sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

“Entre o Clique e o Silêncio”

 


Por Diego de Almeida

Francamente, vivemos tempos curiosos. Nunca foi tão fácil acessar livros, artigos, vídeos, palestras, cursos, pranchas, comentários, “explicações definitivas” e, ironicamente, nunca pareceu tão difícil encontrar quem realmente leia, estude, medite ou se disponha a sentar com calma para pensar. Tudo está a um clique de distância, mas quase nada atravessa a superfície da mente. A informação chega rápido; o interesse, nem tanto.

Há quem diga — e a frase já circula como uma máxima moderna — que tempos fáceis produzem homens fracos. Não no sentido físico, claro, mas no sentido moral, intelectual e espiritual. E talvez o ponto mais delicado seja justamente esse: não somos menos capazes, apenas menos dispostos ao esforço. O desconforto do estudo profundo, da leitura lenta, da comparação de fontes, do silêncio reflexivo, foi sendo substituído por resumos, vídeos curtos e opiniões prontas, entregues com a gentileza de quem não exige nada em troca além de alguns minutos de atenção dispersa.

Assisti recentemente a um vídeo de um maçom — desses youtubers que hoje cumprem um papel curioso de instrutores digitais — falando sobre a perda progressiva do interesse dos maçons pelos livros, pelas bibliotecas pessoais, pela meditação e pelos grupos de estudo. Confesso que não lembro o nome do autor, mas lembro do incômodo que ficou. Porque não era um ataque, era um espelho. Antigamente, dizia ele, os maçons formavam pequenas células de estudo, trocavam livros, anotavam à margem, discutiam símbolos por semanas, às vezes por anos. Hoje, muitos se dão por satisfeitos após assistir a um vídeo em velocidade 1,5x.

E aqui convém uma pausa. Não se trata de nostalgia ingênua nem de demonizar a tecnologia. O problema não está no meio, mas no método — ou melhor, na ausência dele. A Maçonaria nunca foi uma Ordem de respostas prontas; sempre foi uma escola de perguntas bem formuladas. O símbolo não se explica, se contempla. O conhecimento não se consome, se constrói. E isso leva tempo. Tempo de leitura. Tempo de silêncio. Tempo de convivência intelectual.

A biblioteca pessoal, outrora tão valorizada, não era apenas um conjunto de livros, mas um mapa do caminho percorrido. Cada volume adquirido com esforço, cada obra lida e relida, cada anotação feita à lápis era, em si, um ato iniciático. Hoje, com milhares de PDFs armazenados e raramente abertos, corre-se o risco de possuir uma biblioteca infinita… e uma formação rasa.

O mesmo vale para os grupos de estudo. Eles exigem algo que nossa época parece evitar: compromisso, regularidade e exposição do próprio pensamento. É mais confortável consumir conteúdo sozinho do que sentar em círculo e sustentar uma ideia diante de Irmãos atentos, capazes de concordar — ou discordar. O estudo coletivo, afinal, lapida arestas. E ninguém gosta muito disso.

Talvez estejamos formando maçons extremamente informados, mas pouco formados; cheios de referências, mas vazios de método; conectados a tudo, menos ao trabalho interior. Uma Ordem rica em símbolos, mas pobre em simbolistas. E isso não se resolve com mais vídeos, mais posts ou mais facilidades. Resolve-se com uma decisão pessoal: desacelerar, escolher um livro, fechar a porta, silenciar o mundo e trabalhar a própria pedra.

Meus caros, a tecnologia pode ser uma aliada poderosa — desde que esteja a serviço do homem, e não o contrário. O verdadeiro progresso não é tornar tudo mais fácil, mas tornar o esforço novamente significativo. Ler menos, mas melhor. Saber menos coisas, mas compreendê-las de verdade. Falar menos e ouvir mais — inclusive o silêncio.

Abraços fraternos.

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Permita-se Permanecer Sempre Ensinável!

 


Por Diego de Almeida

Outro dia, um amigo me lançou uma dessas frases que parecem pequenas demais para causar impacto — mas que ficam ecoando como pedrinhas dentro do sapato da consciência: “Permaneça ensinável em todas as fases da vida. Nunca pare de aprender e ouvir. Permita-se a não ter todas as respostas.”

Confesso que sorri com condescendência no primeiro segundo. Frases assim costumam circular em canecas, quadros de consultório e posts de LinkedIn acompanhadas de um pôr do sol exageradamente saturado. Mas, como acontece com certas verdades simples, a coisa começou a me incomodar justamente por ser óbvia demais. Porque, no fundo, eu sei. E, sabendo, percebo o quanto falho.

Ensinável. Que palavra estranha para um adulto, não? Ela carrega um certo cheiro de sala de aula, de lousa verde, de boletim escolar. Mas talvez seja exatamente isso: nós aceitamos com naturalidade que uma criança seja ensinável, e tratamos como quase ofensivo que um adulto ainda o seja. Como se aprender, depois de certa idade, fosse um sinal de falha no planejamento original.

Acontece que, em algum ponto mal identificado da vida, a gente troca curiosidade por convicção. Troca pergunta por discurso. Troca escuta por resposta pronta. E ainda se orgulha disso.

Muitas vezes nos deparamos escutando alguém apenas o suficiente para preparar a réplica. Não para entender, mas para vencer. Não para aprender, mas para reafirmar. E sempre há uma justificativa elegante: “experiência”, “maturidade”, “senso crítico”, “já vivi o suficiente para saber como isso termina”. Tudo muito bonito — e tudo muito estéril.

Nunca pare de aprender e ouvir, diz a frase. Reparem que ela não fala só de aprender. Fala de ouvir. Porque aprender sem ouvir é apenas reciclar as próprias ideias com novas palavras. É aquele tipo de “estudo” que só serve para fortalecer preconceitos antigos com argumentos novos. O verdadeiro aprendizado exige a violência silenciosa de deixar uma ideia nossa morrer para que outra, melhor, possa nascer.

Mas aí vem a parte mais incômoda: permita-se não ter todas as respostas.

Isso, para mim, já não é mais autoajuda. É quase um voto espiritual.

Nós fomos treinados — profissionalmente, socialmente, digitalmente — para parecer competentes o tempo todo. Ter resposta virou sinônimo de valor. Dizer “não sei” virou sinônimo de fraqueza. Hesitar virou falha de caráter. E assim vamos construindo uma identidade baseada em certezas emprestadas, opiniões repetidas e verdades que nunca mais revisitamos.

O problema é que o mundo não parou para respeitar nossas certezas. Ele continua mudando, mesmo quando a gente finge que já entendeu tudo.

Permitir-se não ter todas as respostas é um ato de humildade ativa. Não é desistência intelectual; é abertura ontológica. É reconhecer que o real é maior do que o nosso repertório. Que a vida não cabe nos nossos manuais internos. Que talvez aquele estagiário, aquele aluno, aquele adversário político, aquele filho adolescente, aquele estranho na fila do banco… talvez todos eles saibam algo que eu ainda não sei.

E isso dói um pouco. Dói no ego. Dói na imagem que a gente construiu de si mesmo. Dói naquela fantasia confortável de que, se eu já cheguei até aqui, então devo estar certo sobre tudo... ou quase tudo, pelo menos.

Mas, entre a dor da humildade e a anestesia da arrogância, começo a achar que a primeira é a única que ainda nos mantém vivos por dentro.

No fundo, permanecer ensinável é aceitar viver em estado de rascunho. É admitir que não somos a versão final de nós mesmos. Que ainda há frases para reescrever, ideias para podar, convicções para revisar. Que a navalha de poda — aquela que corta excessos, ilusões e vaidades — ainda precisa passar por nós de vez em quando.

Talvez seja isso que essa frase tão simples esteja nos pedindo: menos palco, mais escuta. Menos discurso, mais pergunta. Menos certeza, mais presença.

