quarta-feira, 17 de junho de 2026

ENTRE GALHOS CAÍDOS E TEMPESTADES ANUNCIADAS

 


Por Diego de Almeida

Há uma doença social que se alastra com mais rapidez do que qualquer frente fria, enxurrada ou vendaval: a incapacidade de discutir problemas reais sem transformá-los em espetáculo, deboche ou guerra política.

Nos últimos dias, dois assuntos aparentemente distintos expuseram a mesma ferida. De um lado, prefeitos brasileiros se organizam para discutir estratégias de prevenção diante da possibilidade de um El Niño forte em 2026/2027, com risco aumentado de eventos climáticos extremos. De outro, em Curitiba, uma jovem foi gravemente atingida pela queda de um galho de árvore na Praça Osório, num acidente de consequências devastadoras.

Em ambos os casos, como era previsível, as redes sociais não decepcionaram em sua vocação para decepcionar.

Vieram os comentários agressivos. As ironias baratas. As acusações automáticas. Os diagnósticos de sofá. As sentenças proferidas por gente que não leu um laudo, não conhece um protocolo técnico, não entende arborização urbana, não sabe o que é Defesa Civil, não distingue prevenção de alarmismo e, ainda assim, se sente autorizada a julgar tudo e todos com a segurança dos ignorantes.

O problema não é criticar o poder público. Criticar é necessário. Fiscalizar é indispensável. Cobrar transparência, laudos, planejamento, orçamento e responsabilidade é parte elementar da vida democrática. O problema é confundir crítica com linchamento, fiscalização com histeria e indignação com oportunismo.

Há uma diferença enorme entre perguntar “o que foi feito, quando foi feito, por quem foi feito e se foi suficiente?” e simplesmente gritar “culpa da prefeitura”, antes de qualquer apuração técnica.

Essa diferença parece pequena para quem vive de frases prontas. Mas é justamente nela que se separa a cidadania da barbárie digital.

A possível chegada de um El Niño forte exige preparação. Não porque o céu vá necessariamente desabar amanhã, nem porque toda previsão climática deva ser tratada como profecia. Mas porque gestão pública responsável trabalha com risco, probabilidade e impacto.

É assim na medicina, na engenharia, na aviação, na segurança pública e deveria ser assim também na administração das cidades.

Quando há possibilidade de chuvas intensas, alagamentos, deslizamentos, ventos fortes, enchentes ou colapso de infraestrutura, o dever do gestor público não é esperar a tragédia para depois posar de solidário. O dever é planejar antes.

Isso significa mapear áreas de risco, revisar planos de contingência, testar sistemas de alerta, preparar abrigos, limpar galerias pluviais, revisar pontes, encostas e vias críticas, integrar Defesa Civil, assistência social, saúde, educação, obras e comunicação pública.

Significa também conversar com outros municípios, com Estados e com a União. Desastres climáticos não respeitam divisas administrativas. A água não consulta o mapa político antes de invadir uma cidade. O vento não pergunta a legenda partidária do prefeito antes de derrubar uma árvore. A encosta não escolhe ideologia antes de deslizar.

Portanto, quando prefeitos se reúnem para discutir prevenção, a pergunta madura não é “quanto custa essa reunião?” ou “quem vai aparecer na foto?”. A pergunta correta é: “quais medidas concretas sairão dali?”.

Reunião vazia merece crítica. Prevenção séria merece apoio. O que não merece respeito é o comentário raso que ridiculariza qualquer tentativa de planejamento e depois, quando ocorre a tragédia, cobra exatamente aquilo que antes desprezou.

Noutra situação, temos uma fatalidade; A queda de um galho que atinge uma jovem em praça pública é um episódio brutal. Não há como tratar isso com frieza burocrática. Uma vida foi profundamente alterada em questão de segundos. Uma família foi violentamente lançada em sofrimento, angústia e incerteza.

Mas exatamente por ser um caso grave, ele exige seriedade. Seriedade não combina com conclusão apressada.

Árvores são organismos vivos. Podem estar aparentemente estáveis e, ainda assim, sofrer falha estrutural. Podem ser afetadas por fungos, cupins, apodrecimento interno, encharcamento do solo, ventos, podas anteriores inadequadas, sobrecarga de galhos ou alterações urbanas no entorno. Algumas situações são previsíveis. Outras, não. Algumas decorrem de negligência. Outras, de atroz acaso.

A única maneira honesta de diferenciar uma coisa da outra é por meio de apuração técnica.

A árvore havia sido vistoriada? Quando? Por quem? Com qual metodologia? Havia sinais externos de comprometimento? O galho que caiu apresentava doença, podridão ou fratura prévia? O protocolo municipal de inspeção é adequado? A periodicidade das vistorias é suficiente? Há inventário arbóreo atualizado? Há equipe técnica e orçamento compatíveis com a quantidade de árvores da cidade?

Essas são perguntas legítimas.

O que não é legítimo é transformar dor humana em palanque, antes mesmo de saber se houve falha, omissão ou imprevisibilidade. Não é nenhum pouco plausível, muito menos produtivo, comentários de tipo arranquem todas as árvores das praçaslugar de árvore é na floresta, entre outros, que vimos por aí...

Também não é legítimo fazer o movimento oposto: usar a palavra “fatalidade” como escudo automático para impedir investigação. Acidente imprevisível existe. Mas a imprevisibilidade precisa ser demonstrada, não apenas proclamada.

O poder público não deve ser culpado por tudo. Mas deve estar preparado para explicar tudo.

