segunda-feira, 28 de setembro de 2026

A CEGUEIRA POR STATUS

 


Por Diego de Almeida

Ela estava ali o tempo todo...

Há uma pequena cena que se repete em meu consultório com uma frequência maior do que eu gostaria de admitir. O paciente chega, é recebido por minha esposa, passa pela consulta comigo, conversa, sorri, conta detalhes da própria vida e, ao terminar, despede-se cordialmente. Ao sair, porém, atravessa a recepção sem sequer olhar para ela. Não há um “obrigado”, um “até logo” ou mesmo aquele breve aceno de cabeça que usamos para reconhecer a presença de outra pessoa. É como se, depois de cumprir sua função, ela simplesmente deixasse de existir.

Minha secretária é ótima e eficiente! Além de secretária no consultório é também administradora e minha instrumentadora cirúrgica. Participa da organização da agenda, recebe pacientes, responde mensagens, prepara documentos, acompanha procedimentos e conhece cada etapa daquilo que fazemos. Em muitas ocasiões, é a primeira pessoa com quem o paciente entra em contato e a última que encontra antes de ir embora. Ainda assim, para alguns, ela parece fazer parte da estrutura física do consultório, quase como a cadeira da recepção, o computador sobre a mesa ou a porta que se abre para dar passagem.

Curiosamente, tudo muda quando descobrem que ela é, também, minha esposa.

A pessoa que minutos antes passou sem olhar volta a sorrir. A voz ganha outra delicadeza. Surge um interesse que não existia, às vezes acompanhado de uma intimidade repentina. Ela deixa de ser apenas “a secretária” e passa a ser “a esposa do médico”. Nada mudou em sua competência, em seu trabalho ou em sua dignidade. O que mudou foi o lugar que lhe atribuíram na hierarquia invisível das relações humanas.

Esse fenômeno poderia ser chamado de cegueira seletiva de status. Não se trata de uma incapacidade real de enxergar, mas de uma forma socialmente condicionada de perceber as pessoas. Vemos com clareza aqueles a quem atribuímos importância, poder, prestígio ou alguma utilidade para nossos interesses. Os demais permanecem numa espécie de periferia da consciência. Estão presentes, falam conosco, trabalham por nós, facilitam nossa vida, mas não chegam a ser plenamente reconhecidos.

É evidente que nem toda despedida esquecida é uma manifestação de desprezo. As pessoas se distraem, estão preocupadas, recebem uma notícia durante a consulta ou simplesmente têm hábitos sociais diferentes. Seria injusto transformar cada falta de cumprimento em prova de arrogância. O que chama a atenção, contudo, é a repetição do comportamento e, principalmente, a mudança imediata quando a relação conjugal se torna conhecida. Esse contraste funciona quase como um pequeno experimento moral: a pessoa é a mesma, mas passa a ser tratada de outra maneira porque foi reposicionada na escala imaginária do prestígio.

A psicologia social brasileira possui um exemplo marcante dessa invisibilidade. No início de sua pesquisa na Universidade de São Paulo, Fernando Braga da Costa vestiu o uniforme dos garis que trabalhavam no campus e passou a acompanhá-los em suas atividades. Ao circular pelo Instituto de Psicologia usando o uniforme, percebeu que colegas e conhecidos deixavam de cumprimentá-lo. Pessoas que normalmente conversavam com ele passavam ao lado sem reconhecê-lo. O estudante não havia desaparecido fisicamente, mas o uniforme havia ocupado o lugar do homem. Já não viam Fernando; viam apenas um gari. Sua dissertação deu origem ao conhecido estudo sobre a “invisibilidade pública”, posteriormente divulgado no livro Homens invisíveis: relatos de uma humilhação social.

O uniforme, naquele caso, não apenas identificava uma profissão. Funcionava como uma espécie de filtro social. Ao revelar uma ocupação considerada de baixo prestígio, autorizava os outros a não olhar. José Moura Gonçalves Filho, ao tratar da humilhação social, observou que o trabalhador pode ser reduzido àquilo que chamou de “visibilidade bruta do papel servil”. A função permanece visível, porque precisamos que o chão seja limpo, que a porta seja aberta, que o lixo seja recolhido e que o atendimento seja organizado. A pessoa que executa a função, entretanto, desaparece.