E, quem sabe, um pouco mais de coragem para dizer, com serenidade adulta: “Eu não sei. Mas estou disposto a aprender.”

E assim sendo, sigo tentando.
Abraços fraternos.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

ENTREMENTES, O ENAMED...

 



Entrementes — palavra que anda sumida do vocabulário moderno, mas que cabe como uma luva aqui — saiu o resultado do tal ENAMED. E eu confesso: não fiquei surpreso. Fiquei, sim, inquieto. Que é pior. Os números são frios, como toda estatística. Um terço das escolas de Medicina com desempenho insatisfatório. Um terço! Traduzindo em gente de carne e osso: milhares de jovens médicos que, dentro de poucos meses, estarão atendendo gente como você, como eu, como sua mãe, como seu filho — com uma formação que o próprio Estado brasileiro reconhece como insuficiente. Não é uma discussão acadêmica. É uma discussão de pronto-socorro.

Sou médico. Gosto de sê-lo. Levo isso a sério. Talvez sério demais para os tempos líquidos em que vivemos, em que tudo virou serviço, produto, pacote, assinatura mensal. Inclusive a Medicina. O ENAMED veio para medir o óbvio: se estamos formando médicos que sabem o mínimo necessário para não fazer bobagem grave com um ser humano fragilizado numa maca. E a resposta foi: nem sempre.

Como foi que a gente chegou até aqui? Não foi de repente. Não foi ontem. Não foi por acaso. Foi um projeto. Mal desenhado, mal regulado e pior executado. Há uns vinte anos, alguém teve a ideia genial: “O Brasil precisa de mais médicos. Logo, precisamos de mais faculdades de Medicina.” Soa lógico. Parece progressista. Fica lindo no discurso eleitoral. Só esqueceram de um detalhe menor: qualidade não se imprime em decreto. Abriram cursos onde não havia hospital-escola. Onde não havia professor titulado. Onde não havia paciente suficiente para ensinar clínica. Onde não havia biblioteca decente, muito menos tradição acadêmica. E assim nasceu a aberração: diplomas iguais, médicos profundamente desiguais.

Hoje, Medicina virou um dos negócios mais rentáveis do ensino privado. Mensalidades de cinco dígitos. Turmas lotadas. Marketing agressivo. Outdoor prometendo “seu sonho de ser médico começa aqui”. Começa, sim. Termina mal, às vezes. Existe uma hipocrisia coletiva em torno desse assunto. Todo mundo sabe. Pouca gente fala. Médico mal formado não é só um drama pessoal do recém-formado inseguro. É um risco sanitário. É o infarto que passa batido. É a sepse que se diagnostica tarde. É o antibiótico errado. É o exame pedido sem critério. É a cirurgia indicada sem necessidade. É a complicação evitável. Não é teoria. É rotina hospitalar.

E aí começa a espiral: mais erro, mais processo, mais medicina defensiva, mais exames inúteis, mais custo para o sistema, mais desconfiança social. Todos perdem. Menos quem vendeu a vaga a doze mil reais por mês. Sempre houve médico ruim, é verdade. E sempre haverá. Somos humanos, afinal. A diferença é a escala industrial da coisa. Antes, o médico ruim era exceção. Hoje, corre o risco de virar produto seriado de um modelo educacional frouxo, permissivo e mercantilizado. O ENAMED apenas colocou números naquilo que todo mundo que pisa num hospital público (e alguns privados também...) já sente no dia a dia. Ele não é um ataque à Medicina. É um exame de consciência coletivo.

E aqui vem a parte incômoda para os relativistas: não é mistério por que algumas escolas dão certo. As que vão bem no ENAMED são, em geral, as mesmas de sempre. Públicas tradicionais, algumas privadas muito bem estruturadas. Elas têm hospital-escola de verdade, professor que dá aula e pesquisa, currículo baseado em evidência, não em moda pedagógica, rigor avaliativo, cultura de estudo, meritocracia sem firula. Não é magia. É método. É trabalho sério. É tempo. Formar médico não é startup. Não é franquia. Não é fast-food.

E qual é, afinal, o papel do médico nisso tudo? Aqui eu falo com algum lugar de fala, como dizem por aí. O médico não é só um prestador de serviço técnico. Não é um “fornecedor de laudo”. Não é um “aplicador de protocolo”. Ele é, ou deveria ser, guardião da vida, tomador de decisões irreversíveis, referência ética, líder técnico de equipes, última linha entre o erro e o desastre. Quando essa função se esvazia, a sociedade inteira paga o preço. Uma Medicina fraca gera uma sociedade insegura. Uma sociedade insegura gera mais controle, mais judicialização, mais desconfiança, mais burocracia. E aí ninguém mais confia em ninguém.

Quanto ao futuro, vejo três cenários. O primeiro é o brasileiro clássico: fingir que nada está acontecendo. Continuar abrindo faculdades. Continuar diplomando mal preparados. Continuar empurrando com a barriga. Esse termina mal. O segundo é o mínimo decente: usar o ENAMED como régua regulatória real. Fechar cursos ruins. Cortar vagas. Exigir padrão mínimo. Já ajudaria. O terceiro — que eu duvido, mas torço — é uma reforma de verdade: exame nacional obrigatório para exercício profissional, residência como porta de entrada padrão, investimento pesado em hospitais-escola, valorização real da docência médica, freio total na abertura de novos cursos. Sonhar não custa nada. Implementar custa coragem política.

Entrementes, seguimos. Eu sigo indo ao consultório. Você segue confiando no médico que lhe atende. O sistema segue rangendo. O Estado segue fazendo de conta. E o ENAMED fica ali, como um espelho incômodo na parede, mostrando um reflexo que ninguém gosta muito de encarar. Porque, no fundo, todo mundo já sabia. Só faltava a prova.

sábado, 13 de dezembro de 2025

NUNCA SE SOUBE TANTO... E NUNCA SE PENSOU TÃO POUCO

 


Nunca se soube tanto… e nunca se pensou tão pouco

Por Diego de Almeida

Vivemos em uma época curiosa. Talvez única na história humana. Nunca tivemos tanto acesso à informação e, paradoxalmente, nunca convivemos com uma massa tão expressiva de pessoas mal informadas, intelectualmente frágeis e orgulhosamente desinteressadas em aprender. A promessa era de iluminação coletiva; o resultado tem sido, em muitos aspectos, uma sofisticada forma de obscurantismo digital.

Entrementes, tornou-se necessário fazer uma distinção conceitual que raramente é respeitada no debate cotidiano: desconhecimento, ignorância e desinformação não são sinônimos — e confundi-los é parte do problema.

O desconhecimento é a condição mais honesta do ser humano. É simplesmente não saber. Ninguém nasce sabendo, ninguém domina todos os assuntos e todos nós transitamos, diariamente, por zonas inteiras do mundo que desconhecemos. O desconhecimento é fértil, pois dele nasce a curiosidade, o estudo, o aprimoramento. Dizer “não sei” sempre foi, e continuará sendo, um gesto de inteligência.

A ignorância, por sua vez, já é outra coisa. Não se trata apenas de não saber, mas de não querer saber. É a recusa deliberada do conhecimento disponível, o desdém pela leitura, pela escuta atenta, pela reflexão. A ignorância, diferente do desconhecimento, é frequentemente acompanhada de opinião forte, convicção ruidosa e uma desconcertante sensação de autossuficiência. É o sujeito que não estuda, não lê, não se aprofunda — mas fala com a segurança de quem acredita dominar o assunto.

Mais grave ainda é a desinformação. Aqui não estamos diante do vazio, mas do erro. O desinformado possui conteúdo, mas um conteúdo distorcido, falso ou manipulado. Ele acredita saber. E exatamente por isso se torna resistente à correção. A desinformação cria um fenômeno perverso: a ignorância convicta, aquela que se defende com agressividade e que transforma qualquer tentativa de esclarecimento em ataque pessoal.