Existe uma fantasia infantil na forma como muitas pessoas enxergam a vida urbana. Querem praças arborizadas, ruas sombreadas, feiras ao ar livre, parques bonitos, calçadas vivas e cidades menos hostis. Mas, ao mesmo tempo, ignoram que tudo isso exige manutenção, técnica, orçamento, poda, supressão quando necessária, reposição arbórea, fiscalização e decisões muitas vezes impopulares.

Quando uma árvore é removida preventivamente, alguém acusa a prefeitura de destruir o verde. Quando uma árvore cai, alguém acusa a prefeitura de não ter removido antes. Quando há reunião preventiva sobre clima, alguém chama de alarmismo. Quando vem a enchente, alguém pergunta por que ninguém se preparou.

Essa esquizofrenia cívica é uma das marcas do nosso tempo.

Queremos segurança sem custo, prevenção sem obra, fiscalização sem incômodo, cidade arborizada sem manejo, drenagem eficiente sem intervenção urbana, Defesa Civil forte sem investimento e poder público infalível sem admitir que a vida concreta possui riscos residuais.

Não existe cidade sem risco. Existe cidade que conhece seus riscos, monitora seus riscos, reduz seus riscos e responde melhor quando eles se materializam.

Essa é a diferença entre gestão e improviso.

É preciso abandonar dois vícios igualmente ruins:

O primeiro é o vício da culpabilização automática. A cada acidente, antes de qualquer dado, já se aponta o dedo. A prefeitura é culpada. O prefeito é culpado. O secretário é culpado. O servidor é culpado. O engenheiro é culpado. A árvore cai e a sentença já está pronta. A árvore é culpada!

Esse comportamento não é justiça. É preguiça mental com verniz de indignação.

O segundo vício é a absolvição automática. Tudo vira “fatalidade”, “força da natureza”, “impossível prever”, “ninguém poderia fazer nada”. Esse discurso também é perigoso, porque pode esconder omissão, desorganização ou precariedade técnica.

O caminho correto é outro: apuração.

Apurar não é perseguir. Apurar é esclarecer. É verificar se protocolos foram cumpridos, se eram adequados, se havia sinais prévios, se houve resposta rápida, se a manutenção estava em dia, se o sistema precisa ser corrigido e se alguém deve ser responsabilizado.

Numa sociedade minimamente séria, a pergunta não é “como uso isso contra meu adversário político?”. A pergunta é: “o que este evento revela sobre a nossa capacidade de prevenir e responder?”.

As redes sociais deram voz a muita gente. Isso foi bom. Mas também deram megafone a uma multidão que confunde opinião com conhecimento e raiva com lucidez.

O hater não quer entender; Quer reagir. Não quer melhorar a cidade; Quer vencer uma disputa imaginária. Não quer proteger vidas; Quer humilhar alguém. Não quer apuração; Quer culpados convenientes.

Se o prefeito se antecipa, é oportunista. Se não se antecipa, é omisso. Se poda árvore, destrói o meio ambiente. Se não poda, é irresponsável. Se convoca reunião, faz politicagem. Se não convoca, negligencia. Se comunica risco, espalha pânico. Se não comunica, esconde informação.

Esse tipo de comportamento não é fiscalização. É sabotagem do debate público.

E a consequência é grave: gestores passam a se preocupar mais com a reação digital do que com a decisão tecnicamente correta. Técnicos passam a ser desautorizados por clamor de rede. Políticas públicas viram reféns de frases de efeito. A prevenção perde espaço para a encenação.

Quando tudo vira disputa política, exacerbação de ego e ataque cego, nada é tratado com a seriedade que merece.

A resposta correta para o El Niño não é discurso. É plano.

Cada município deveria ter, de forma clara e pública, um plano de contingência atualizado para eventos climáticos extremos. Não um documento esquecido em gaveta, mas um protocolo operacional conhecido pelas equipes envolvidas.

É preciso mapear áreas de risco, atualizar cadastros de famílias vulneráveis, identificar escolas e ginásios que possam servir de abrigo, treinar equipes, revisar rotas de evacuação, garantir comunicação rápida com a população, limpar sistemas de drenagem e estabelecer canais diretos entre Defesa Civil, saúde, assistência social, segurança, obras e meio ambiente.

Também é necessário investir em comunicação pública simples. A população precisa saber o que fazer antes, durante e depois de uma emergência. Alerta que ninguém entende não salva ninguém. Sirene que ninguém reconhece não evacua ninguém. Aplicativo que ninguém usa não protege ninguém.

No caso da arborização urbana, as cidades precisam de inventário arbóreo georreferenciado, classificação de risco, vistorias periódicas, critérios técnicos de poda e remoção, registro público de intervenções e equipes capacitadas. Árvores não podem ser tratadas apenas como paisagem. Elas são infraestrutura viva.

Isso não significa sair cortando árvores de forma irresponsável. Pelo contrário. Significa cuidar melhor delas. Arborização urbana séria não é nem abandono romântico nem motosserra histérica. É manejo técnico.

A tragédia da Praça Osório não deve ser usada como munição política. Deve ser usada como alerta. O possível El Niño forte não deve ser usado como terror climático. Deve ser usado como chamado à preparação.

Entre a demagogia e a omissão existe um caminho mais difícil: o da responsabilidade.

Responsabilidade do poder público, que deve planejar, executar, prestar contas e corrigir falhas. Responsabilidade dos órgãos técnicos, que devem agir com rigor, transparência e independência. Responsabilidade da imprensa, que deve informar sem explorar a dor alheia. Responsabilidade da população, que deve cobrar sem linchar, fiscalizar sem inventar, indignar-se sem perder a razão. E responsabilidade de todos nós, que precisamos reaprender a distinguir acidente de negligência, prevenção de alarmismo, crítica de ódio e política pública de palanque.