Não creio que isso ocorra apenas com garis, trabalhadores da limpeza ou porteiros. A mesma lógica aparece nos restaurantes, quando alguém trata o garçom com aspereza e o proprietário com reverência; nos condomínios, quando o morador conhece todos os vizinhos, mas ignora o nome de quem trabalha diariamente na portaria; nos hospitais, quando se agradece ao médico, mas não se percebe a técnica de enfermagem que passou a noite administrando medicamentos, verificando sinais vitais e atendendo chamados. Também aparece dentro das empresas, onde quem ocupa a sala mais ampla recebe cumprimentos que raramente chegam àqueles que mantêm a rotina funcionando.

As pesquisas sobre prestígio ocupacional ajudam a compreender esse comportamento. A profissão não determina apenas renda ou escolaridade. Ela também confere uma quantidade variável de respeito, admiração e deferência social. Estudos contemporâneos mostram que as pessoas compartilham percepções relativamente estáveis sobre quais ocupações seriam mais ou menos prestigiosas, e essas percepções influenciam a atenção e o tratamento dispensados a quem as exerce. Em termos simples, não reagimos apenas ao indivíduo que está diante de nós; reagimos também ao título, ao uniforme, ao cargo e ao lugar social que imaginamos que ele ocupe.

No caso de Scheila, há ainda um segundo elemento, o gênero. Atividades de acolhimento, organização, assistência e cuidado são frequentemente desempenhadas por mulheres e, por isso mesmo, costumam ser tratadas como uma extensão natural de uma suposta disposição feminina para servir. Receber bem, lembrar horários, acalmar um paciente, antecipar uma necessidade, organizar os instrumentos ou perceber que alguém está apreensivo parecem gestos espontâneos, como se não exigissem atenção, experiência, responsabilidade e trabalho.

A literatura sobre o chamado trabalho invisível mostra que as mulheres são mais frequentemente encarregadas de tarefas administrativas, relacionais e emocionais que mantêm organizações funcionando, mas oferecem pouco reconhecimento. Um estudo publicado na American Economic Review demonstrou que mulheres não apenas se voluntariam mais para tarefas com pouca possibilidade de promoção, como também são mais solicitadas a realizá-las e aceitam esses pedidos com maior frequência. Outras pesquisas descrevem como atividades ligadas ao cuidado, à gentileza e à empatia acabam sendo pouco recompensadas justamente porque são vistas como comportamentos femininos naturais, e não como competências profissionais.

Isso se torna particularmente evidente na área da saúde. Relatório da Organização Mundial da Saúde mostrou que as mulheres constituem a maior parte da força de trabalho mundial em saúde e assistência social, mas permanecem concentradas em funções de menor remuneração e prestígio, enquanto os homens ocupam, proporcionalmente, mais posições de liderança. O próprio título do relatório resume a contradição: Delivered by women, led by men, algo como “realizado por mulheres, liderado por homens”. O cuidado é majoritariamente sustentado por elas, embora o reconhecimento e o poder continuem distribuídos de outra forma.

No consultório, essa estrutura aparece em escala reduzida. O médico ocupa o centro simbólico do atendimento. É em torno de sua autoridade técnica que a consulta formalmente se organiza. Entretanto, nenhum serviço de saúde funciona apenas com o profissional que aparece no centro. Há uma rede de pessoas que organiza, prepara, confirma, acolhe, instrumenta, higieniza, registra e acompanha. Muitas vezes, quanto melhor esse trabalho é realizado, menos ele é percebido. A engrenagem só se torna visível quando falha.

Talvez esteja aí uma das formas mais silenciosas de injustiça: beneficiamo-nos do trabalho de alguém e, justamente porque ele foi bem executado, deixamos de notar quem o realizou.

O que me incomoda nessa experiência não é apenas a ausência de uma saudação à minha esposa/secretária. Se fosse somente uma questão de etiqueta, bastaria lamentar a falta de educação e seguir adiante. O problema mais profundo é perceber que algumas pessoas parecem conceder humanidade em parcelas, de acordo com o cargo, a aparência, o parentesco ou a proximidade com alguém considerado importante.