O que torna tudo isso ainda mais inquietante é o cenário atual. Vivemos na era dos buscadores, das bibliotecas digitais, dos cursos gratuitos, das universidades abertas, dos livros acessíveis em segundos. Nunca foi tão fácil aprender. Ainda assim, nunca foi tão comum optar por não fazê-lo. A preguiça intelectual tornou-se aceitável, quase um traço cultural. Estudar passou a ser visto como esforço excessivo; pensar, como perda de tempo.

E nesse ambiente distorcido, os valores também se inverteram.

Hoje, vemos profissionais altamente gabaritados (médicos, professores, engenheiros, pesquisadores, cientistas) dedicando décadas ao estudo, acumulando títulos, responsabilidades e uma carga ética imensa, muitas vezes recebendo remunerações modestas e reconhecimento limitado. Ao mesmo tempo, assistimos a influencers digitais, rappers, celebridades instantâneas, frequentemente incapazes de concluir o ensino básico, acumularem milhões, influência e prestígio social, muitas vezes sem qualquer contribuição intelectual, cultural ou social proporcional.

Não se trata aqui de demonizar o sucesso financeiro ou artístico. Trata-se de refletir sobre o que estamos premiando como sociedade. Quando o ruído vale mais do que o conteúdo, quando a visibilidade vale mais do que o conhecimento, quando a opinião sem fundamento vale mais do que o estudo silencioso, algo está profundamente desalinhado.

Talvez o problema não seja apenas a ignorância, mas a sua celebração. Vivemos um tempo em que não saber não é mais vergonha - vergonha é parecer “complicado”, “intelectual”, “profundo demais”. O superficial tornou-se regra; o imediato, virtude.

E assim seguimos, cercados de informação, mas pobres de sabedoria. Capazes de acessar qualquer dado, mas incapazes de sustentar um raciocínio. Falando muito, ouvindo pouco. Opinando sobre tudo, compreendendo quase nada.

Talvez seja hora de resgatar um valor antigo e hoje quase subversivo: o compromisso com o melhoramento intelectual. Ler mais, estudar mais, ouvir mais, falar menos. Reconhecer o desconhecimento, combater a ignorância e desconfiar daquilo que parece informação fácil demais.

Porque, no fim, não é a falta de acesso que nos empobrece.
É a falta de vontade.

Abraços Fraternos.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

ENTRE OSSOS, SILÊNCIOS E REFLEXÕES...

 

foto Eduardo Ramos

Entre Ossos, Silêncios e Reflexões…

Por Diego de Almeida

Há alguns dias, o Irmão Eduardo Ramos, valoroso membro de nossa Loja Gênesis, enviou-me um conjunto de fotografias tiradas durante sua visita à célebre Capela dos Ossos, em Évora, Portugal. As imagens, confesso, chegaram a mim como se fossem fragmentos de um antigo sermão feito não com palavras, mas com poeira, argamassa e ossos humanos. E, entrementes, percebi que elas carregavam a mesma tonalidade moral e espiritual que tantas vezes buscamos dentro de nossos próprios Templos.

A Capela, construída pelos frades franciscanos nos séculos XVI e XVII, é uma das mais contundentes mensagens visuais da cristandade ocidental. Ali, mais de cinco mil esqueletos, homens, mulheres, crianças, anônimos todos, revestem paredes e colunas, compondo uma espécie de liturgia silenciosa sobre a brevidade da vida. A famosa inscrição na entrada, “Nós ossos que aqui estamos pelos vossos esperamos”, não é uma ameaça, mas um convite. Convite à consciência, ao despojamento, àquilo que os antigos chamavam de memento mori: lembra-te de que és mortal.

foto Eduardo Ramos

E ao contemplar as fotos enviadas pelo Irmão Eduardo, não pude deixar de lembrar da nossa própria Câmara de Reflexões, esse pequeno universo fechado onde o neófito se despede do mundo profano antes de nascer para uma nova jornada. Ali, cercado de símbolos de morte, silêncio e recolhimento, ele se vê diante das mesmas perguntas que a Capela dos Ossos grita em seu silêncio mineral:
O que tens feito da tua vida?
O que realmente importa?
O que ficará de ti quando o pó finalmente reclamar aquilo que lhe pertence?
foto Eduardo Ramos

A morte, essa velha desconhecida que todos evitamos nomear, sempre teve, para os maçons e filósofos, um papel pedagógico. Não como tragédia iminente, mas como mestra de prioridades. Observando as imagens da Capela, com seus crânios organizados em padrões quase geométricos, compreende-se que aqueles frades não pretendiam assustar ninguém; queriam, sim, suspender o visitante por um breve instante diante da verdade que todos fingimos ignorar: somos pó em trânsito, e nossa arrogância cotidiana é apenas uma distração daquilo que mais importa.

Entrementes, ironicamente, é preciso ir a um lugar onde a morte se expõe para lembrar-se de viver.

E talvez seja esse o maior ensinamento para nós, homens e mulheres que diariamente lutam contra o tempo, as agendas, as preocupações, os projetos que acumulamos como se fôssemos durar para sempre. No fundo, sabemos que não duramos. Mas esquecemos. E por isso nos irritamos com pequenas contrariedades, nos consumimos com disputas inúteis, desperdiçamos horas inteiras sem perceber o milagre simples de estar vivo.

foto Eduardo Ramos
As fotografias do Irmão Eduardo, especialmente aquela em que uma múmia repousa sob um vidro transparente, preservada na fragilidade que já pertence ao outro lado da existência, parecem sussurrar uma advertência: a vida não espera. Não adia. Não negocia. Ela passa. E passa rápido.

E se somos, como ensina a Câmara de Reflexões, convidados a refletir sobre o que verdadeiramente importa, talvez seja hora de olhar para as pequenas grandezas do cotidiano: o abraço apertado dos filhos e netos, o pão quente ao amanhecer, a brisa silenciosa que entra pela janela, a alegria discreta do trabalho bem feito, o afeto sincero dos que caminham conosco. Nada disso estará disponível para sempre.

Assim, meu caro leitor, permito-me concluir com uma síntese simples, quase doméstica, mas profundamente verdadeira: a consciência da morte é a mais eficaz professora da vida. Não para gerar medo, mas para gerar foco. Não para nos entristecer, mas para nos despertar.

E, enquanto isso, seguimos.
Entre colunas de ossos, câmaras de reflexão e o dia a dia que se desenrola, quase sempre sem alarde, diante de nós.
Que possamos, enfim, aprender a viver antes que o silêncio nos alcance.

Abraços Fraternos.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

O Tronco da Viúva e a Espiritualidade Maçônica

 


O Tronco da Viúva e a Espiritualidade Maçônica

Por Diego de Almeida

Entre os tantos símbolos que habitam o universo maçônico, há um que sempre me chama atenção pela simplicidade exterior e pela intensa profundidade interior: o Tronco da Viúva. Ele passa discretamente pelas mãos dos irmãos durante a sessão quase sempre acompanhado de silêncio, às vezes de uma prece íntima e retorna ao seu lugar como se nada tivesse acontecido. Mas algo sempre acontece. Algo se move na alma de quem contribui e também na de quem recebe.

À primeira vista, o Tronco da Viúva parece apenas uma coleta. Mas quem vive a Maçonaria de dentro sabe que ele é um pequeno ritual de transformação. O gesto de depositar ali o óbolo voluntário é um lembrete suave de que ninguém trilha o caminho sozinho. As Lojas tradicionais costumam dizer que somos todos “filhos da Viúva”, e isso carrega um peso simbólico enorme: somos, todos nós, seres carentes de amparo, buscando luz, equilíbrio e sentido.

Historicamente, o Tronco tem raízes nas caixas de beneficência das confrarias francesas do século XVIII. A Maçonaria herdou essa prática e lhe acrescentou um tempero espiritual: a caridade silenciosa, sem exibição, sem holofotes, quase como uma respiração do espírito fraterno.