Porque a cidade real não se governa com meme. Não se protege uma população com comentário raivoso. Não se evita desastre com lacração, nem com cinismo.

Prevenir catástrofes exige técnica, orçamento, coordenação e coragem administrativa.

Investigar acidentes exige serenidade, perícia e transparência.

E discutir tudo isso exige algo que anda escasso: maturidade.

A queda de um galho pode ser um acidente imprevisível. Uma enchente pode ser agravada por décadas de descaso. Um evento climático pode ser natural, mas seus efeitos são profundamente sociais. O que não podemos é continuar respondendo a temas complexos com a brutalidade simplória das redes.

A natureza não negocia com a nossa ignorância.

E a realidade, ao contrário dos haters, não está interessada em lacrar.

sexta-feira, 22 de maio de 2026

O Aprendizado em T e a Tentação de Saber Tudo

 



Por Diego de Almeida

O Aprendizado em T e a Tentação de Saber Tudo

Meus caros,

Há certas ideias que, quando bem apresentadas, parecem simples demais para serem profundas. Talvez seja justamente aí que more sua força. Assistindo a uma palestra de Salim Ismail, canadense conhecido por suas reflexões sobre inovação, organizações exponenciais e os impactos das tecnologias emergentes sobre o mundo contemporâneo, deparei-me novamente com uma dessas imagens conceituais que explicam muito com pouco: o chamado modelo de aprendizado em T.

A metáfora é quase infantil de tão visual. Imagine a letra T. A linha vertical representa a profundidade. A linha horizontal representa a amplitude. Em outras palavras, o indivíduo deve ter uma área na qual realmente se aprofunda, na qual estuda, pratica, erra, corrige, amadurece e se torna competente. Mas, ao mesmo tempo, precisa desenvolver uma visão ampla o suficiente para compreender outras áreas, dialogar com outros saberes e perceber conexões que, à primeira vista, não seriam evidentes.

Simples? Sim. Óbvio? Nem tanto.

Vivemos numa época curiosa. Nunca houve tanto acesso à informação. Nunca foi tão fácil assistir a uma aula, ler um artigo, acompanhar uma conferência internacional ou perguntar a uma inteligência artificial qualquer coisa que nos passe pela cabeça. Entrementes, talvez nunca tenha sido tão fácil confundir informação com conhecimento, opinião com domínio e repertório superficial com sabedoria.

Há quem saiba falar um pouco de tudo. Política, economia, filosofia, medicina, tecnologia, espiritualidade, educação dos filhos, investimentos, alimentação, vinhos, geopolítica e até reforma tributária. Fala-se de tudo com uma segurança invejável, geralmente inversamente proporcional à profundidade real do conhecimento. É a síndrome da linha horizontal sem haste vertical. Uma pessoa que se estende muito, mas não desce em lugar nenhum.

Por outro lado, há o especialista entrincheirado. Aquele que conhece muito de um campo específico, mas olha para todo o restante como se fosse ruído, distração ou ameaça. É o sujeito que se aprofunda tanto num poço que deixa de ver a paisagem ao redor. Sabe muito, mas conecta pouco. Domina uma técnica, mas não compreende o contexto. Resolve um problema pontual, mas não percebe a transformação do ambiente em que esse problema existe.

O modelo em T tenta escapar desses dois empobrecimentos. Ele não defende o generalista raso, nem o especialista cego. Propõe outra coisa: profundidade com abertura. Competência com curiosidade. Técnica com cultura. Domínio com diálogo.

E aqui está o ponto que me parece mais interessante: a linha horizontal só tem valor quando existe uma haste vertical que a sustente. Sem profundidade, a amplitude vira apenas passeio intelectual. Um tipo de turismo de ideias. A pessoa visita muitos temas, tira fotografias bonitas, compra lembrancinhas conceituais, mas não mora em nenhum deles. Não sabe construir, não sabe sustentar, não sabe responder quando a coisa aperta.

Há uma diferença enorme entre conversar sobre um assunto e responder por ele.

Na medicina, isso é evidente. Um médico pode e deve conhecer gestão, tecnologia, comunicação, ética, economia da saúde, inteligência artificial e políticas públicas. Seria ingenuidade imaginar que a boa prática médica, hoje, pudesse viver isolada numa ilha técnica. Mas nada disso substitui a formação sólida, o raciocínio clínico, a experiência acumulada, o estudo contínuo e a responsabilidade concreta diante do paciente. A amplitude melhora a prática. Não a substitui.

Na vida profissional, o mesmo acontece. Um engenheiro que entende de comunicação negocia melhor. Um advogado que compreende tecnologia interpreta melhor o mundo em transformação. Um professor que conhece psicologia, cultura digital e sociologia ensina com mais inteligência. Um empresário que entende de comportamento humano lidera melhor. Mas todos eles precisam ter uma base de competência real. Caso contrário, tornam-se apenas bons conversadores em reuniões longas.

E, convenhamos, o mundo já tem reuniões longas em quantidade suficiente.

O aprendizado em T também serve para a vida interior. Cada um de nós deveria ter uma haste vertical de valores. Algo que desça fundo. Princípios que não mudem a cada modismo, a cada palestra empolgante, a cada frase bonita compartilhada nas redes sociais. Sem essa profundidade moral, a amplitude vira dispersão. A pessoa conhece muitas ideias, mas não sabe quem é. Experimenta muitos discursos, mas não sustenta nenhuma convicção. Troca de opinião como quem troca de camisa, chamando instabilidade de evolução.