Quando descobrem que Scheila é minha esposa, passam a tratá-la melhor. Mas ela não deveria precisar ser minha esposa para merecer um olhar. Não deveria precisar estar vinculada ao médico para ser reconhecida como profissional e, antes de tudo, como pessoa. Sua dignidade não nasce da relação que mantém comigo. Ao contrário, a mudança no comportamento dos outros apenas revela que aquela dignidade já estava ali e vinha sendo ignorada.

Há uma advertência moral importante nisso. A lição não pode ser “trate bem a secretária, pois ela talvez seja a esposa do médico”, assim como não deveria ser “respeite o funcionário, porque um dia ele poderá tornar-se seu chefe”. Esse tipo de conselho mantém intacta a lógica que pretende combater, pois continua condicionando o respeito à possibilidade de que o outro possua um status oculto ou venha a adquirir poder no futuro.

A verdadeira medida de nossa educação não aparece diante de quem pode nos favorecer. Ela se revela na maneira como tratamos aqueles de quem não esperamos nada além do trabalho que já realizam. É fácil ser gentil com o médico, o diretor, o proprietário ou a autoridade. A qualidade moral de alguém aparece com maior nitidez diante da recepcionista, do garçom, da auxiliar de limpeza, do porteiro e de todas as pessoas que nossa sociedade treinou os olhos para atravessar.

Cumprimentar alguém não é um favor, nem uma concessão. É uma forma elementar de dizer: “Eu percebo que você está aqui.” Talvez por isso a indiferença seja tão dolorosa. Ela comunica exatamente o contrário.

Scheila estava ali quando o paciente chegou. Estava ali quando organizou o atendimento, respondeu às dúvidas, preparou o que era necessário e se despediu. Continuava sendo a mesma mulher antes e depois de revelarem que era minha esposa. Se alguém só conseguiu enxergá-la depois dessa informação, então não foi ela quem mudou de posição.

Foi o olhar de quem finalmente resolveu vê-la.

Referências

BABCOCK, Linda; RECALDE, Maria P.; VESTERLUND, Lise; WEINGART, Laurie. Gender Differences in Accepting and Receiving Requests for Tasks with Low Promotability. American Economic Review, v. 107, n. 3, p. 714–747, 2017. DOI: 10.1257/aer.20141734.

COSTA, Fernando Braga da. Garis: um estudo de psicologia sobre invisibilidade pública. 2002. Dissertação (Mestrado em Psicologia) – Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2002.

GONÇALVES FILHO, José Moura. Humilhação social: um problema político em psicologia. Psicologia USP, São Paulo, v. 9, n. 2, p. 11–67, 1998. DOI: 10.1590/S0103-65641998000200002.

HUGHES, Bradley T.; SRIVASTAVA, Sanjay; LESZCZENSKY, Lars; CONDON, David M. Occupational Prestige: The Status Component of Socioeconomic Status. Collabra: Psychology, v. 10, n. 1, 2024. DOI: 10.1525/collabra.92882.

LAVEE, Einat; KAPLAN, Amit. Invisible Work at Work and the Reproduction of Gendered Social Service Organizations. Gender, Work & Organization, v. 29, n. 5, p. 1463–1480, 2022. DOI: 10.1111/gwao.12839.

WORLD HEALTH ORGANIZATION. Delivered by women, led by men: a gender and equity analysis of the global health and social workforce. Human Resources for Health Observer Series, n. 24. Geneva: WHO, 2019.

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

A Toga, O Banqueiro e A Confiança Perdida...


 Por Diego de Almeida

Meus caros,

Existe uma diferença importante entre cometer um crime e agir de maneira incompatível com a dignidade de uma função pública. O crime exige investigação, tipificação, provas, contraditório e julgamento. A incompatibilidade moral, por sua vez, pode ser percebida muito antes da sentença, quando os fatos revelam que alguém se colocou voluntariamente em uma situação que jamais deveria ter aceitado.

Essa distinção é indispensável para examinarmos as relações entre ministros do Supremo Tribunal Federal, seus familiares, o Banco Master e seu controlador, Daniel Vorcaro. Não se trata de acusar antecipadamente quem quer que seja de corrupção, tráfico de influência ou venda de decisões. Tampouco se pretende negar a presunção de inocência, princípio que deve valer para todos, inclusive para aqueles de quem discordamos.

