Por Diego de Almeida
Donos da Casa: quando o dirigente se torna maior do que a instituição
Há instituições que possuem sede, estatuto, diretoria, assembleias, eleições, cargos e até uma longa lista de membros. Por fora, parec em organizações sólidas. Por dentro, porém, funcionam como propriedade particular de uma única pessoa.
Essa pessoa pode ser o fundador, o presidente, o venerável, o grão-mestre, o diretor ou simplesmente aquele personagem antigo que, embora nem sempre ocupe formalmente o cargo principal, controla tudo o que realmente importa. É ele quem possui os contatos, conhece as senhas, guarda os documentos, movimenta as relações políticas, define quem pode crescer, determina o que pode ser discutido e decide até onde os demais podem participar.
É o que podemos chamar de “dono da casa”.
O dono da casa não precisa ter adquirido a instituição, nem possuir legalmente seu patrimônio. Seu domínio é de outra natureza. Ele se considera proprietário moral da obra porque a fundou, ajudou a fundá-la, sustentou-a em algum momento ou nela permaneceu por mais tempo do que os demais.
A partir disso, passa a acreditar que sua dedicação lhe concedeu uma espécie de direito permanente de mando.
O problema não está em reconhecer a importância dos fundadores. Toda instituição nasce do esforço de alguém. Em seus primeiros anos, é natural que poucas pessoas concentrem tarefas, responsabilidades e decisões. Uma organização recém-criada ainda não possui quadros numerosos, procedimentos amadurecidos nem pessoas suficientemente preparadas para assumir todas as funções.
A centralização inicial pode ser necessária.
O perigo começa quando aquilo que deveria ser uma fase transitória transforma-se em método permanente de governo.
O fundador deixa de formar novos dirigentes porque teme perder espaço. O presidente não compartilha informações porque acredita que ninguém fará o trabalho com a mesma competência. O venerável distribui cargos, mas não distribui autoridade. O grão-mestre nomeia auxiliares, mas conserva para si todas as decisões importantes.
Os demais membros passam a ocupar funções apenas decorativas.
Existe secretário, mas os documentos permanecem com o dirigente. Existe tesoureiro, mas apenas o presidente conhece integralmente as finanças. Existe conselho, mas suas decisões precisam corresponder à vontade de quem realmente manda. Existem eleições, mas ninguém se sente livre para apresentar uma candidatura que contrarie o grupo dominante.
A instituição conserva a aparência de uma democracia, mas funciona como uma propriedade pessoal.
A armadilha da eficiência
O personalismo costuma se instalar sob a aparência da eficiência.
“É mais fácil deixar que ele resolva.”
“Somente ela conhece todos os procedimentos.”
“Ele sempre fez assim.”
“Quando precisamos de alguma coisa, é com ela que falamos.”
Essas frases parecem elogios, mas na realidade são diagnósticos de fragilidade institucional.
Quando apenas uma pessoa sabe como tudo funciona, não estamos diante de excelência administrativa. Estamos diante de um grave risco operacional.
Quando apenas uma pessoa possui acesso aos documentos, às contas, aos contatos externos e à memória da organização, não existe organização. Existe dependência.
O dono da casa muitas vezes acredita estar protegendo a instituição. Como conhece profundamente seus mecanismos, imagina que centralizar seja uma forma de evitar erros, conflitos e desvios. Pode até agir de boa-fé. Pode ser trabalhador, competente e sinceramente dedicado.
Mas boa intenção não corrige má governança. E como diz o adágio popular: "de boa intensão o inferno está cheio".
Uma instituição que depende integralmente de uma pessoa é uma instituição condenada a entrar em crise quando essa pessoa se afastar, adoecer, renunciar ou morrer.
E todos, sem exceção, um dia se afastam.
O dirigente que não prepara sua saída fracassa em sua missão
Existe uma ideia equivocada de que o sucesso de um dirigente deve ser medido pelo que ele realiza enquanto permanece no comando.
Não é suficiente!
O verdadeiro teste de uma liderança ocorre depois de sua saída.
Se a instituição continua funcionando, se novos dirigentes assumem com segurança, se os documentos estão organizados, se as contas são compreensíveis, se os membros conhecem os procedimentos e se a sucessão acontece sem traumas, então houve liderança institucional.
