razoável: se a dignidade humana é a mesma, os direitos fundamentais também devem ser.

Esse era o ponto.

Entrementes, como ocorre com praticamente todo movimento humano, o tempo tratou de multiplicar interpretações. Algumas delas equilibradas e razoáveis; outras, francamente caricatas. Em certos ambientes contemporâneos, o debate sobre direitos das mulheres parece ter sido substituído por uma espécie de competição de ressentimentos, na qual o objetivo já não é construir justiça, mas sim inverter hierarquias.

Mas reduzir toda a questão a esses exageros seria igualmente injusto. Porque basta olhar ao redor, ou um pouco além de nossas fronteiras, para perceber que a realidade ainda está longe de ser plenamente civilizada.

Aqui mesmo no Brasil, ainda convivemos com números alarmantes de violência doméstica, feminicídios e abusos que revelam o quanto a dignidade feminina continua sendo violada dentro de lares, ruas e ambientes de trabalho. Não são estatísticas abstratas; são vidas interrompidas, famílias destruídas e comunidades feridas.

E quando ampliamos o olhar para o cenário internacional, o quadro pode tornar-se ainda mais sombrio.

Em várias regiões do mundo, meninas continuam sendo impedidas de frequentar escolas. Em alguns países, estudar ainda pode ser considerado um ato de rebeldia feminina. Nos últimos dias, por exemplo, surgiram relatos perturbadores de bombardeios e ataques a escolas destinadas à educação de meninas no contexto da guerra no Oriente Médio, lembrando ao mundo que, para certas ideologias e regimes, a educação feminina ainda é vista como ameaça.

Sim, ameaça.

A ideia de que uma menina possa aprender, ler, pensar, escolher sua profissão ou seu destino ainda provoca medo em determinados lugares do planeta.

Além disso, como costuma dizer uma grande amiga, a Rosângela: "A Mulher é um portal pelo qual todos vem ao mundo... é o Homem tem a chave deste portal. Cabe ao dono da chave zelar pelo portal!" Veja bem: zelar não significa possuir, ou mandar... Mas, extrapolando esta ideia, se destruiu o portal, nada mais passa por ele... Logo, dizimando as mulheres de uma localidade, acaba-se com aquele povo, simples - e cruel - assim!

Quando observamos esse tipo de realidade, percebemos que muitas das discussões travadas nas redes sociais do Ocidente são, em certa medida, luxos de sociedades que já avançaram bastante, ainda que imperfeitamente, no campo dos direitos civis.

Em outras partes do mundo, a batalha ainda é muito mais elementar.

Trata-se simplesmente do direito de existir com dignidade. Ou apenas, de existir!

Talvez por isso o 8 de março não devesse ser apenas uma data de celebração. Tampouco deveria ser monopolizado por discursos ideológicos estreitos. Ele deveria ser, antes de tudo, um momento de consciência histórica.

Um lembrete de que os direitos não caíram do céu.

Foram conquistados.

Foram defendidos.

Foram pagos, muitas vezes, com sofrimento real.

E, como toda conquista humana, também precisam ser preservados.

Desta feita, a melhor homenagem que se pode fazer às mulheres não está apenas nas palavras bonitas publicadas uma vez por ano; está na construção cotidiana de uma sociedade em que respeito, segurança e oportunidades não dependam do sexo de alguém.

Uma sociedade em que meninas possam estudar sem medo.

Em que mulheres possam trabalhar sem violência.

Em que mães, filhas, irmãs e amigas possam simplesmente viver com dignidade.

Se um dia chegarmos plenamente a esse ponto, talvez o 8 de março se torne apenas uma data histórica, lembrada nos livros.

Até lá, meus caros, ele continua sendo necessário.

E talvez mais necessário do que gostaríamos de admitir.

Abraços fraternos.