Evoluir não é oscilar ao sabor do vento. Evoluir é crescer mantendo algum eixo.

Talvez por isso a metáfora do T seja tão feliz. Ela nos lembra que é preciso expandir, mas também enraizar. Abrir os braços, mas manter a coluna. Conversar com o mundo, mas não perder o centro.

O mesmo se aplica à cidadania. Não basta ter opinião. Opinião, hoje, é produto barato. Todo mundo tem, oferece e, muitas vezes, impõe. O que falta é densidade. Falta estudo. Falta escuta. Falta a capacidade de compreender que problemas complexos raramente cabem em frases de efeito. A barra horizontal nos ajuda a enxergar a complexidade. A haste vertical nos impede de sermos engolidos por ela.

Salim Ismail costuma falar de um mundo em aceleração. Tecnologias que mudam mercados. Organizações que crescem em velocidade antes impensável. Profissões que desaparecem, outras que surgem, modelos que envelhecem antes mesmo de amadurecer. Nesse cenário, o aprendizado em T deixa de ser uma elegância intelectual e passa a ser uma necessidade prática. Quem não aprofunda, não entrega. Quem não amplia, fica obsoleto.

E aqui há uma lição incômoda: estudar não é acumular temas. Estudar é organizar a própria ignorância.

Saber o que se sabe. Saber o que não se sabe. Saber onde é preciso descer mais fundo. Saber quais pontes precisam ser construídas com outros campos. Isso exige humildade. E humildade, neste caso, não é modéstia performática. É método de sobrevivência intelectual.

O mundo contemporâneo premia, muitas vezes, a aparência de competência. Um bom vocabulário, meia dúzia de conceitos importados, algumas expressões em inglês e uma apresentação bem diagramada já fazem muita gente parecer mais preparada do que realmente é. Mas a realidade tem o desagradável hábito de cobrar profundidade. Na hora da crise, da decisão difícil, da responsabilidade concreta, a superfície não sustenta ninguém.

Por isso, talvez a pergunta que devamos fazer não seja apenas: “o que preciso aprender?”

A pergunta melhor é: “em que eu preciso me aprofundar de verdade, e que outras áreas preciso compreender para não me tornar estreito?”

Essa pergunta vale para o médico, para o empresário, para o professor, para o filósofo, para o gestor público, para o pai, para a mãe, para qualquer pessoa que deseje atravessar este tempo sem ser apenas arrastada por ele.

Aprender em T é aceitar que não podemos saber tudo, mas também não temos o direito de saber apenas uma coisa. É reconhecer que a especialidade nos dá consistência, enquanto a amplitude nos dá inteligência contextual. É, no fundo, uma forma de maturidade.

Porque há pessoas que crescem para os lados, mas não criam raízes. Outras criam raízes tão fundas que nunca mais veem o horizonte.

O desafio é ser árvore e ponte.

Ter raiz suficiente para não cair.

E abertura suficiente para alcançar o outro lado.

Abraços fraternos.

quarta-feira, 22 de abril de 2026

Osmar que vem pra bem! Adeus, padrinho.



Por: Diego de Almeida

Há textos que se escrevem com a razão. Outros, inevitavelmente, são ditados pela memória, e estes, quase sempre, vêm embebidos de saudade.

“Estimado”. Assim, com essa simplicidade carregada de afeto, meu padrinho me saudava a cada encontro: “Meu estimado!”. E não era apenas uma palavra escolhida ao acaso. Era, antes, um retrato fiel daquilo que ele próprio era: querido, respeitado, benquisto. Um homem que fazia jus, em vida, ao adjetivo que tão generosamente distribuía.

O Padrinho Osmar Vieira tinha dessas presenças que não se impõem, acolhem. Voz mansa, sorriso largo, gestos sempre afetuosos. Cardíaco de longa data, é verdade… mas ouso dizer que seu coração não sucumbiu à doença; talvez tenha apenas se rendido ao excesso de amor que carregava.

Partiu no dia de Tiradentes. Data cívica, de memória e de significado. E há, nisso, uma certa poesia silenciosa, como se até o calendário tivesse escolhido um dia digno para a despedida.

Jornalista por formação, diácono permanente por vocação. Quase trinta anos de ministério vividos com entrega genuína, dessas que não pedem reconhecimento, mas deixam marcas profundas. Estava sempre disponível: uma palavra de consolo, uma escuta paciente, uma presença discreta nas horas difíceis. Não importava o horário, não importava o cansaço.

Quando eu fui crismado (sacramento católico), ele me deu uma bíblia, que guardo com carinho até hoje... não leio tanto quanto deveria, mas está lá no meu quarto, sempre ao alcance da mão, se precisar. 

E quando eu entrei pra faculdade de medicina, em 1998, passávamos por um período complicado. então foi ele que deu o dinheiro pra eu comprar o meu primeiro livro médico: Atlas de Anatomia Humana de Yokochi! Foram 98,00 reais... uma fortuna, na época! Ele nunca fez menção de cobrar algo em troca...

Era sério quando necessário, mas, na maior parte do tempo, era um verdadeiro pândego. Brincava com tudo. Inclusive com o próprio nome. Dizia, com aquele sorriso maroto: “Erraram na concordância… o certo era O Mar, e não Osmar… embora haja Os mar que vêm pra bem…”. E vinha mesmo. Tanto que, até no hospital, já o conheciam como “o Osmar que vem pra bem”.