Se, ao contrário, tudo paralisa, os arquivos desaparecem, as relações externas se desfazem, os membros entram em conflito e ninguém sabe exatamente o que fazer, então aquilo que parecia liderança era apenas dependência.
O verdadeiro fundador não cria seguidores permanentes. Cria sucessores.
O verdadeiro dirigente não concentra conhecimento para tornar-se indispensável. Compartilha conhecimento para que sua presença deixe de ser necessária.
A obra de um líder não deve ser avaliada pela dificuldade de substituí-lo, mas pela tranquilidade com que a instituição consegue continuar sem ele.
Ser insubstituível não é prova de competência. Muitas vezes é prova de que se falhou deliberadamente em preparar outras pessoas.
Exemplos que atravessam diferentes instituições
Esse padrão pode ser encontrado em empresas, igrejas, associações, partidos, movimentos sociais e organizações iniciáticas.
A Mars Hill Church, nos Estados Unidos, cresceu como uma ampla rede religiosa profundamente identificada com seu fundador e principal dirigente, Mark Driscoll. Quando ele deixou o comando, em meio a uma grave crise de liderança, a estrutura central rapidamente se dissolveu. Algumas comunidades locais continuaram de maneira independente, mas a organização que havia sido construída ao redor do líder não sobreviveu à sua saída.
Na WeWork, Adam Neumann construiu uma empresa cuja governança lhe concedia poderes desproporcionais. O fundador não era apenas o principal executivo: era tratado como figura quase inseparável da identidade da companhia. A organização somente conseguiu prosseguir depois de uma ruptura traumática, reestruturações profundas e enorme destruição de valor.
Na Theranos e na FTX, a concentração de poder nos fundadores permitiu que conselhos, executivos e mecanismos de fiscalização fossem neutralizados. Não foram simples crises de sucessão, mas exemplos extremos do que acontece quando nenhuma estrutura interna possui força suficiente para confrontar quem ocupa o centro.
No campo maçônico, a Loja Propaganda Due, a P2, tornou-se inseparável de Licio Gelli. Sem comparar moralmente instituições tão distintas, o caso demonstra como uma Loja pode deixar de servir aos seus princípios e transformar-se em instrumento de poder pessoal daquele que deveria apenas dirigi-la.
Conheci também, pessoalmente, uma situação que se aproxima desse modelo.
Sucedeu-se com a Grande Loja do Brasil, a GLOB. Conheci seu fundador e grão-mestre, Dorival Fiorini, assim como seu filho, Fernando Fiorini. A GLOB possuía lojas em diferentes localidades, estrutura administrativa, cargos e relações institucionais. Entretanto, após a morte de Dorival Fiorini, não houve sucessão capaz de preservar a Potência. As lojas deixaram de funcionar e, nos termos maçônicos, abateram colunas. A própria Potência desapareceu.
Não se trata aqui de julgar intenções pessoais, nem de produzir uma investigação histórica sobre responsabilidades. O fato relevante é institucional: uma estrutura que parecia ampla não conseguiu sobreviver à ausência de seu dirigente central.
Esse é o resultado final do modelo do dono da casa.
A responsabilidade não é apenas do centralizador
Seria confortável atribuir toda a culpa àquele que concentra o poder. Porém, o dono da casa raramente governa sozinho. Ele conta com a colaboração, a submissão ou a omissão dos demais.
Muitos membros preferem não assumir responsabilidades.
É mais simples comparecer às reuniões, participar das cerimônias, desfrutar do convívio e deixar que alguém resolva os problemas administrativos. É mais cômodo criticar quem trabalha do que aprender a executar as tarefas. É mais confortável dizer que não se tem tempo do que aceitar um cargo e preparar-se adequadamente para exercê-lo.
A concentração de poder nasce tanto da vaidade de alguns quanto da acomodação de muitos.
Quando ninguém quer aprender a secretaria, apenas o secretário se torna necessário.
Quando ninguém acompanha as finanças, o tesoureiro transforma-se em proprietário das informações.
Quando ninguém estuda os estatutos, aquele que os conhece pode interpretá-los conforme sua conveniência.
Quando ninguém se prepara para liderar, o mesmo grupo permanece eternamente nos cargos.
Portanto, combater o personalismo exige mais do que pedir ao dirigente que delegue. Exige que os demais estejam dispostos a receber tarefas, assumir responsabilidades e responder por seus próprios erros.
