Por Diego de Almeida
Uma reflexão pessoal sobre mérito, vulnerabilidade e as novas cotas trans da UFPR
A Universidade Federal do Paraná aprovou recentemente a reserva de 3% das vagas de seus cursos de graduação para pessoas travestis e transexuais. Segundo as informações divulgadas, a medida alcançará todos os cursos, turnos e campi, com a intenção de assegurar pelo menos uma vaga por curso. A decisão teria sido tomada pelo Conselho Universitário em 1º de julho de 2026, com previsão de aplicação já no próximo processo seletivo.
Como era previsível, a notícia produziu reações imediatas. De um lado, foi celebrada como avanço histórico, reparação e democratização da universidade. De outro, foi recebida como mais um passo na fragmentação das vagas públicas segundo critérios identitários cada vez mais específicos.
Em uma conversa entre antigos colegas da Faculdade de Medicina, surgiram questionamentos legítimos sobre mérito, capacidade acadêmica e os objetivos das ações afirmativas. Mas também apareceram generalizações, comparações depreciativas e afirmações que praticamente transformavam cotistas, indígenas e pessoas trans em sinônimos de incapacidade. Em determinado momento, a crítica à política pública deixou de ser dirigida ao critério adotado e passou a atingir as próprias pessoas potencialmente beneficiadas.
Essa passagem é perigosa.
É perfeitamente possível - e necessário - questionar a criação de cotas baseadas exclusivamente em identidade de gênero. Mas isso pode ser feito sem ridicularizar pessoas trans, sem presumir sua incompetência e sem negar que enfrentem discriminações reais.
Criticar uma política pública não exige desumanizar quem ela pretende proteger.
Minha história não cabe facilmente nas categorias
Entrei para o curso de Medicina da UFPR em 1998, aos 17 anos. Hoje tenho 45.
Sou branco, embora tenha ascendência indígena. Essa origem nunca me provocou constrangimento, discriminação ou qualquer obstáculo perceptível. Não seria honesto reivindicar uma condição de vulnerabilidade racial apenas porque algum antepassado meu era indígena.
Por outro lado, minha realidade econômica estava longe de ser confortável.
Vim de uma família de classe média-baixa. Meu pai era o único que trabalhava e ganhava aproximadamente R$ 1.800,00 mensais. Com esse salário, sustentava a esposa, dona de casa, e quatro filhos, dos quais sou o mais velho.
Embora aquele valor fosse superior à mensalidade cobrada por algumas faculdades privadas de Medicina da época, que girava em torno de R$ 1.000,00 a R$ 1.200,00, isso não significa que minha família pudesse pagar uma delas. Uma mensalidade não existe isoladamente. Havia alimentação, moradia, roupas, transporte e todas as despesas de seis pessoas.
Logo após meu ingresso na universidade, meu pai perdeu o emprego. Precisou procurar novas oportunidades em Mato Grosso. Durante toda a faculdade, trabalhei para complementar minha renda e conseguir permanecer no curso.
Fiz praticamente toda a minha formação em escola pública. No último ano, consegui uma bolsa de estudos por mérito para cursar o chamado “terceirão” em um colégio particular. Estudei, fui aprovado no vestibular e conquistei minha vaga.
Não afirmo isso para construir uma lenda pessoal ou para dizer que todos deveriam suportar as mesmas dificuldades. Muito menos para negar que outras pessoas tenham enfrentado obstáculos ainda maiores.
Relato isso porque minha trajetória revela uma falha dos sistemas de classificação: a realidade humana é muito mais complexa do que as categorias administrativas criadas para representá-la.
Pelas regras atuais da Lei de Cotas, eu não poderia concorrer às vagas destinadas a estudantes de escola pública. A legislação exige que o candidato tenha cursado integralmente o ensino médio na rede pública. O ano realizado em uma escola privada, ainda que com bolsa integral conquistada por desempenho, excluiria minha candidatura dessa modalidade.
Ou seja: uma oportunidade obtida por mérito poderia, paradoxalmente, retirar de mim o reconhecimento posterior de minha vulnerabilidade econômica e educacional.
Esse exemplo não invalida toda a política de cotas. Mas demonstra que a régua pode ser imperfeita.