O problema é outro, anterior ao próprio Direito Penal: homens investidos do poder de julgar os demais podem manter relações financeiras, profissionais e pessoais tão próximas com empresários submetidos à jurisdição da Corte?

Um ministro pode considerar normal que o escritório da esposa e dos filhos receba dezenas de milhões de reais de um banco, enquanto o controlador dessa instituição mantém acesso pessoal ao magistrado, marca encontros em residências particulares, oferece aeronaves e aparentemente lhe envia mensagens pedindo ajuda diante da proximidade de uma investigação policial?

Outro pode conduzir uma investigação que envolve um grupo empresarial ligado, ainda que por uma cadeia de fundos, a um negócio do qual ele próprio e seus familiares participaram?

Um terceiro pode aceitar uma viagem paga por advogada que representa interesses vinculados ao mesmo banco, ao mesmo tempo em que uma consultoria financiada pela instituição transfere valores ao escritório de seu filho?

Talvez algumas dessas condutas não configurem, isoladamente, uma ilegalidade. Mas desde quando a mais alta Corte do país deve se limitar àquilo que não consegue ser enquadrado imediatamente como crime?

A toga exige mais.

O caso mais grave, pela quantidade e pela proximidade dos elementos revelados, envolve o ministro Alexandre de Moraes. O escritório Barci de Moraes, integrado por sua esposa, Viviane Barci, e por filhos do casal, firmou com o Banco Master um contrato estimado em aproximadamente R$ 131 milhões. Dados fiscais divulgados pela imprensa indicam pagamentos superiores a R$ 80 milhões durante 22 meses.

O escritório afirma que os serviços foram efetivamente prestados, mencionando reuniões, pareceres jurídicos e o trabalho de vários profissionais. É possível que tenham sido. Familiares de ministros não estão proibidos de exercer a advocacia, prestar consultorias ou receber honorários compatíveis com seu trabalho.

Mas a pergunta incômoda permanece: por que justamente o escritório da família de um ministro do STF recebeu o maior valor entre dezenas de bancas contratadas pelo Master?

A situação tornou-se ainda mais delicada quando a Polícia Federal encontrou, nos metadados da minuta contratual, registros de edição atribuídos a um usuário identificado como “Ministro Alexandre de Moraes”. O escritório admitiu que o magistrado foi consultado para avaliar possíveis impedimentos, argumentando que não haveria problema porque a banca não atuaria em processos do Master perante o Supremo.

A explicação é formalmente conveniente, mas moralmente insuficiente. O conflito não nasce apenas quando a esposa do juiz assina uma petição dirigida ao marido. Também existe quando uma empresa sujeita à jurisdição do tribunal passa a representar uma fonte milionária de receita para sua família.

O próprio ministro participou da avaliação de um contrato que beneficiaria economicamente sua esposa e seus filhos. Ainda que tenha feito apenas uma análise técnica, como sustenta o escritório, a prudência recomendava que se mantivesse completamente distante da negociação. A melhor consulta sobre um possível conflito de interesses não deveria ter sido feita justamente ao maior interessado em evitar a aparência desse conflito.

Vieram depois as mensagens atribuídas pela Polícia Federal a Daniel Vorcaro. Nelas, o banqueiro teria perguntado a Moraes, dois dias antes de sua prisão, se deveria estar fora do país. Em outros momentos, indagou sobre a possibilidade de ser preso, perguntou se era possível “bloquear” determinada medida e solicitou ajuda junto a pessoas identificadas como o diretor-geral da Polícia Federal e o procurador-geral da República.

Moraes nega ter recebido essas mensagens. As respostas, supostamente encaminhadas por imagens de visualização única, não foram recuperadas integralmente. Também não há, até o momento, prova pública de que qualquer pedido tenha sido atendido.

Tudo isso precisa ser apurado com seriedade. Mas é precisamente essa apuração que não pode ser substituída por negativas lacônicas, disputas processuais ou manifestações corporativas de solidariedade.