Distribuir trabalho não significa simplesmente dividir encargos desagradáveis. Significa formar consciência institucional.
Cada membro deve compreender que uma Loja ou associação não existe apenas para lhe proporcionar reuniões, cerimônias, títulos, amizades ou reconhecimento. Pertencer implica trabalhar.
Uma instituição coletiva sustentada pelo esforço permanente de dois ou três indivíduos é uma fraude contra o próprio significado da palavra associação.
Cargos não são propriedades
Na Maçonaria, a ideia de dono da casa é especialmente contraditória.
Uma Loja não pertence ao venerável, aos fundadores, aos membros mais antigos ou àqueles que contribuíram financeiramente para sua criação.
O malhete não é um título de propriedade.
O cargo é temporário, a função é transitória e a autoridade é delegada.
Quem ocupa a direção deveria compreender que administra algo que recebeu das gerações anteriores e que deverá entregar às gerações seguintes. Não é proprietário da Loja, mas seu depositário temporário.
O mesmo vale para Potências, associações, fundações e empresas familiares.
O dirigente que confunde o cargo com sua identidade pessoal tende a interpretar qualquer discordância como deslealdade. A crítica administrativa transforma-se em ofensa pessoal. O surgimento de novas lideranças passa a ser visto como ameaça. Quem demonstra competência é afastado, limitado ou mantido em funções secundárias.
Com o tempo, permanecem ao redor do líder apenas aqueles que não o desafiam.
A instituição perde seus melhores quadros e conserva os mais obedientes.
Forma-se então uma aparência de harmonia, mas não existe verdadeira unidade. Existe silêncio.
E o silêncio produzido pelo medo de contrariar alguém não é paz institucional. É estagnação.
Preparar sucessores é uma obrigação
Toda organização séria deveria possuir mecanismos claros de continuidade.
Isso inclui arquivos organizados, atas acessíveis, informações financeiras transparentes, mandatos definidos, alternância de cargos, formação de novos dirigentes e processos de transição planejados.
Nenhuma função deveria depender do conhecimento exclusivo de uma pessoa.
O secretário deve preparar quem poderá substituí-lo. O tesoureiro deve tornar as contas inteligíveis para outros membros. O presidente deve compartilhar contatos e procedimentos. O dirigente ritualístico deve formar novos oficiais. O fundador deve aceitar que a obra crescerá de maneiras que talvez não correspondam exatamente às suas preferências.
A sucessão não começa quando alguém anuncia que deixará o cargo. Começa no primeiro dia de gestão.
Cada dirigente deveria perguntar a si mesmo:
Quem poderá realizar esta tarefa quando eu não estiver presente?
Quem conhece os procedimentos?
Onde estão guardados os documentos?
Quem possui acesso às informações?
Há alguém preparado para assumir amanhã?
Caso a resposta seja “ninguém”, não existe motivo para orgulho. Existe um problema urgente.
Construir templos, não tronos
Pessoas não vivem para sempre.
Seus cargos terminam, suas capacidades diminuem, suas prioridades mudam e suas vidas inevitavelmente chegam ao fim.
Entretanto, instituições podem atravessar décadas ou séculos.
Uma Loja pode iniciar pessoas que ainda nem nasceram. Uma associação pode servir a comunidades que seus fundadores jamais conhecerão. Uma obra pode continuar produzindo frutos quando os nomes daqueles que a iniciaram já forem apenas registros em antigas atas.
Esse é o verdadeiro legado.
O legado não está em ser lembrado como aquele sem o qual nada funcionava.
Está em ter construído algo que continuou funcionando quando já não se estava presente.
O dono da casa deseja que todos reconheçam que a instituição depende dele.
O verdadeiro líder trabalha para que ela não dependa.
O primeiro constrói um trono e chama isso de obra.
O segundo constrói uma instituição e aceita que um dia outro ocupará o seu lugar.
Casas possuem donos. Lojas, associações e instituições possuem membros, dirigentes temporários e responsabilidades compartilhadas.
Quando alguém se torna maior do que a organização, o futuro já está comprometido.
Quando todos se envolvem, aprendem, trabalham e preparam seus sucessores, a ausência de uma pessoa pode provocar saudade, mas não destruição.
É assim que se deixa um legado.
Não permanecendo eternamente no centro, mas tornando possível que a obra atravesse muitas gerações depois de nós.