Muitas vezes pensamos na Viúva como a esposa daquele irmão que partiu, ou naquele órfão que ficou desassistido. Mas, em linguagem simbólica, a Viúva representa algo maior. É a humanidade desprotegida, é a fragilidade que mora dentro de cada um, é a consciência de que também somos, em algum nível, desamparados em busca de amparo.

Contribuir para o Tronco é reconhecer essa verdade universal: que a dor do outro pode ser a nossa amanhã, e que somente uma fraternidade viva é capaz de sustentar o edifício moral que desejamos construir. 

Talvez a mais bela referência ao Tronco esteja na passagem bíblica em que Jesus observa uma viúva depositando duas pequenas moedas na caixa do templo. Aquilo que ela deu era pouco, mas representava tudo o que tinha. O Mestre conclui que sua oferta valeu mais do que a de todos os ricos.

É exatamente esse ensinamento que ecoa no Tronco da Viúva: o valor não está na quantia, mas na intenção, no sacrifício e na pureza do coração. É um gesto que nos confronta com o ego e nos propõe um exercício de humildade. Ele nos lembra que, na espiritualidade, grandeza e simplicidade costumam caminhar juntas.

A Maçonaria nos educa pelos símbolos, pelos ritos e também pelas pequenas atitudes. Ao depositar o óbolo no Tronco da Viúva, o maçom treina a empatia, a humildade, o desapego, o silêncio interior e a capacidade de agir sem esperar reconhecimento.

Um maçom jamais deve colocar sua mão vazia dentro da Bolsa! Que coloque uma moedinha, ao menos; mas que coloque! O maçom que não contribui com o Tronco da Viúva, não aprendeu o sentido da fraternidade real e da construção social. Mas não deve doar o que está sobrando, e sim, o que suas forças permitirem, sem prejudicar o sustendo de si próprio e de sua família. 

É uma ação aparentemente modesta, mas que modifica a arquitetura interior do iniciado. O Tronco é uma espécie de espelho moral: o que colocamos nele volta para nós em forma de crescimento, consciência e fraternidade.

Há quem diga que, quando o Tronco circula, não é apenas dinheiro que passa de mão em mão, mas luz. Luz que nasce da intenção sincera de ajudar. Luz que se soma à energia do templo. Luz que reforça a egrégora da Loja e a transforma em um espaço cada vez mais humano, mais acolhedor e mais verdadeiro.

Esse entendimento faz com que muitos irmãos vejam o Tronco como um pequeno sacramento laico, um ritual simples que conecta o material ao espiritual. Quem contribui com o coração sente, no fundo, que o gesto repercute além das paredes do templo.

No fim, o Tronco da Viúva é um lembrete de que a espiritualidade maçônica não é feita apenas de estudos profundos, de símbolos complexos ou de narrativas antigas. Ela se revela principalmente nos gestos concretos, nos cuidados discretos, na ajuda que chega sem alarde.

A caridade, quando nasce do coração e não da vaidade, é uma forma elevada de espiritualidade. E o Tronco da Viúva é um dos espaços onde essa espiritualidade ganha corpo, propósito e destino. Assim, uma Loja deve destinar o seu Tronco ao benefício dos necessitados, sejam eles Irmãos em dificuldade momentânea, familiares desassistidos ou os desvalidos da sociedade, como os residentes de asilos, orfanatos e casas de acolhimentos.

É na circulação do Tronco que aprendemos que a doação não empobrece, mas enriquece; não reduz, mas expande; não pesa, mas eleva. É ali que percebemos que o verdadeiro iniciado não é o que acumula, mas o que compartilha.

E, ao final de cada sessão, quando o Tronco volta ao seu lugar, algo dentro de nós também encontra repouso. Porque, de alguma forma, ajudamos a sustentar a Viúva e ela, simbolicamente, também nos sustentou.

terça-feira, 11 de novembro de 2025

A GERAÇÃO SANDUÍCHE

 


GERAÇÃO SANDUÍCHE

Por Diego de Almeida

Meus caros, não sei se vocês já ouviram falar da tal “geração sanduíche”. Pois bem, se não ouviram, eu explico: somos nós — os que estamos espremidos entre duas fatias de responsabilidade. De um lado, os filhos que não saem de casa; do outro, os pais que já não conseguem ficar sozinhos. E, no meio disso tudo, nós — o recheio, tentando manter o sabor da vida sem desmoronar o pão.

Entrementes, percebo que o mundo mudou de tal maneira que as fronteiras entre juventude e maturidade se borraram. Os filhos cresceram, mas não foram. Permanecem em seus quartos, conectados ao mundo, produtivos (às vezes), mas ainda dependentes, adiando o voo solo como quem teme as turbulências da vida adulta. Já os pais, que um dia foram o porto seguro, agora precisam que lhes seguremos a mão — não só para atravessar a rua, mas também para navegar pelas telas dos celulares e pelas confusões do tempo moderno.

E cá estamos nós, com as costas arqueadas de tanto empurrar o mundo pra frente e puxar o passado para perto. Administramos planilhas, remédios, boletos e emoções. Falamos com o filho sobre ansiedade, namoro e emprego, e logo em seguida explicamos à mãe por que o micro-ondas “não quer funcionar” (quando o problema é que ela esqueceu de apertar o start). Entre uma consulta médica e uma reunião de trabalho, ainda buscamos tempo — e forças — para preparar a sopa do pai e revisar o currículo do filho.

Mas, como se não bastasse, a vida ainda nos faz estreitar o sanduíche. Porque os filhos que não foram acabam nos trazendo os netos que ficam — e lá estamos nós, outra vez, trocando fraldas, contando histórias e aquecendo mamadeiras, como se o tempo tivesse dado uma volta completa e nos devolvido ao ponto de partida. Amamos esses pequenos com a ternura multiplicada dos anos, mas não sem a fadiga acumulada das décadas.

E há o medo — ah, o medo que não confessamos. O medo de adoecer. Medo de parar, de falhar, de cair de cama e perceber que, sem nós, tudo desanda. Somos a geração que acredita não ter o direito de ficar doente, porque há sempre alguém que precisa de nós: o pai, a mãe, o filho, o neto… O mundo parece girar sobre os nossos ombros, e a simples ideia de deixá-lo cair causa mais pavor do que a própria doença.

Ainda assim, há dias em que o corpo pede trégua e a alma, repouso. Dias em que queremos apenas fechar os olhos e deixar que o tempo cuide de tudo por algumas horas. Mas logo vem a consciência — aquela que não dá folga — sussurrando: “Quem vai cuidar dos outros, se você faltar?” E então engolimos o cansaço com o café morno e seguimos em frente, porque alguém precisa continuar segurando o pão.

Mas, ao fim da noite, quando vejo meus pais confortáveis, meus filhos a salvo e meus netos dormindo tranquilos, entendo que este é o preço — e também o privilégio — de estar no meio. Fomos cuidados para cuidar; amados para amar. E, ainda que o sanduíche pareça apertado demais, é nele que se encontram as camadas mais ricas da vida: o passado que ensinou, o presente que exige e o futuro que depende de nós.

Aos da geração sanduíche, meus respeitos e minha solidariedade. Que tenhamos sempre a força para segurar o pão sem deixar cair o recheio — e, quem sabe, um dia, a coragem de também descansar o prato.

Abraços Fraternos

∴ 

quinta-feira, 6 de novembro de 2025

Entre Picarões e Charlaretas



 

Entre Picarões e Charlaretas

Por Diego de Almeida

Tem dias em que a medicina parece menos a nobre arte de cuidar de gente e mais um mercado persa: tem de tudo, para todos os gostos, com promessa de milagre em 7 dias ou seu dinheiro de volta. No meio desse cenário, desfilam os “picarões” e os “charlaretas” – nossa brincadeira com picaretas e charlatões –, que vão ocupando espaço, vestindo jaleco, gravando Reels e empilhando seguidores, enquanto o velho compromisso com ciência, formação sólida e ética vai ficando num cantinho, meio esquecido, como aquele livro importante que a gente deixa de ler para assistir mais um vídeo curtinho no celular.