Havia nele uma leveza quase desconcertante diante da vida. Dizia que gostava de acordar cedo, não por disciplina rígida, mas para “ter mais tempo sem fazer nada depois”. E acordava mesmo. Quatro da madrugada já o encontravam de pé. Entre uma oração e outra (e não eram poucas), lá estava ele, fiel ao seu ritual: chimarrão em mãos, proseando com o Sr. Antônio, seu sogro, como quem cultiva o tempo em estado bruto.

Depois, vinha o cuidado com o corpo, ou algo próximo disso. Tinha o hábito (ou seria o exagero?) de consumir uma quantidade quase mítica de frutas pela manhã. Doze? Dezesseis? Confesso que a memória falha… mas a imagem permanece: um homem simples, cercado de cores, sabores e exageros que só faziam sentido dentro da lógica muito própria de sua alegria de viver.

Aliás, ele próprio dizia que comia apenas uma vez ao dia: “Começo de manhã e termino à noite”. E dizia isso com a naturalidade de quem encontrou, à sua maneira, um jeito leve de atravessar o cotidiano.

Quem o visse de relance — figura miúda, aparência comum — dificilmente perceberia a grandeza que ali habitava. Mas bastava sentar-se ao seu lado por alguns minutos… e estava feito: conquistava. Sem esforço, sem intenção. Apenas sendo.

Deixou uma esposa dedicada, três filhos bem formados, netos que certamente herdarão algo dessa luz tranquila. Deixou amigos — muitos. Talvez mais do que ele próprio pudesse contar.

Mas, sobretudo, deixou aquilo que não se inventa nem se substitui: um legado silencioso de presença, de serviço e de bondade cotidiana. Dessas virtudes que não fazem alarde, mas que sustentam o mundo sem que percebamos.

Mais de três décadas de dedicação à Igreja e à comunidade não se encerram com um adeus. Permanecem. Ecoam. Continuam a agir, de algum modo, naqueles que foram tocados por sua passagem.

E, sim: fará falta. Uma falta mansa, daquelas que não gritam, mas que se instalam devagar, nos pequenos detalhes: no cumprimento que não virá, na piada que não será contada, na cadeira que permanecerá vazia.

Ide em paz, meu estimado padrinho Osmar.

Se houve, de fato, um erro de concordância em seu nome… foi apenas na gramática. Porque, na vida, o senhor foi, com absoluta precisão, alguém que veio para o bem.





quarta-feira, 15 de abril de 2026

Vai dar tempo — até o dia em que não dá mais


 
Por Diego de Almeida

🚂 Vai dar tempo — até o dia em que não dá mais

Meus caros,

Há coisas na vida que não deveriam precisar de estatística para nos ensinar, mas, ainda assim, insistem em se repetir com uma regularidade quase didática.

No Paraná, mais de uma centena de acidentes ferroviários ocorrem por ano. Em Curitiba, algumas dezenas, todos os anos. 

E, na esmagadora maioria das vezes, o roteiro é o mesmo:

Um veículo diante da linha férrea. Um trem em aproximação. E uma decisão.

Não é o acaso que governa esse encontro. É algo bem mais humano e, por isso mesmo, mais perigoso.

A cena é sempre banal, até deixar de ser; O trem vem... Grande. Barulhento. Inevitável! Não se esconde. Não desvia. Não negocia...

O motorista olha. Calcula. Hesita por um segundo, ou nem isso. E então decide: “Vai dar tempo.”

Essa frase não é dita em voz alta. Mas está ali, inteira, sustentando a ação.

E, convenhamos, na maioria das vezes… dá mesmo.

O carro passa. A vida segue. E o cérebro registra aquilo como prova de que o cálculo foi correto.

Mas não foi. Foi apenas tolerado pela sorte. O erro que se repete porque funciona, até falhar!

Entrementes, é aqui que mora o engano mais sutil.

O problema não é o erro em si. É o sucesso repetido do erro.

Porque cada travessia bem-sucedida reforça a ilusão de controle. Cada “quase” invisível alimenta a confiança. E assim se constrói uma convicção silenciosa: “Eu sei o que estou fazendo.”

Até o dia em que o trem não está tão longe quanto parecia. Até o dia em que a margem desaparece. Até o dia em que o tempo deixa de ser suficiente...

E, nesse dia, não há habilidade que compense. Não há reflexo que resolva. Não há decisão que reverta.

Porque a decisão já foi tomada antes; muito antes! 

Há um ponto que ninguém vê: Existe, em toda linha férrea, um ponto invisível. Um ponto em que o trem já não consegue parar e o veículo já não consegue sair. A partir dali, tudo o que resta é consequência.

O mais desconcertante é que esse ponto não se anuncia. Não há placa. Não há aviso. Não há sinal. Ele simplesmente é ultrapassado, quase sempre sem que se perceba.

E, quando se percebe, já não importa mais...

Agora, retire o trem da cena e observe:

Esse mesmo mecanismo se repete, com uma fidelidade incômoda, em outras áreas da vida.

No trabalho, quando o prazo ainda parece distante.
Na relação, quando o incômodo ainda é pequeno.
Na rotina, quando o desgaste ainda é tolerável.

“Depois eu resolvo.” “Ainda dá tempo.” “Está sob controle.”

Palavras diferentes. A mesma lógica.

A vida não buzina! Aqui reside uma diferença cruel.

O trem ainda avisa; Ele apita. Vibra. Anuncia sua presença. Ele dá sinais claros de que está vindo, e vindo forte.

A vida, não...

Ela não buzina antes de cobrar. Ela não reduz a velocidade para facilitar o seu cálculo. Ela não se importa com a sua percepção de tempo. 