O mérito existe, embora não exista sozinho
Parte do debate público trata a palavra “mérito” como se fosse uma fraude inventada pelos privilegiados. Essa posição é intelectualmente preguiçosa.
O mérito existe.
Há quem estude mais, quem se prepare melhor, quem faça escolhas difíceis, quem renuncie a horas de lazer e quem persista diante das dificuldades. Há diferença entre disciplina e desinteresse, entre esforço e negligência, entre preparação e improviso.
Negar isso é negar a responsabilidade individual.
Ao mesmo tempo, o mérito nunca se manifesta em condições completamente iguais. Um adolescente que estuda em uma escola bem estruturada, possui quarto próprio, livros, professores particulares e não precisa trabalhar compete em situação diferente daquela de quem divide o espaço doméstico com várias pessoas, enfrenta transporte precário e precisa ajudar no sustento da família.
Reconhecer essa diferença não elimina o mérito. Apenas impede que o resultado de uma prova seja confundido com uma medida perfeita do valor humano, da inteligência ou da capacidade futura de cada candidato.
O vestibular mede desempenho em uma prova. Ele não mede toda a trajetória anterior nem garante sozinho a competência profissional futura.
Por isso, ações afirmativas podem ser justificáveis. O problema começa quando qualquer grupo socialmente discriminado passa a ser considerado, automaticamente, credor de uma fração específica das vagas universitárias.
Nem toda injustiça social deve ser corrigida por meio de uma cota.
O Estado possui outros instrumentos: assistência estudantil, bolsas, cursos preparatórios, reforço escolar, apoio psicológico, proteção contra discriminação, políticas de permanência, moradia universitária e fiscalização das instituições de ensino.
A existência de um problema não determina, por si só, a solução adequada.
Pessoas trans enfrentam obstáculos reais
Seria desonesto afirmar que pessoas trans não sofrem discriminação.
A literatura registra situações de violência, constrangimento, bullying, rejeição familiar e abandono escolar. Um estudo brasileiro com mulheres trans encontrou agressões frequentes e idade média de interrupção dos estudos em torno dos 16 anos, embora se trate de uma amostra limitada e que não pode ser automaticamente generalizada para toda a população trans. Outros trabalhos qualitativos relatam percursos escolares marcados por hostilidade e necessidade permanente de enfrentamento.
Portanto, a justificativa séria das cotas trans não é uma suposta deficiência cognitiva. É a alegação de que a hostilidade social afasta parte dessas pessoas da escola e reduz suas oportunidades educacionais.
Esse argumento merece ser ouvido.
Mas há uma diferença fundamental entre reconhecer a existência de discriminação e concluir que a reserva de vagas universitárias é necessariamente a melhor resposta.
Entre o diagnóstico e a prescrição existe um caminho que precisa ser demonstrado.
Uma pessoa trans pode pertencer a uma família rica, estudar nas melhores escolas, realizar cursos preparatórios caros e contar com amplo apoio familiar.
Uma pessoa não trans pode ter crescido na pobreza, estudado em escolas precárias, trabalhado desde a adolescência e enfrentado instabilidade familiar.
Se a identidade de gênero for suficiente para assegurar acesso a uma vaga reservada, a primeira pessoa poderá obter preferência sobre a segunda, ainda que tenha recebido muito mais oportunidades educacionais.
Isso não é uma hipótese absurda. É uma consequência previsível de qualquer política que utilize uma característica coletiva como substituta automática da vulnerabilidade individual.
A identidade trans pode estar associada à exclusão. Mas associação não significa equivalência.
Nem toda pessoa trans é economicamente vulnerável. Nem toda pessoa cisgênero teve condições adequadas para estudar. Nem toda pessoa branca foi socialmente privilegiada. Nem toda pessoa pertencente a uma minoria enfrentou a mesma intensidade de discriminação.
Políticas públicas inevitavelmente trabalham com categorias. Não é possível analisar toda a biografia de cada candidato. Porém, quanto mais distante a categoria estiver da desvantagem educacional que se pretende corrigir, maior será o risco de incluir quem não precisa e excluir quem precisa.