A medicina sempre teve seu lado comercial, não sejamos ingênuos. Mas havia, pelo menos em tese, uma espécie de “contrato moral”: primeiro, o paciente; depois, o resto. O diagnóstico vinha antes do orçamento, o prontuário antes da planilha, a anamnese antes do “pacote premium”. Só que, de uns anos para cá, a coisa virou. Em vez de discretos consultórios, brotam “institutos”, “centros avançados”, “hubs de saúde integrativa”, todos com logotipo chique, wi-fi potente, café gourmet e, naturalmente, algum pacote irresistível de procedimentos. A impressão é que, para muitos, o paciente virou cliente; o atendimento, produto; e a saúde, um nicho de mercado em expansão como qualquer outro.

Nesse caldo, o problema da má formação cai como uma luva. Nunca se abriu tanta vaga em curso da área da saúde. Formam-se médicos, mas também enxurradas de outros profissionais – o que em si não é ruim, pelo contrário. O problema é quando quantidade passa a ser confundida com qualidade. O sujeito sai da graduação cambaleando na propedêutica básica, mas em poucos meses já está oferecendo “protocolo exclusivo” de não sei o quê, com uma segurança que faria inveja a qualquer professor titular de quatro décadas de carreira. E se questionar, ainda corre o risco de ouvir: “você está atrasado, doutor, o mundo mudou, agora é medicina 5.0”.

A área da estética tornou-se o palco perfeito para esse espetáculo. É o território dos antes e depois, da foto com filtro, do “procedimento rápido, sem dor e com resultado imediato”. E aí começam a aparecer “especialistas” que nunca passaram nem perto da profundidade necessária de anatomia, farmacologia ou fisiopatologia, mas que aprenderam, em um fim de semana, a fazer procedimentos invasivos, mexendo em vasos, nervos e tecidos como se estivessem decorando um roteiro de teatro. De repente, todo mundo injeta, preenche, congela, dissolve, corrige… com a convicção inabalável de quem domina o assunto – até dar errado.

E quando dá errado, não é só o rosto que entorta; é a lógica toda do sistema. A complicação cai no colo de quem tem formação de verdade, de quem sabe o que é um trombo, uma necrose, um choque séptico. Aquele que não ganhou nada com o “pacote de harmonização” é chamado às pressas para tentar salvar o que sobrou, às vezes literalmente a vida do paciente. Estamos vivendo a era do “faço o que é lucrativo, você resolve o que der problema”.

No meio disso, uma palavra ganhou status de amuleto de vendas: protocolo. Antes, protocolo era algo sustentado em evidência, construído com estudo, revisado à luz de novas pesquisas. Agora, virou desculpa para pedir uma bateria de exames, muitas vezes desnecessários, e receitar combo de fórmulas manipuladas que parecem mais poção mágica do que tratamento sério. O paciente chega com uma queixa simples e sai carregando uma lista de exames de três páginas, mais uma sacola de cápsulas coloridas com nomes pomposos. Se perguntar o porquê, a resposta é rápida: “faz parte do protocolo”, como se isso fechasse qualquer discussão.

Outro termo que ganhou roupagem de marketing é “tratamento individualizado”. Na teoria, significa olhar para a pessoa, sua história, seu contexto, seus riscos e necessidades específicas. Na prática, em muitos lugares, virou apenas um slogan simpático no site da clínica. O paciente entra, passa por uma avaliação relâmpago, é encaixado em um dos três ou quatro pacotes que a casa oferece, todos com nomes criativos, e pronto: eis o “tratamento sob medida”. A única coisa realmente individualizada é o código do cartão e o número de parcelas. No mais, todo mundo recebe praticamente a mesma sequência de exames, as mesmas fórmulas manipuladas, o mesmo discurso pronto.

E não podemos esquecer do glorioso “Instituto”. Tradicionalmente, instituto remete a pesquisa, estudo sério, produção de conhecimento. Hoje, muitas vezes, é apenas uma palavra bonita no letreiro, colocada ali para dar aquele ar de autoridade. Tira-se “Clínica X”, põe-se “Instituto X de Saúde Integrada” e, de repente, parece que brotou um centro de referência internacional. O prédio é o mesmo, a equipe é a mesma, o conteúdo científico é questionável, mas a percepção do público muda – e isso basta para atrair mais gente. A embalagem subiu de nível, ainda que o conteúdo continue raso.

Somado a tudo isso vem a invasão de competências. Profissionais não médicos realizando atos tipicamente médicos, muitas vezes sem base anatômica e fisiológica suficiente; e, dentro da própria medicina, especialidades se atropelando, como se tudo fosse território livre. O sujeito resolve que “gosta de estética” e passa a operar fora da sua área de formação específica, oferecendo procedimentos complexos com o argumento de que “todo médico pode fazer tudo”. Pode até poder legalmente em alguns contextos, mas isso não significa que deva, nem que seja seguro, muito menos ético.

De outro lado, também é verdade que alguns médicos desprezam o papel dos outros profissionais da saúde, como se fossem meros coadjuvantes. Isso alimenta ressentimentos, narrativas de “empoderamento” descoladas da realidade técnica e a perigosa ilusão de que, com boa vontade e um curso online, qualquer um pode assumir funções para as quais não foi treinado. O resultado é uma terra de ninguém, em que o paciente tenta adivinhar quem realmente pode ajudá-lo, enquanto o sistema se torna cada vez mais confuso e fragmentado.

No fundo, o grande motor dessa bagunça tem nome e sobrenome: ambição desmedida. Ganhar bem pelo próprio trabalho não é errado; errada é a lógica de que tudo é justificável em nome do faturamento. A tentação de aumentar tíquete médio, vender pacotes, “fidelizar” o paciente a qualquer custo vai corroendo valores que deveriam ser inegociáveis. A medicina passa a ser gerida como um negócio qualquer, só que, ao contrário de vender celular ou roupa, aqui a mercadoria é o corpo e, muitas vezes, a vida das pessoas.

É claro que nem tudo é desgraça. Ainda há muita gente séria, profundamente comprometida com formação, com atualização constante, com respeito às fronteiras de competência. Profissionais que entendem que dizer “não faço isso” ou “isso não é da minha área” é sinal de maturidade, não de fraqueza. Médicos que preferem perder um procedimento do que correr o risco de prejudicar alguém. Instituições que realmente merecem o nome de instituto. Mas esses, muitas vezes, fazem menos barulho que os picarões e charlaretas de jaleco, que dominam a cena no feed de notícias.

O desafio, então, talvez seja resgatar o óbvio: medicina não é show, não é espetáculo, não é vitrine. É trabalho sério, cansativo, cheio de incertezas, que exige formação robusta, humildade para reconhecer limites e coragem para dizer “não” quando a moda do mercado aponta para o “sim”. Exige também respeito à equipe multiprofissional, com cada um atuando no escopo para o qual foi treinado, sem travestir ousadia de irresponsabilidade.

Enquanto isso não acontece, vamos convivendo com consultórios travestidos de instituto, protocolos que servem mais ao caixa do que ao paciente, tratamentos “individualizados” em série e uma multidão de profissionais ensaiando o papel de especialista sem ter passado pelos atos fundamentais da formação. No palco da saúde, as luzes ainda iluminam muitos bons atores, é verdade. Mas os picarões e charlaretas seguem disputando o protagonismo, na esperança de que o público não perceba que, por trás da maquiagem bonita, o texto científico é fraco e o enredo é perigoso.