Ela apenas segue, e cobra.

Cobra sempre e caro, pelo atraso que não parece atraso...

No trabalho, o atraso não começa no dia do prazo. Ele começa no primeiro adiamento irrelevante. Na primeira tarefa “que pode esperar”. Na primeira vez em que você confunde folga com margem... E, quando você percebe, não está mais trabalhando, está tentando compensar.

Mas compensar não é resolver. É apenas correr atrás de algo que já se perdeu. É o famoso correr atrás do prejuízo!

Nos relacionamentos, o erro é ainda mais silencioso.

Não é o grande conflito que destrói, mas sim, são os pequenos silêncios acumulados; A conversa que não aconteceu. O incômodo que foi engolido. A distância que foi tolerada.

Até que, um dia, não há mais o que dizer. E, curiosamente, ninguém sabe exatamente quando começou. Mas começou cedo. Muito cedo!

Se há uma ilusão que nos acompanha com persistência, é esta: A de que sempre haverá um “depois” disponível para correção. Mas nem tudo na vida permite correção tardia. 

Algumas decisões são como cruzamentos ferroviários: Elas exigem precisão antes, não reação depois.

O que deveria nos inquietar, então?

Não é o acidente em si. É o fato de que ele é previsível. Não nos detalhes, mas na essência.

Ele não acontece porque alguém quis que acontecesse. Ele acontece porque alguém acreditou, com sinceridade, que daria tempo.

E essa é, talvez, a forma mais perigosa de erro: Aquela que parece razoável no momento em que é cometida. 

Em última análise, não é sobre o trem. Nunca foi. É sobre a confiança excessiva na própria capacidade de calcular o tempo, o risco e a margem.

É sobre ultrapassar, sem perceber, o ponto em que ainda seria possível parar.

E é, sobretudo, sobre reconhecer antes, aquilo que, depois, já não terá solução.

Meus caros, a vida não costuma anunciar seus pontos de não retorno. Ela apenas os atravessa conosco. E, quando percebemos, já estamos do outro lado.

“Não é o impacto que destrói; é a decisão tomada (ou não) quando ainda parecia que daria tempo.”

quarta-feira, 8 de abril de 2026

Inverno da Alma - Quando a vida real não cabe na tela...

 

fonte: https://www.instagram.com/p/DW1eYJfjdul/


Por Diego de Almeida


Carlos Filhar, 47 anos, psicólogo, influenciador digital em ascensão... Uma vida interrompida abruptamente em um ato auto-infligido. 

Há algo de profundamente inquietante nos acontecimentos recentes. Não pelo espetáculo, que infelizmente sempre se forma, mas pelo silêncio que vem antes dele. Um silêncio que, muitas vezes, passa despercebido em meio a stories, reels, likes e comentários.

Vivemos tempos curiosos. Nunca estivemos tão expostos, e talvez nunca tenhamos estado tão sós.

As redes sociais criaram uma espécie de vitrine permanente da vida. Ali, tudo parece organizado, bonito, coerente. Relacionamentos são felizes, rotinas são produtivas, corpos são saudáveis, emoções são controladas. Mas essa vitrine, meus caros, não é a casa; é apenas a fachada.

E o problema começa exatamente aí.

Porque quando a vida real, com suas falhas, dores, frustrações e imperfeições, começa a destoar da imagem construída, surge um conflito silencioso. Um desalinhamento entre aquilo que se vive e aquilo que se mostra. E sustentar essa discrepância, dia após dia, cobra um preço alto.

Relacionamentos, que já são complexos por natureza, tornam-se ainda mais frágeis quando atravessados pela lógica da exposição. O amor, que deveria ser espaço de acolhimento e verdade, passa a disputar lugar com validação externa, comparação constante e expectativas irreais.

E quando algo se rompe, como inevitavelmente acontece na experiência humana, a queda não é apenas emocional. Ela é amplificada. Tornada pública. Comentada. Julgada. Compartilhada.

Mas é preciso dizer com clareza: nenhuma ruptura afetiva, por mais dolorosa que seja, explica sozinha um colapso emocional profundo. Quando alguém chega ao limite, há quase sempre um histórico silencioso por trás, um acúmulo de dores não elaboradas, de cansaços não verbalizados, de pedidos de ajuda que passaram despercebidos.

E é justamente aqui que devemos deslocar o foco.

Não para o evento em si. Não para a curiosidade mórbida. Não para o julgamento fácil. Mas para aquilo que ele revela.

Quantas pessoas ao nosso redor estão sustentando, em silêncio, uma luta interna semelhante? Quantas estão funcionando, produzindo, sorrindo e, ainda assim, esgotadas por dentro? Quantas vezes ignoramos sinais sutis, porque não são escandalosos o suficiente para chamar atenção?

A depressão raramente grita. Ela costuma sussurrar. E, com frequência, é interpretada como “fase”, “drama” ou “fraqueza”.

Não é.

É doença. É sofrimento real. E, sobretudo, é tratável, desde que haja escuta, acolhimento e intervenção adequada.

Se há uma responsabilidade que podemos assumir diante de tudo isso, ela não é a de explicar o ocorrido, mas a de agir no que nos cabe.

Prestar mais atenção. Perguntar com mais honestidade: “você está bem, de verdade?” 

Ouvir sem interromper, sem corrigir, sem minimizar.

E, quando necessário, orientar e incentivar a busca por ajuda profissional, psicólogos, psiquiatras, redes de apoio. Carlos é a prova que psicólogo não faz auto-análise; Quando estamos no fundo do poço, a corda de salvação precisa vir de fora!