Há ainda as aeronaves. A Polícia Federal encontrou minutas de uma segunda contratação, no valor de R$ 50 milhões, que previa o pagamento de R$ 40 milhões por meio de cotas de um jatinho e de um helicóptero. O escritório afirma que esse contrato não foi assinado. Entretanto, mensagens indicam que as aeronaves já estavam sendo utilizadas, inclusive por integrantes da família.

Como se não bastasse, o Banco Master emitiu cartões de crédito com limite de R$ 300 mil para dois filhos do ministro, após autorização pessoal de Vorcaro. O escritório declarou que os cartões jamais foram utilizados. Ainda assim, não parece normal que o controlador de uma instituição financeira acompanhe pessoalmente a emissão de cartões de alto limite para os filhos de um magistrado cuja família recebe milhões daquela mesma instituição.

No caso de Dias Toffoli, os fatos seguem um caminho diferente, mas chegam à mesma zona de desconforto moral.

Toffoli reconheceu que era acionista da Maridt Participações, empresa constituída com seus irmãos e que possuía interesses no resort Tayayá. Parte da participação no empreendimento foi adquirida pelo fundo Arleen, ligado a uma cadeia de fundos cujo beneficiário foi associado a Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro e apontado como operador financeiro de seu grupo.

Isso não prova que Toffoli tenha recebido dinheiro diretamente de Vorcaro. A interposição de fundos pode tornar tecnicamente verdadeira a afirmação de que nunca houve pagamento direto. Porém, mensagens mostram o banqueiro cobrando aportes relacionados ao empreendimento, enquanto recursos milionários percorriam a estrutura financeira que se tornou sócia do negócio da família do ministro.

Mesmo assim, Toffoli assumiu a relatoria da investigação do Banco Master.

Durante sua condução, decretou sigilo elevado, convocou uma acareação antes de os envolvidos terem sido regularmente ouvidos, criticou a Polícia Federal, determinou que aparelhos apreendidos fossem lacrados e enviados ao STF, transferiu depois a custódia à Procuradoria-Geral da República e, em novo recuo, escolheu nominalmente peritos da própria PF para examinar o material.

A sucessão de ordens, recuos e intervenções produziu aquilo que um magistrado prudente deveria evitar: a suspeita de que o procedimento estava sendo conduzido de forma personalizada.

A situação tornou-se insustentável. Os ministros do Supremo divulgaram então uma nota coletiva afirmando que não existia suspeição ou impedimento, que todos os atos praticados eram válidos e que Toffoli contava com o apoio dos colegas. No mesmo documento, aceitaram sua saída da relatoria em nome dos “altos interesses institucionais”.

Se não havia impedimento, por que retirar o relator? Se sua permanência ameaçava os interesses institucionais, como afirmar categoricamente que não existia suspeição?

A resposta encontrada pelo Supremo parece ter sido uma espécie de absolvição acompanhada de afastamento. Preservaram-se os atos, protegeu-se o colega e removeu-se o problema sem reconhecer oficialmente a causa do constrangimento. Pouco tempo depois, o próprio Toffoli declarou-se suspeito, por foro íntimo, em outra ação relacionada ao Banco Master.

Não é coerente. E não é transparente.

Kassio Nunes Marques também aparece nesse emaranhado. Uma consultoria que recebeu R$ 6,6 milhões do Master transferiu R$ 281,6 mil ao escritório de seu filho, Kevin Marques. Os envolvidos afirmam que houve prestação efetiva de serviços jurídicos e tributários. Até o momento, não há prova pública de que os pagamentos tenham qualquer relação com a atuação do ministro.

Entretanto, Nunes Marques e sua esposa também aceitaram viajar em um voo pago por uma advogada que representava o Master no Superior Tribunal de Justiça. A justificativa foi de que se tratava de uma comemoração particular entre amigos.

Pode ter sido exatamente isso. Mas ministros do Supremo não são cidadãos privados comuns. Suas amizades, presentes, viagens e hospitalidades precisam ser avaliados à luz da função que ocupam. Quando um advogado atua em causas de grande repercussão econômica, pagar o deslocamento particular de um magistrado não é uma gentileza social trivial.