Essa é minha principal dificuldade com as cotas baseadas exclusivamente em identidade de gênero.
Não se trata de negar dignidade, direitos ou respeito às pessoas trans. Trata-se de perguntar por que a identidade, isoladamente, deve conferir preferência na distribuição de um recurso público escasso.
As perguntas que a UFPR precisa responder
Uma política pública séria não pode depender apenas de boas intenções, discursos emocionais ou expressões como “reparação histórica”.
É necessário definir o problema, demonstrar sua dimensão, justificar o instrumento escolhido e estabelecer mecanismos de avaliação.
No caso da nova política da UFPR, algumas perguntas permanecem sem resposta suficientemente clara.
Por que exatamente 3%?
O percentual corresponde à proporção estimada de pessoas trans na população? À proporção entre candidatos ao vestibular? A um levantamento sobre evasão escolar? Ou foi escolhido apenas porque gera aproximadamente uma vaga por curso?
As vagas serão retiradas da ampla concorrência, incorporadas ao conjunto das vagas já reservadas ou criadas como vagas suplementares?
Haverá exigência de escola pública ou renda familiar?
Uma pessoa trans de alta renda e formada integralmente em escola privada poderá concorrer à reserva?
Qual será o método de validação?
A retificação registral será suficiente? Haverá entrevista? Quais critérios poderão ser utilizados sem transformar uma banca universitária em tribunal encarregado de decidir quem parece ou não suficientemente trans?
Como serão prevenidas fraudes?
Quais indicadores serão acompanhados?
A universidade publicará anualmente dados sobre procura, ingresso, desempenho, retenção, evasão e conclusão?
A política será revisada depois de determinado período?
Existirá uma cláusula de reavaliação, ou a reserva se tornará permanente independentemente dos resultados?
Essas perguntas não são formas disfarçadas de preconceito. São requisitos elementares de governança.
Até o momento em que escrevo, há ainda uma aparente desarticulação entre a decisão anunciada e as informações oficiais do processo seletivo. As notícias afirmam que a cota de 3% valerá para o próximo vestibular, mas as páginas oficiais consultadas sobre o Vestibular 2027 continuam descrevendo as modalidades previstas na Lei Federal de Cotas, sem apresentar claramente a nova categoria trans.
Isso não significa necessariamente que a política não será implementada. Significa que sua regulamentação e comunicação precisam ser mais transparentes.
Cotas não são diplomas automáticos
Também é necessário rejeitar um argumento frequente entre os críticos: o de que as cotas entregarão diplomas a pessoas incapazes.
O ingresso por reserva de vagas não dispensa o estudante de frequentar disciplinas, realizar avaliações, cumprir carga horária, fazer atividades práticas e ser aprovado durante o curso.
Uma nota de entrada mais baixa não significa, automaticamente, incompetência profissional futura. Da mesma maneira, uma nota alta no vestibular não garante que alguém será bom médico, engenheiro, professor ou advogado.
Dados divulgados pela própria UFPR, com base no Censo da Educação Superior, indicaram taxa de conclusão maior entre cotistas da rede federal do que entre não cotistas em 2023. Esse dado não prova igualdade de desempenho técnico nem resolve toda a discussão, mas contradiz a afirmação simplista de que cotistas seriam inevitavelmente incapazes de concluir seus cursos.
A crítica responsável deve exigir padrões acadêmicos rigorosos para todos, e não presumir incapacidade antes mesmo do ingresso.
A universidade não deve reduzir seus critérios de aprovação para acomodar qualquer grupo. Se um estudante não alcança as competências necessárias, não deve ser aprovado, tenha ingressado pela ampla concorrência ou por qualquer modalidade de cota.
A porta de entrada pode considerar desigualdades. A porta de saída deve exigir formação adequada.
Especialmente em cursos como Medicina, nos quais erros podem produzir consequências graves, nenhuma política de inclusão pode justificar flexibilização de competências essenciais.
Mas isso vale para todos.
O problema da má formação médica é muito maior do que as cotas. Envolve proliferação de cursos, campos de estágio insuficientes, qualidade docente, mercantilização do ensino, fragilidade das avaliações e ausência histórica de mecanismos nacionais consistentes para verificar a proficiência dos formandos.
