Por Diego de Almeida
Lula chegou ao fim desta eleição com um histórico de políticas públicas que merece reconhecimento e um passivo político que continua exigindo explicações. Flávio Bolsonaro apresentou a segurança pública como uma de suas principais bandeiras, mas traz uma experiência parlamentar mais restrita, controvérsias sobre integridade e uma vinculação política que considero preocupante para a democracia. Tenho ressalvas aos dois. A vitória de um e a derrota do outro não alteram a obrigação de examinar o que fizeram, como exerceram o poder e quais compromissos estão dispostos a respeitar.
Nos governos Lula, o Bolsa Família, o ProUni e o Luz para Todos produziram entregas identificáveis nas áreas de renda, educação e acesso a serviços essenciais. No mandato iniciado em 2023, o IBGE registrou uma queda da pobreza de 27,3% para 23,1% entre 2023 e 2024, equivalente a 8,6 milhões de pessoas. Reconhecer esse resultado não exige filiação partidária. Exige também cuidado: ele decorre de uma combinação de políticas, mercado de trabalho e condições econômicas, e não de uma virtude pessoal do presidente. A aprovação da reforma tributária do consumo é outra realização institucional, cujo mérito deve ser dividido com o Congresso e cujo efeito completo ainda depende da implementação.
A melhora social exige também uma avaliação de sua sustentabilidade ao longo do tempo. A trajetória da dívida pública e as dificuldades fiscais apontadas pela Instituição Fiscal Independente impedem qualquer celebração despreocupada. Um benefício pode fazer diferença imediata na vida de uma família e, ainda assim, precisar de financiamento mais responsável. Cobrar eficiência, prioridades e equilíbrio nas contas é também proteger as pessoas que mais dependem dos serviços públicos, porque são elas que têm menos alternativas quando o Estado perde capacidade de atendê-las.
Flávio merece ser avaliado pelo trabalho que efetivamente realizou. Sua relatoria da proposta de restrição às saídas temporárias de presos é uma contribuição parlamentar documentada. A preocupação com a segurança é legítima, sobretudo para quem convive com a violência sem poder comprar proteção. Mas aprovar uma medida penal não demonstra, por si só, que ela reduziu crimes. É necessário avaliar resultados, custos e efeitos sobre a reincidência. Também não cabe transferir automaticamente ao filho os méritos do governo do pai. Se pede reconhecimento pela própria carreira, precisa responder pelas entregas dessa carreira.
No campo judicial, a comparação exige precisão. Lula foi condenado nos casos do triplex e do sítio de Atibaia, mas essas condenações foram anuladas pelo reconhecimento da incompetência da Justiça Federal de Curitiba. No caso do triplex, o STF também reconheceu a parcialidade de Sergio Moro. Isso tem importância que ultrapassa qualquer preferência eleitoral: um julgamento precisa respeitar a competência do juízo e a imparcialidade de quem julga. Não se pode continuar usando uma condenação anulada como se ela permanecesse válida.
Flávio, por sua vez, foi denunciado no caso das chamadas rachadinhas, que investigou suspeitas de apropriação de salários de assessores de seu gabinete na Assembleia Legislativa do Rio. Provas foram consideradas ilegais, e a denúncia acabou rejeitada após essas decisões. Também aqui não cabe apresentar uma suspeita como crime comprovado. Se reconheço a importância das garantias processuais para Lula, tenho de reconhecer sua importância para Flávio. Escolher quem merece um processo regular conforme a simpatia política seria abandonar o princípio que se diz defender.
Anulação processual e absolvição após exame do mérito são decisões diferentes. Essa distinção, entretanto, não autoriza manter ninguém indefinidamente condenado no debate público. Investigações precisam produzir provas válidas e admitir desfechos favoráveis aos investigados quando não se sustentam. Ao mesmo tempo, a discussão sobre integridade inclui transparência, conflitos de interesse e explicações sobre o exercício do cargo, questões que não se esgotam na existência ou ausência de uma condenação penal.
As controvérsias atuais tampouco podem ser varridas para debaixo do tapete. Flávio é investigado em relação ao financiamento do filme sobre seu pai e enfrenta apurações sobre vínculos financeiros, negando irregularidades. No entorno de Lula, investigações sobre seu filho e seu ex-chefe de gabinete exigem esclarecimentos; as acusações também são contestadas. Não existe culpa transmitida por parentesco, mas existe o dever de permitir apurações independentes, inclusive quando alcançam pessoas próximas. A reação de um governante a essas investigações ajuda a revelar seu compromisso com a integridade pública.
O mesmo cuidado vale para a responsabilidade política. Lula não foi réu no processo do mensalão, mas isso não elimina a cobrança sobre o funcionamento de seu governo e a escolha de auxiliares. A culpa penal depende da participação individual demonstrada em processo; a avaliação de uma liderança inclui o ambiente de poder que ela ajuda a construir. É possível reconhecer as políticas sociais de seus governos e continuar profundamente insatisfeito com práticas de coalizão, relações de conveniência e tolerância com aliados que precisam prestar contas.