No fim das contas, a verdadeira revolução não virá de mais um curso milagroso, nem de uma nova moda terapêutica, nem de um rebranding que transforme qualquer sala comercial em “Instituto Internacional”. Ela virá do simples, quase antiquado gesto de recolocar o paciente no centro, a ciência como base e a ética como linha vermelha. Até lá, sigamos atentos: em tempos de espetáculo, desconfiar é também um ato de cuidado. E, entre picarões e charlaretas, quem realmente merece confiança é justamente quem não tem medo de dizer: “eu não sei”, “isso não é da minha área” ou “isso não tem evidência suficiente para eu fazer em você”.

segunda-feira, 20 de outubro de 2025

As Raízes Iniciáticas dos Direitos Humanos: uma jornada pela dignidade humana


As Raízes Iniciáticas dos Direitos Humanos: uma jornada pela dignidade humana

Por Diego de Almeida

Quando ouvimos falar em “direitos humanos”, quase sempre pensamos em documentos modernos: a Declaração de 1948 da ONU, a Constituição de nossos países ou as lutas contemporâneas por igualdade. Mas, se olharmos com mais atenção, perceberemos que a história desses direitos começa muito antes. Na verdade, ela nasce de uma intuição profunda: a de que há algo em cada ser humano que é sagrado, inviolável, e que não pode ser ferido sem que toda a comunidade seja ferida.

Essa percepção, que poderíamos chamar de espiritual ou iniciática, acompanha a humanidade desde os primórdios. E é justamente essa viagem que convido você a fazer agora: um passeio pelas raízes iniciáticas dos direitos humanos, partindo do Egito Antigo e chegando ao Iluminismo, passando por tradições religiosas, filosóficas e, claro, pela Maçonaria, que há séculos cultiva e transmite esses valores de dignidade, liberdade, igualdade e fraternidade.


Por que falar em “raízes iniciáticas”?

Quando usamos a expressão “raízes iniciáticas”, não estamos dizendo que os direitos humanos nasceram de um único rito ou de uma única instituição. Estamos, antes, reconhecendo que essas ideias surgiram de um chamado profundo da consciência humana.

Esse chamado pode aparecer como mito, como lei gravada em pedra, como oração ou como filosofia. Mais tarde, se transforma em ciência política e, por fim, em declarações formais de direitos. O fio condutor é sempre o mesmo: a busca por afirmar que a vida humana possui valor em si mesma, e que nenhum poder pode negar essa verdade sem trair a própria humanidade.

Do ponto de vista maçônico, isso faz todo sentido. Afinal, a iniciação nos ensina a ver no outro um irmão, uma irmã, alguém que compartilha conosco a mesma centelha sagrada. Não é à toa que os maçons sempre se preocuparam em cultivar a tríade Liberdade, Igualdade, Fraternidade.


Antiguidade: de Maat ao jus naturale

Na Antiguidade encontramos alguns dos primeiros registros dessa intuição.

No Egito, a deusa Maat era símbolo da ordem, da justiça e da verdade. A famosa cena do julgamento dos mortos, em que o coração do falecido era pesado diante da pena de Maat, mostra uma noção central: nossas escolhas têm consequências não apenas para nós, mas para o equilíbrio de todo o cosmos. Ética, aqui, não era conveniência — era estrutura.

Na Mesopotâmia, o Código de Hamurabi (c. 1750 a.C.) introduziu o princípio de que a lei deve ser pública e previsível. Isso limitava o arbítrio do governante e dava um mínimo de segurança às pessoas. Ainda que imperfeita, foi uma semente do que hoje chamamos de império da lei.

A Carta de Ciro, de 539 a.C., proclamava liberdade religiosa e respeito aos povos conquistados. Gravada em argila, ela ecoa até hoje como uma espécie de “proto-declaração de direitos”.

Na Grécia, Clístenes introduziu a palavra isonomia — igualdade perante a lei. Claro, restrita a homens livres e cidadãos, mas já era um primeiro passo para reconhecer que a justiça precisa valer para todos os iguais.

Em Roma, surgem conceitos que nos são muito familiares: o jus civile (direito dos cidadãos), o jus gentium (direito aplicado a todos os povos) e o jus naturale (um direito da própria natureza humana, acima dos caprichos de qualquer governante). Aqui começamos a ver a ideia de universalidade tomando forma.

Esses exemplos mostram que, mesmo com todas as limitações históricas, já se percebia que a dignidade humana tinha algo de intocável, quase sagrado.


Espiritualidades que humanizam

Se avançarmos alguns séculos, veremos que as grandes tradições espirituais reforçaram esse chamado.

  • No Judaísmo, encontramos a noção de Tselem Elohim: todo ser humano é criado à imagem de Deus. Ferir o próximo é ferir a própria Criação.

  • No Cristianismo, ecoa o mandamento “amai-vos uns aos outros” (João 13:34). Essa não é apenas uma regra de convivência: é o reconhecimento de que o amor ao próximo é fundamento de toda justiça.

  • No Islamismo, a justiça (adala) é um dever espiritual, e o cuidado com os órfãos e pobres é sagrado. A comunidade é chamada a ser modelo de equidade.

  • No Hinduísmo e no Budismo, a compaixão universal e a interdependência de todos os seres mostram que aquilo que fazemos ao outro, fazemos também a nós mesmos.

Séculos antes da linguagem dos direitos, já se falava a linguagem da responsabilidade. E essa visão é profundamente iniciática: lapidar a si mesmo é também cuidar do mundo.


Filosofia, esoterismo e humanismo

A filosofia também deu contribuições decisivas. Os estoicos defendiam o cosmopolitismo: somos todos cidadãos do mundo, e a dor do outro nos diz respeito. Suas virtudes cardeais — sabedoria, justiça, coragem e temperança — ecoam até hoje nas virtudes maçônicas.

Durante o Renascimento, o Humanismo colocou o ser humano no centro da reflexão, sem abandonar a transcendência. Essa mudança cultural abriu caminho para o Iluminismo, que levou a discussão para a praça pública, transformando ideias em instituições.

Na linguagem maçônica, é como se a “luz” que antes iluminava o interior do iniciado passasse a brilhar também nas cidades, inspirando mudanças sociais.


Iluminismo: quando os direitos ganham papel e selo

O século XVIII foi decisivo.

John Locke defendeu os direitos naturais — vida, liberdade e propriedade — como anteriores ao Estado. Montesquieu mostrou que a liberdade depende de instituições sólidas, com separação de poderes. Rousseau proclamou que a soberania é inalienável e que ninguém pode renunciar à própria liberdade.

Essas ideias ganharam corpo em documentos históricos:

  • 1776: Declaração de Independência dos EUA, que fala em vida, liberdade e busca da felicidade.

  • 1789: Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, que afirma que todos nascem livres e iguais em direitos.

Esses textos se tornaram referência mundial. Porém, também revelaram contradições: escravizados, indígenas e mulheres não eram incluídos. Olympe de Gouges denunciou essa exclusão em 1791, ao publicar a Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã, abrindo caminho para os movimentos feministas e sufragistas.

Aqui a Maçonaria aparece de forma muito concreta: muitas das ideias iluministas foram discutidas em Lojas, e vários protagonistas dessas revoluções eram maçons. O lema Liberdade, Igualdade, Fraternidade saiu do emblema e foi para as ruas.


A Maçonaria como guardiã da dignidade

A Ordem não criou os direitos humanos, mas sempre os cultivou. Ao colocar lado a lado pessoas de diferentes origens, a Maçonaria ensina a fraternidade na prática. Ao defender a liberdade de consciência, prepara o terreno para o florescimento da justiça.

E ao equilibrar liberdade e igualdade com o fiel da fraternidade, ensina que não há caminho justo sem harmonia. Liberdade sem igualdade vira privilégio. Igualdade sem liberdade vira tirania. Só a fraternidade garante o equilíbrio.

Na Europa dos séculos XVIII e XIX, as Lojas eram espaços de debate filosófico, científico e político. Nelas se aprendia não apenas a teoria, mas também a prática da convivência entre diferentes.