Da mesma forma, é preciso reconhecer algo incômodo: o sucesso nas redes sociais não é sinônimo de estabilidade emocional. Visibilidade não protege ninguém. Curtidas não substituem vínculos reais. Seguidores não são, por si só, rede de suporte.

Há uma diferença fundamental entre ser visto e ser amparado.

E talvez este seja o ponto mais importante de todos.

A vida que importa continua acontecendo fora da tela. Nos encontros reais. Nas conversas difíceis. Nos silêncios compartilhados. Nos gestos pequenos, mas constantes.

Se você que lê este texto se reconhece, ainda que parcialmente, em algum desses sinais - cansaço persistente, desânimo, sensação de vazio, dificuldade de seguir - não normalize isso como algo que “vai passar sozinho”.

Procure ajuda. Fale com alguém! Não carregue sozinho um peso que pode, e deve, ser dividido.

E, se você conhece alguém que possa estar nessa condição, não espere um pedido explícito. Muitas vezes, ele não virá.

Aproxime-se.

A presença, quando verdadeira, pode ser mais terapêutica do que qualquer discurso elaborado.

Entrementes, talvez a maior lição silenciosa deste episódio seja esta: precisamos reconstruir espaços de humanidade fora da lógica do espetáculo. Relações mais reais, menos performáticas. Mais profundas, menos expostas. Mais verdadeiras, menos perfeitas.

Porque, no fim, o que sustenta alguém não é a imagem que ele projeta, mas os vínculos que ele tem.

E estes, felizmente, ainda dependem muito menos de algoritmos e muito mais de nós.

“Há dores que não fazem barulho — mas são justamente as que mais precisam ser ouvidas.”

quarta-feira, 11 de março de 2026

Ah, Dona Oneida…

 



Por Diego de Almeida


Ah, Dona Oneida…

Ah, Dona Oneida... Matrona machista, mãe de quatro varões, tão obsequiosa em sempre olvidar objetificações ojerizantes. Dizia-se protetora; na verdade, era sacerdotisa de um pequeno culto doméstico: o culto aos próprios filhos.
Morava numa casa de esquina, daquelas antigas, com grades altas e cortinas sempre semicerradas. Ali dentro, criara quatro homens como quem cria galos de briga — não para lutar, dizia ela, mas para jamais perder.

— Homem não se curva — repetia, enquanto servia o café. — O mundo já tenta dobrar vocês demais.

O mais velho, Rodrigo, aprendera cedo que charme era uma moeda. Falava macio, sorria fácil, e deixava atrás de si uma sequência de histórias mal resolvidas. Sempre que alguma moça aparecia à porta, olhos vermelhos e voz trêmula, Dona Oneida suspirava com uma paciência quase pedagógica.

— Minha filha, você deve ter entendido errado. Rodrigo é um rapaz tão correto…

E fechava o portão com um gesto suave, como quem encerra uma conversa trivial.

O segundo, Marcelo, preferia a ironia. Dizia que o mundo era um teatro e que todos fingiam virtudes. Aprendera com a mãe que a culpa era uma ferramenta: útil quando projetada nos outros.

— Mulher hoje em dia gosta de drama — dizia Dona Oneida, abanando a cabeça. — Antigamente sabiam seu lugar.

O terceiro, Gustavo, era silencioso. Observador. Absorvera da casa uma filosofia menos ruidosa: a de que o poder verdadeiro se exercia na indiferença. Nunca gritava, nunca discutia. Apenas descartava pessoas como quem troca de camisa.

E o caçula, Henrique, ainda ensaiava o papel. Crescera vendo os irmãos retornarem tarde, rindo de histórias que Dona Oneida ouvia com indulgência quase devota.

— São jovens… — justificava ela, sempre. — Homem precisa experimentar o mundo.

Entrementes, como diria algum cronista antigo, havia algo de curioso naquele lar: a ausência completa de espelhos morais. Nenhuma pergunta incômoda. Nenhum limite real. Apenas uma narrativa contínua de absolvição.

Para Dona Oneida, seus filhos eram vítimas de um mundo ingrato. As mulheres eram exageradas. Os amigos, invejosos. Os patrões, injustos. O mundo inteiro conspirava contra seus quatro varões impecáveis.

E assim, noite após noite, ela os acolhia de volta ao porto seguro da casa.

— Aqui vocês sempre terão razão — dizia.

O curioso é que, com o tempo, os rapazes começaram a acreditar nisso.
Rodrigo já não seduzia: consumia.
Marcelo já não ironizava: desprezava.
Gustavo já não ignorava: manipulava.
Henrique aprendia depressa.

Ensinará algo mais perigoso: a nunca serem responsabilizados.

Cria adultos frágeis — armados com a arrogância de quem jamais aprendeu que liberdade e responsabilidade caminham sempre juntas.

E Dona Oneida, sentada à cabeceira da mesa, servia mais café, mais desculpas, mais indulgência.

Era uma pedagogia silenciosa.

Não lhes ensinara a serem homens.

E quando, anos depois, os quatro começaram a colher as consequências inevitáveis — processos, rupturas, isolamento...

Certa feita, após discutir com a namoradinha da escola, Henrique chegou em casa. Não havia ninguém...  Chamou alguns amigos. Depois, ligou para a namorada e convidou pra tomar um sorvete, pra fazer as pazes... ela foi. E com toda a sabedoria e astúcia de seus 17 anos, regou a taça de sorvete com as gotinhas que sua mãe usava pra dormir... Quando a menina ficou desacordada, Henrique pôs à mesa e chamou os amigos que aguardavam em silêncio no outro cômodo. Fizeram a festa! Refastelaram-se... não havia limites. Não havia não... tampouco, havia sim.