É desse lugar que escrevo. Sou médico e venho de uma família humilde do interior do Paraná. Minha trajetória não me permite tratar a desigualdade como uma abstração nem considerar que o acesso à saúde, à educação e às oportunidades possa depender apenas do esforço individual. O esforço tem valor, mas seu resultado também depende das condições em que cada pessoa começa e dos obstáculos que encontra. Minha origem me cobra fidelidade às questões sociais, inclusive quando seria mais confortável olhar apenas para os interesses da posição profissional que alcancei.
Essa fidelidade não me obriga a aceitar qualquer programa anunciado em nome dos pobres. Obriga-me a perguntar se ele funciona, se chega a quem precisa e se consegue produzir uma melhora duradoura. A qualidade de uma política social deve ser medida pela vida que ajuda a melhorar, com atenção à autonomia das pessoas e ao uso responsável dos recursos. A pobreza não pode virar instrumento permanente de dependência eleitoral, assim como a responsabilidade fiscal não pode servir de desculpa para ignorar sofrimento evitável.
Minha profissão acrescenta outra obrigação: respeitar o conhecimento científico. Na medicina, uma convicção precisa ser revista quando a evidência a contraria. Não posso reservar esse compromisso ao consultório e suspendê-lo diante de um palanque. Recuso o uso de medicamentos, tratamentos e políticas de saúde como testes de lealdade partidária. A ciência tem limites e incertezas, que precisam ser comunicados com honestidade; justamente por isso, exige método, avaliação crítica e disposição para corrigir erros. Transformar desinformação em estratégia política é incompatível com a responsabilidade que reconheço na minha profissão.
Não sou petista e não gosto de Lula. Tenho críticas ao seu modo de exercer o poder e não lhe ofereço confiança irrestrita. Ainda assim, considero que o bolsonarismo representa um risco mais grave à preservação das regras democráticas. Essa avaliação não nasce da ideia de que todo conservador seja autoritário, nem da pretensão de desqualificar milhões de eleitores. Ela se apoia na relação de suas principais lideranças com a derrota eleitoral, a responsabilização por ataques às instituições e os limites impostos pela Constituição.
A tentativa de ruptura que se seguiu à eleição de 2022 não pode ser reduzida a uma divergência de interpretação política. Em setembro de 2025, a Primeira Turma do STF condenou Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado e outros crimes. Essa responsabilidade penal é dele, não de seu filho. O posicionamento de Flávio, contudo, pode e deve ser avaliado: ao prometer indultar o pai, coloca o uso de um poder presidencial em favor de um interesse familiar no centro do projeto político. Vejo nisso uma razão concreta para desconfiança, sobretudo diante da necessidade de desestimular novas tentativas de ruptura.
Tenho respeito por quem votou em Flávio por preocupação com a segurança, discordância econômica ou rejeição ao PT. Esses motivos merecem ser ouvidos. Esse respeito não diminui minha oposição a projetos que relativizem o direito de o adversário governar quando vence uma eleição. A democracia exige que todos possam perder, continuar fazendo oposição e disputar novamente o poder. Nenhum grupo pode condicionar a validade desse acordo à própria vitória.
Também seria incoerente exigir limites dos bolsonaristas e oferecer tolerância automática ao governo Lula ou ao Judiciário. A independência dos Poderes precisa conviver com fiscalização, fundamentação das decisões e mecanismos de responsabilização. O Congresso tem o dever de legislar e fiscalizar, o Executivo deve governar dentro da lei, e os tribunais precisam proteger direitos respeitando as garantias que justificam sua autoridade. Criticar uma decisão judicial, recorrer dela ou propor mudanças constitucionais pelos meios legítimos faz parte da democracia. Intimidar instituições ou tentar substituir as regras pela força constitui outra conduta.
Minha posição, portanto, é de vigilância sobre o governo que venceu e sobre as forças que continuarão disputando o poder. Vou cobrar políticas sociais eficazes, atenção à ciência, transparência e respeito às liberdades, inclusive à liberdade de quem discorda de mim. Quero uma oposição capaz de apresentar alternativas e fiscalizar, sem alimentar aventuras autoritárias. E quero instituições que aceitem ser examinadas com o mesmo rigor que exigem dos cidadãos.
O resultado das urnas estabelece quem recebeu autorização para governar dentro da Constituição. A fiscalização continua sendo responsabilidade de todos nós. Minhas ressalvas a Lula permanecem, assim como minha rejeição ao golpismo. Como médico e como alguém que conhece sua própria origem, devo manter o compromisso com as condições de vida das pessoas e com as regras que permitem defendê-las em liberdade, mesmo quando isso contraria as conveniências de um grupo político.

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