Le Droit Humain: igualdade no rito

Em 1893, na França, Maria Deraismes e George Martin fundaram a Ordem Maçônica Mista Internacional Le Droit Humain. Foi um gesto ousado: num tempo em que a Maçonaria era quase totalmente masculina, eles afirmaram que mulheres e homens são igualmente dignos da iniciação.

Essa Ordem, hoje presente em diversos países, celebrou recentemente seus 130 anos. Mais do que uma instituição, ela é um testemunho vivo de que igualdade não pode ser apenas discurso: precisa ser traduzida em rito, em prática e em vida.

O desafio que a Le Droit Humain coloca para todos nós é claro: como tornar coerente aquilo que pregamos em palavras? Como viver, no cotidiano da Loja e fora dela, a igualdade e a fraternidade que proclamamos?


Direitos humanos: obra em construção

Ao percorrer essa estrada — do Egito ao Iluminismo, passando pela Maçonaria moderna — percebemos que os direitos humanos são sempre processo, nunca produto acabado. Há avanços e retrocessos, inclusões e exclusões.

Cada marco histórico — o Código de Hamurabi, a Carta de Ciro, a isonomia grega, o jus naturale romano, o Iluminismo, Olympe de Gouges, a fundação da Le Droit Humain — é uma pedra que se assenta no Templo da Humanidade. Mas o edifício ainda está em construção.

Como maçons, temos a responsabilidade de continuar essa obra. Não apenas com discursos ou textos, mas com práticas de acolhimento, projetos sociais, apoio à educação, à cultura, ao diálogo inter-religioso e à defesa dos mais vulneráveis.

Cada vez que uma Loja se abre à comunidade, cada vez que promove conhecimento, solidariedade e justiça, está ajudando a erguer esse templo invisível, sustentado por três colunas universais: Liberdade, Igualdade, Fraternidade.

Conclusão: três passos para o presente

Talvez possamos resumir toda essa reflexão em três passos simples:

  1. Recordar: a memória histórica é bússola. Cada conquista — de 1215 a 1948, de Maat a Le Droit Humain — nos lembra que nada é dado de presente, tudo é fruto de lutas e de coragem.

  2. Reconhecer: ainda hoje existem exclusões e injustiças que exigem nossa atenção. É preciso reconhecer que os direitos humanos não estão plenamente realizados.

  3. Responder: o verdadeiro compromisso começa em pequenos gestos — em casa, no trabalho, na Loja, na rua. Direitos humanos se constroem no cotidiano, em cada ato de justiça, em cada palavra de respeito, em cada porta que se abre.

O Templo da Humanidade segue em obras. Cada direito conquistado é um tijolo assentado. Cada vida protegida é uma lâmpada acesa. E cada iniciado, homem ou mulher, que ajusta o seu prumo contribui para que essa construção avance.

Que possamos, então, carregar sempre conosco — e traduzir em atos — as palavras que formam a mais bela herança maçônica e humana: Liberdade, Igualdade, Fraternidade.


 

quinta-feira, 18 de setembro de 2025

Ética no dia a dia: quando o exemplo fala mais alto que o discurso

 


Ética não é um conjunto de frases bonitas; é um modo de habitar o cotidiano. Ela se revela nos pequenos gestos: no “bom dia” sincero, no compromisso cumprido, na pontualidade que respeita o tempo do outro, na coragem de admitir um erro sem rodeios. Palavras inspiram, esclarecem, orientam — mas, sozinhas, não sustentam a confiança. O que realmente educa é o exemplo.

No convívio diário, a coerência entre discurso e conduta é o cimento das relações. Quando alguém exige correção, mas se permite atalhos; quando defende respeito, mas trata com desatenção; quando cobra transparência, mas oculta informações, instala-se uma fratura de credibilidade. A incoerência não apenas contradiz a mensagem; ela silencia a mensagem. Nada torna uma orientação mais inócua do que o contraexemplo de quem a enuncia.

Se queremos ambientes mais justos — em casa, no trabalho, na rua — precisamos alinhar valores e práticas. É simples de dizer e exigente de fazer. Significa prometer menos e cumprir mais; reconhecer publicamente os deslizes e repará-los; dar crédito a quem merece; não usar a urgência como desculpa para a falta de educação; ser firme no princípio e humano na forma. Significa, sobretudo, compreender que autoridade moral não se decreta: conquista-se.

Há uma pedagogia silenciosa no comportamento. Pais e mães, professores, profissionais de saúde, líderes de equipe: todos ensinam também quando não estão falando. Ensina-se ao desligar o celular na consulta, ao ouvir sem interromper, ao tratar igualmente quem pode “ajudar” e quem não pode. Ensina-se nas decisões difíceis, quando ninguém está olhando — porque, no fundo, sempre estamos nos olhando. A ética é também auto-respeito.

Palavras têm peso: abrem caminhos, dão norte, convocam. Porém, os exemplos pavimentam esses caminhos. O discurso inaugura; a prática consolida. Por isso, antes de formular a próxima regra, convém perguntar: “Eu vivo o que proponho?” O convite ético que transforma não soa como ordem distante, mas como um chamado compartilhado: venha comigo, eu vou junto.

Que o nosso cotidiano fale a mesma língua do que defendemos. Que as frases encontrem abrigo nos hábitos. E que a orientação final, livre de ironia e cheia de coragem, seja possível entre nós: “Faça o que eu falo, Faça o que eu faço!”

segunda-feira, 15 de setembro de 2025

Quando o amor acende a casa por dentro

 


Por Diego de Almeida

Uma das melhores sensações que podemos ter é o amor. O Afeto que aquece o coração. Sentir-se amado e querido, sabendo que existe alguém que se importa com seu bem-estar, que quer a sua felicidade a despeito de seus próprios interesses e vontades. Sentir-se amado é uma dádiva!

Amor verdadeiro costuma se manifestar em coisas pequenas. Ele está no café que alguém prepara antes de você levantar; na mensagem rápida perguntando se chegou bem; no silêncio cúmplice que acolhe sem exigir explicações. Há muitas formas de se sentir amado, e quase todas envolvem o mesmo elemento: presença. Estar com — e estar por — é o verbo que sustenta o afeto.

Sentir-se amado é experimentar um calor de dentro para fora. Não é fogos de artifício; é lareira. Acalma, dá norte, devolve cor. Quando sabemos que existe alguém que torce por nós, mesmo quando falhamos, nasce uma coragem discreta de avançar. O medo não some, mas ganha companhia. E coragem com companhia é outra coisa: você segue, mas não está só.

Essa experiência não se limita ao casal. Há o amor que chega em forma de amizade, família, comunidade. Um abraço depois de um dia difícil, o vizinho que oferece ajuda sem constrangimento, a equipe que compartilha crédito e responsabilidade — tudo isso também é amor. O afeto reorganiza a vida: o essencial fica mais nítido, as urgências perdem um pouco de seu grito, o tempo parece ganhar textura.

Importante lembrar: o amor é um substantivo que se comporta como verbo. Precisa de prática. Não se sustenta apenas em declarações, embora elas sejam bem-vindas; cresce mesmo é em atitudes repetidas, às vezes invisíveis. Ouvir com atenção, pedir perdão, ajustar a rota, reconhecer limites — amar inclui ética. Não é possuir, é cuidar. Não é invadir, é respeitar. E, quando necessário, é saber deixar ir.

Também há um aspecto muitas vezes esquecido: sentir-se amado começa, em parte, pelo modo como nos tratamos. Autoestima não substitui o amor do outro, mas abre espaço para recebê-lo. Quem aprende a se tratar com gentileza, a descansar sem culpa e a dizer “não” quando precisa, cria um terreno fértil para que o carinho alheio não vire dívida, e sim encontro.