Culpar exclusivamente os cotistas seria escolher um alvo conveniente e ignorar o restante do sistema.
Uma política mais defensável
A identidade de gênero poderia ser considerada como um fator adicional de vulnerabilidade, mas não necessariamente como critério único e autossuficiente.
Uma política mais consistente poderia combinar indicadores: renda familiar, formação integral ou predominante em escola pública, necessidade de trabalhar durante o ensino médio, ruptura ou abandono familiar, situações documentadas de violência e evasão escolar, condições de moradia e pertencimento a grupos submetidos a discriminação persistente.
Reconheço que esse modelo também teria dificuldades. Exigir que uma pessoa exponha experiências traumáticas pode ser invasivo. Produzir documentos sobre discriminações ocorridas anos antes pode ser impossível. Quanto mais complexo o sistema, maior o custo administrativo.
Ainda assim, essas dificuldades não autorizam a universidade a substituir toda a análise da vulnerabilidade por uma identidade declarada.
Uma alternativa seria criar vagas suplementares, sem redução da ampla concorrência, ao menos durante uma fase experimental. Outra possibilidade seria estabelecer programas preparatórios, bolsas específicas e políticas robustas de permanência para estudantes trans socialmente vulneráveis.
Também seriam indispensáveis nota mínima, critérios públicos de validação, auditoria, divulgação periódica de resultados e revisão da política depois de prazo determinado.
Ação afirmativa não deveria significar ação permanente, imune a avaliação e protegida contra qualquer crítica.
Discordar não é odiar
Talvez este seja o ponto mais importante.
Eu não concordo com a criação de cotas baseadas exclusivamente na identidade de gênero.
Não considero suficientemente demonstrado que ser trans, independentemente de renda, escola frequentada e trajetória concreta, deva conferir preferência no acesso a uma vaga universitária.
Entendo melhor a lógica das cotas socioeconômicas. Consigo compreender, ainda que com ressalvas, a fundamentação histórica das cotas raciais. Mas encontro maior dificuldade em aceitar que uma condição identitária, por si só, seja transformada em critério de acesso diferenciado.
Essa discordância não representa hostilidade contra pessoas trans.
Defender que todos sejam tratados com dignidade não obriga ninguém a concordar com toda política apresentada em nome de determinado grupo.
O debate público se deteriora quando os defensores das cotas classificam qualquer questionamento como transfobia. Mas também se deteriora quando seus críticos utilizam caricaturas, piadas e insultos para desqualificar pessoas que sequer conhecem.
De um lado, o moralismo identitário tenta encerrar a discussão antes que ela comece. De outro, o preconceito transforma uma discussão institucional em desprezo pessoal.
Ambos empobrecem o debate.
A régua precisa medir aquilo que promete corrigir
Minha história não prova que as cotas sejam desnecessárias. Também não me transforma em modelo obrigatório de superação.
Ela apenas demonstra que vulnerabilidades reais podem permanecer invisíveis quando o Estado escolhe critérios excessivamente rígidos ou identitários.
Eu trabalhei durante toda a faculdade. Minha família enfrentou instabilidade financeira. Meu pai perdeu o emprego logo no início do curso. Minha passagem por uma escola particular ocorreu por meio de uma bolsa conquistada por desempenho.
Mesmo assim, em determinados modelos de ação afirmativa, eu seria tratado como alguém plenamente favorecido.
Enquanto isso, uma pessoa pertencente a um grupo identitário específico poderia ser considerada vulnerável sem que sua condição econômica, educacional ou familiar fosse examinada.
Esse contraste deveria nos incomodar.
A finalidade de uma política de cotas não deve ser distribuir reconhecimento simbólico entre identidades. Deve ser enfrentar desigualdades concretas que impedem pessoas capazes de acessar oportunidades educacionais.
Para isso, a régua utilizada precisa medir, com razoável precisão, aquilo que promete corrigir.
Quando a régua mede apenas a identidade, corre o risco de não enxergar a necessidade.
"E quando uma política pública deixa de enxergar a necessidade, pode produzir uma nova injustiça enquanto afirma combater a anterior."