O universo de relações de Vorcaro não se limitava a esses três ministros. O Banco Master patrocinou eventos luxuosos no Brasil e no exterior, frequentados por integrantes do STF, da Procuradoria-Geral da República, da Polícia Federal, do governo e do Congresso. Em Nova York, o banco custeou um jantar do qual participaram Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes, Luís Roberto Barroso e Ricardo Lewandowski.

Participar de um seminário patrocinado por empresa privada não torna ninguém corrupto. Jantar na mesma mesa de um empresário também não transforma um juiz em seu aliado. Seria falso moralismo fingir que autoridades, advogados e empresários não convivem socialmente.

O problema surge quando os mesmos personagens aparecem repetidamente em contratos milionários, aeronaves particulares, viagens pagas, investimentos cruzados, mensagens reservadas e processos judiciais. A soma dos fatos produz um quadro muito diferente da inocente coincidência alegada por cada episódio isoladamente.

A imparcialidade judicial não se resume ao estado psicológico do julgador. Não basta que o ministro declare, olhando para si mesmo, que se considera independente. A Justiça também precisa parecer imparcial para quem a observa de fora.

Um cidadão comum não tem o telefone pessoal de um ministro do Supremo. Não marca reuniões na residência do magistrado. Não lhe pergunta se deve deixar o país antes de uma operação policial. Não pede que converse com o diretor da Polícia Federal ou com o procurador-geral. Não oferece aviões, patrocina eventos internacionais nem contrata o escritório da família por dezenas de milhões de reais.

Quando tudo isso está ao alcance de um banqueiro, a igualdade perante a lei se transforma em uma frase bonita gravada sobre uma porta que poucos conseguem atravessar.

Que providências seriam compatíveis com a gravidade do momento?

Alexandre de Moraes deveria declarar-se impedido em qualquer processo relacionado ao Master, a Vorcaro e às pessoas e empresas envolvidas na investigação. Deveria também afastar-se de funções administrativas na direção da Corte enquanto a autenticidade e o contexto das mensagens forem apurados. Os contratos, pagamentos, cartões, viagens e utilização de aeronaves precisam ser esclarecidos documentalmente por uma investigação independente, com perícia submetida ao contraditório.

Dias Toffoli deveria formalizar sua suspeição em todos os processos direta ou indiretamente relacionados ao Master, não apenas deixar uma relatoria específica. Seus atos mais controversos deveriam ser reexaminados por colegiado sem participação de ministros alcançados pelos mesmos vínculos.

Kassio Nunes Marques deveria afastar-se das ações relacionadas à instalação de CPI ou a outros desdobramentos políticos e judiciais do caso, além de esclarecer publicamente as circunstâncias do voo pago pela advogada e os pagamentos realizados ao escritório de seu filho.

A Corte, por sua vez, deveria adotar um código de conduta vinculante, com regras claras sobre presentes, viagens, hospitalidade, participação em eventos patrocinados, contratos de familiares e declaração pública de conflitos de interesse. Não uma carta de intenções, mas normas acompanhadas de transparência e consequências.

Se as investigações demonstrarem que algum ministro efetivamente utilizou o cargo para proteger interesses privados, interferir em apurações ou favorecer contratantes de sua família, a questão deixará de ser apenas ética. Nesse caso, renúncia, aposentadoria antecipada ou responsabilização constitucional não poderão ser tratadas como exagero ou perseguição política.

Não se trata de caça às bruxas. Trata-se de impedir que a toga funcione como escudo contra perguntas que seriam feitas com muito menos cerimônia a qualquer outro cidadão.

A integridade de uma instituição não é preservada escondendo suas manchas. Preserva-se reconhecendo-as, investigando suas causas e removendo aquilo que compromete sua credibilidade.

O Supremo ainda pode reagir. Mas, para isso, seus ministros terão de compreender que defender a Corte nem sempre significa defender seus integrantes. Em determinadas circunstâncias, proteger a instituição exige justamente que alguns de seus membros deem um passo atrás.

Porque ninguém é maior do que o cargo que ocupa. E nenhuma amizade, contrato, viagem ou conveniência pessoal pode valer mais do que a confiança pública na Justiça.

A toga não pertence ao ministro. Pertence à República.

Abraços fraternos.