Se o amor aquece o coração, é porque oferece abrigo: um lugar para voltar depois de errar; um incentivo para tentar de novo; uma luz acesa esperando na janela. É por isso que o afeto não é enfeite da vida — é infraestrutura. Sustenta projetos, atravessa invernos, dá sentido ao cotidiano. E, quando compartilhado, multiplica o que temos de melhor.

Hoje, que tal praticar essa arquitetura do cuidado? Uma ligação, uma palavra simples, um gesto de atenção. Amor não precisa ser grandioso para ser verdadeiro. Às vezes, o suficiente é estar perto — com todas as letras e com todo o corpo — para lembrar a alguém: “você importa”. E isso, no fim das contas, é o que acende a casa por dentro.

segunda-feira, 1 de setembro de 2025

O Talabarte e a Espada: Símbolos de Ligação entre o Cavaleiro e sua Missão no REAA

 


O Talabarte e a Espada: Símbolos de Ligação entre o Cavaleiro e sua Missão no REAA

Por Diego de Almeida

A Maçonaria, em seus diferentes graus e sistemas, é rica em símbolos, alegorias e instrumentos que servem de guia para o desenvolvimento moral, espiritual e filosófico do Iniciado. Entre esses elementos, destacam-se aqueles próprios dos graus de cavalaria, em especial a espada, fiel companheira do obreiro nesses altos estágios de sua caminhada iniciática. Contudo, um detalhe aparentemente secundário, mas carregado de significado, merece também reflexão: o talabarte, correia que une o homem à sua arma e que, transposto para a linguagem simbólica, pode ser entendido como elo entre o maçom-cavaleiro e sua missão.

O Talabarte no Sentido Militar

Historicamente, o talabarte é uma correia de couro ou tecido resistente, utilizada para fixar a espada, o sabre ou a baioneta ao corpo do soldado ou cavaleiro. Sua função prática é garantir que a arma esteja sempre ao alcance da mão, presa de modo seguro, mas também pronta para o manejo. O talabarte pode ser preso ao cinturão ou lançado a tiracolo, permitindo que o guerreiro mantenha a liberdade de movimentos sem perder o controle sobre o instrumento que lhe assegura defesa e honra.

Na vida militar, o talabarte representa disciplina, ordem e vigilância. Ele simboliza que o soldado não se separa de sua espada, pois dela depende tanto para cumprir seu dever quanto para proteger sua vida. O talabarte, assim, não é apenas um acessório: é a garantia de que a espada não será esquecida, perdida ou descuidada. É a ligação constante entre o homem e o instrumento de sua honra e serviço.

A Espada na Maçonaria

Dentro da tradição maçônica, a espada é um dos mais nobres símbolos. Diferente da arma de guerra destinada a ferir, na Maçonaria a espada representa a defesa da Verdade, da Justiça e da Virtude. Ela não é um instrumento de ataque injusto, mas de proteção contra a ignorância, a tirania e o erro. Ao brandir a espada, o maçom recorda que deve lutar contra suas próprias paixões, que são seus inimigos mais perigosos, e proteger a dignidade de seus Irmãos e da Ordem.

Nos altos graus do Rito Escocês Antigo e Aceito (REAA), especialmente nos graus de Cavalaria, a espada assume um valor ainda mais elevado. Ela é apresentada como símbolo da palavra reta, da consciência desperta e da coragem necessária para enfrentar as adversidades da vida. A lâmina reta lembra a retidão dos princípios; o fio cortante evoca a necessidade de discernimento; e o brilho do aço simboliza a luz da verdade refletida pelo trabalho do Iniciado.

Não é por acaso que, em muitas cerimônias maçônicas, a espada é utilizada como instrumento de consagração, juramento e proteção. Quando erguida sobre o recipiendário, ela é sinal da luz que o cobre e protege. Quando portada em procissão, é lembrança da presença da Justiça e da Força moral que devem reger os atos humanos.

O Que São os Graus de Cavalaria

Dentro da Maçonaria, e particularmente no REAA, os chamados graus de Cavalaria constituem uma etapa avançada da senda iniciática. Tais graus evocam a tradição dos cavaleiros medievais — templários, hospitalários e outros — e representam o ideal de fidelidade, coragem e dedicação ao serviço de uma causa superior.

Esses graus não devem ser confundidos com títulos honoríficos ou militares. São, antes, alegorias de uma luta interior e espiritual, onde o maçom é chamado a vestir a armadura da Virtude e a empunhar a espada do Espírito contra os vícios, as ilusões e a injustiça. O cavaleiro maçom é aquele que, tendo já aprendido a dominar-se nos graus simbólicos, agora se coloca a serviço de ideais universais, como a defesa da liberdade de consciência, a busca da verdade e a fraternidade entre os homens.

Os graus de Cavalaria ensinam que ser cavaleiro não é apenas portar uma espada reluzente, mas carregar consigo um código ético de retidão e bravura. O cavaleiro maçom deve ser fiel guardião do Templo interior, combatendo o egoísmo e promovendo a paz entre os povos. Sua batalha não é travada nos campos de guerra, mas no coração humano, onde se decide a vitória da luz sobre as trevas.

O Simbolismo do Talabarte como Ligação Física e Espiritual

Se a espada representa a defesa da Verdade e a missão do cavaleiro, o talabarte, em sua humildade, simboliza o elo inseparável entre o homem e sua arma espiritual. O talabarte recorda que a espada não pode ser apenas um adorno ou símbolo distante: ela precisa estar firmemente ligada ao portador, pronta para o uso consciente e responsável.

Transposto ao campo simbólico, o talabarte é a disciplina que mantém o maçom unido à sua missão. Ele representa a constância e a vigilância que impedem que a espada — isto é, a coragem, a fé e a retidão — seja deixada de lado em momentos de fraqueza. Sem o talabarte, a espada poderia cair ao chão e perder-se; sem disciplina, o maçom corre o risco de abandonar sua luta interior e esquecer seus juramentos.

Podemos compreender o talabarte, ainda, como símbolo da ligação física e espiritual entre o obreiro e sua espada. Assim como a correia prende a arma ao corpo, a consciência do maçom deve manter-se constantemente ligada à Verdade e à Virtude. A espada não pode ser apenas um ideal abstrato: precisa estar “presa” à vida diária do Iniciado, de forma prática e constante.

Há também um aspecto ético importante nesse simbolismo: o talabarte nos recorda que a espada não deve ser usada de forma impensada ou arbitrária. Ao contrário, ela está firmada junto ao corpo por uma correia que simboliza contenção e domínio. O verdadeiro cavaleiro não é aquele que desembainha por vaidade ou ira, mas aquele que sabe quando e como utilizar sua força em defesa da Justiça.

Reflexões Finais

O talabarte, aparentemente simples, revela-se como um símbolo profundo quando observado sob a luz maçônica. Ele nos ensina que a ligação entre o homem e sua missão não pode ser frágil ou ocasional: deve ser firme, contínua e disciplinada. A espada do maçom, representação da retidão e da defesa da verdade, precisa estar sempre junto de si, segura por esse elo invisível de consciência e dever.

Nos graus de Cavalaria do REAA, o talabarte é mais do que um acessório de indumentária: é uma recordação de que a caminhada do cavaleiro exige constância. Assim como o talabarte garante que a espada esteja sempre pronta, o maçom deve manter-se preparado para agir com coragem, discernimento e justiça em todas as circunstâncias da vida.

Portanto, que ao contemplarmos o talabarte em nossas indumentárias, não o vejamos apenas como um detalhe militar ou histórico, mas como uma metáfora do compromisso que nos liga, de forma inquebrantável, à nossa espada simbólica — à defesa da Verdade, da Justiça e da Fraternidade. Que possamos, assim, ser cavaleiros do Espírito, conscientes de que o verdadeiro campo de batalha é o interior de cada um, e que nossa maior vitória é aquela conquistada sobre nós mesmos.