Por: Diego de Almeida
Há textos que se escrevem com a razão. Outros, inevitavelmente, são ditados pela memória, e estes, quase sempre, vêm embebidos de saudade.
“Estimado”. Assim, com essa simplicidade carregada de afeto, meu padrinho me saudava a cada encontro: “Meu estimado!”. E não era apenas uma palavra escolhida ao acaso. Era, antes, um retrato fiel daquilo que ele próprio era: querido, respeitado, benquisto. Um homem que fazia jus, em vida, ao adjetivo que tão generosamente distribuía.
O Padrinho Osmar Vieira tinha dessas presenças que não se impõem, acolhem. Voz mansa, sorriso largo, gestos sempre afetuosos. Cardíaco de longa data, é verdade… mas ouso dizer que seu coração não sucumbiu à doença; talvez tenha apenas se rendido ao excesso de amor que carregava.
Partiu no dia de Tiradentes. Data cívica, de memória e de significado. E há, nisso, uma certa poesia silenciosa, como se até o calendário tivesse escolhido um dia digno para a despedida.
Jornalista por formação, diácono permanente por vocação. Quase trinta anos de ministério vividos com entrega genuína, dessas que não pedem reconhecimento, mas deixam marcas profundas. Estava sempre disponível: uma palavra de consolo, uma escuta paciente, uma presença discreta nas horas difíceis. Não importava o horário, não importava o cansaço.
Quando eu fui crismado (sacramento católico), ele me deu uma bíblia, que guardo com carinho até hoje... não leio tanto quanto deveria, mas está lá no meu quarto, sempre ao alcance da mão, se precisar.
E quando eu entrei pra faculdade de medicina, em 1998, passávamos por um período complicado. então foi ele que deu o dinheiro pra eu comprar o meu primeiro livro médico: Atlas de Anatomia Humana de Yokochi! Foram 98,00 reais... uma fortuna, na época! Ele nunca fez menção de cobrar algo em troca...
Era sério quando necessário, mas, na maior parte do tempo, era um verdadeiro pândego. Brincava com tudo. Inclusive com o próprio nome. Dizia, com aquele sorriso maroto: “Erraram na concordância… o certo era O Mar, e não Osmar… embora haja Os mar que vêm pra bem…”. E vinha mesmo. Tanto que, até no hospital, já o conheciam como “o Osmar que vem pra bem”.
Havia nele uma leveza quase desconcertante diante da vida. Dizia que gostava de acordar cedo, não por disciplina rígida, mas para “ter mais tempo sem fazer nada depois”. E acordava mesmo. Quatro da madrugada já o encontravam de pé. Entre uma oração e outra (e não eram poucas), lá estava ele, fiel ao seu ritual: chimarrão em mãos, proseando com o Sr. Antônio, seu sogro, como quem cultiva o tempo em estado bruto.
Depois, vinha o cuidado com o corpo, ou algo próximo disso. Tinha o hábito (ou seria o exagero?) de consumir uma quantidade quase mítica de frutas pela manhã. Doze? Dezesseis? Confesso que a memória falha… mas a imagem permanece: um homem simples, cercado de cores, sabores e exageros que só faziam sentido dentro da lógica muito própria de sua alegria de viver.
Aliás, ele próprio dizia que comia apenas uma vez ao dia: “Começo de manhã e termino à noite”. E dizia isso com a naturalidade de quem encontrou, à sua maneira, um jeito leve de atravessar o cotidiano.
Quem o visse de relance — figura miúda, aparência comum — dificilmente perceberia a grandeza que ali habitava. Mas bastava sentar-se ao seu lado por alguns minutos… e estava feito: conquistava. Sem esforço, sem intenção. Apenas sendo.
Deixou uma esposa dedicada, três filhos bem formados, netos que certamente herdarão algo dessa luz tranquila. Deixou amigos — muitos. Talvez mais do que ele próprio pudesse contar.
Mas, sobretudo, deixou aquilo que não se inventa nem se substitui: um legado silencioso de presença, de serviço e de bondade cotidiana. Dessas virtudes que não fazem alarde, mas que sustentam o mundo sem que percebamos.
Mais de três décadas de dedicação à Igreja e à comunidade não se encerram com um adeus. Permanecem. Ecoam. Continuam a agir, de algum modo, naqueles que foram tocados por sua passagem.
E, sim: fará falta. Uma falta mansa, daquelas que não gritam, mas que se instalam devagar, nos pequenos detalhes: no cumprimento que não virá, na piada que não será contada, na cadeira que permanecerá vazia.
Ide em paz, meu estimado padrinho Osmar.
Se houve, de fato, um erro de concordância em seu nome… foi apenas na gramática. Porque, na vida, o senhor foi, com absoluta precisão, alguém que veio para o bem.