Dona Oneida chegou pouco depois ainda em tempo de ver uma menina semi-vestida, desacordada no chão da sua cozinha. Chamou um carro de aluguel, colocou a "mocinha que bebeu um pouco demais" dentro e mandou ela embora... Depois, chamou a atenção do caçula e seus amigos:

— Meus anjos, não tragam esse tipo de garota pra dentro de casa. Depois ela vai querer dar problema pra vocês... Façam o que tiverem que fazer na rua, da próxima, tá bom?

Ela não entendeu o porquê de a polícia bater na sua porta alguns dias depois e de levarem seu príncipe apreendido... nem entendeu porque aquele bando de repórteres  falavam tão mal de seu filhinho e dos amigos dele.

Dona Oneida apenas suspirou e soluçou, olhando pela janela.

— Esse mundo está cada vez mais cruel com os homens…

Nunca lhe ocorreu que, talvez, tivesse criado quatro homens incapazes de viver nele.

Porque proteger demais, às vezes, não cria filhos fortes.

Ah, Dona Oneida... poderia ser Josefa, ou Maria... Osmar ou José Carlos. Não é sobre como se chama, mas como se cria!




terça-feira, 10 de março de 2026

Sobre Lealdade...


Por Diego de Almeida


Eu costumo aprender muito com meus amigos... geralmente são grandes fontes de inspiração para mim! Desta feita, não foi diferente; Há certas frases que, embora simples, carregam dentro de si um peso moral considerável.

Não são frases rebuscadas. Não são discursos cuidadosamente elaborados. São afirmações diretas, pronunciadas quase com naturalidade, como quem diz algo óbvio; e justamente por isso revelam muito sobre o caráter de quem as profere.

Outro dia ouvi do meu Irmão Breno uma dessas frases. Não foi durante uma sessão solene, nem durante algum debate filosófico profundo. Foi em conversa comum, dessas que surgem entre Irmãos após os trabalhos, quando a formalidade ritualística dá lugar à convivência fraterna.

Ele disse, com absoluta simplicidade:

“Desde que fui iniciado na Loja Gênesis, sempre estive nela… e sempre vou continuar nela, com meus Irmãos.”

Confesso que aquilo me fez pensar... Porque, embora curta, a frase expressa algo cada vez mais raro no mundo moderno: lealdade.

Vivemos uma época em que quase tudo parece provisório. As pessoas trocam de emprego com frequência. Mudam de cidade, de projetos, de círculos sociais. Mudam até mesmo de convicções com certa facilidade.

Se algo incomoda, abandona-se...
Se algo exige esforço, troca-se...
Se aparece uma opção aparentemente mais vantajosa, muda-se de direção!

Não há, em si, nada de errado com mudanças, afinal, a vida também é movimento.

Mas existe uma diferença fundamental entre mudança por crescimento e mudança por mera conveniência. E a lealdade pertence justamente ao campo oposto da conveniência. Ser leal não significa permanecer onde tudo é perfeito. Significa permanecer porque aquilo tem valor, mesmo quando existem imperfeições.

Isso vale para a amizade em geral. Amigos de verdade não são aqueles que aparecem apenas nos momentos agradáveis, nas comemorações e nas mesas fartas. Esses, convenhamos, costumam ser numerosos.

O teste real da amizade ocorre nos momentos menos confortáveis.

Quando surgem divergências.
Quando aparecem dificuldades.
Quando a convivência exige maturidade... Ah! Maturidade... quanto isso nos faz falta, cada vez mais e mais!

É nesses momentos que se revela quem está ali por circunstância… e quem está ali por convicção. 

A lealdade se manifesta justamente na permanência. Não na permanência cega, mas na permanência consciente. 

Muita gente sabe que eu participo de uma sociedade de estudos filosóficos chamada Maçonaria (e não é religião, ok... eu sou católico!). Na Maçonaria, esse conceito de lealdade ganha ainda mais profundidade.

Quando alguém é iniciado, não ingressa simplesmente em um grupo social ou em um círculo de convivência. Ingressa em uma fraternidade iniciática, construída ao longo de séculos. Ali convivem pessoas de histórias distintas, temperamentos diferentes e opiniões diversas. E isso é natural.

A Loja - nome dado à reunião dos Maçons - não é um lugar onde se reúnem pessoas perfeitas. Muito pelo contrário: ela é justamente o espaço onde homens e mulheres imperfeitos se encontram para trabalhar sobre si mesmos, para lapidar, pouco a pouco, a própria pedra bruta.

Nesse processo, inevitavelmente surgem divergências. Isso é natural! Às vezes surgem incompreensões. Outras vezes surgem diferenças de visão.

Mas é justamente nesse contexto que a lealdade se torna essencial; A lealdade é o cimento invisível que mantém a construção de pé.

Por isso aquela frase do Irmão Breno me pareceu tão significativa. Ela não foi dita em tom dramático. Não foi uma declaração solene. Foi apenas uma constatação tranquila: ele escolheu permanecer.

E permanecer, meus caros, é também um ato de caráter!

Num mundo em que muitos estão sempre procurando o próximo ambiente mais conveniente, há algo de profundamente digno em quem decide cultivar raízes. 

Porque, no fundo, uma Loja não é apenas um espaço ritualístico. Ela também se torna parte da nossa história.

É ali que recebemos nossas primeiras instruções.
É ali que aprendemos nossos primeiros símbolos.
É ali que encontramos pessoas que, com o tempo, deixam de ser apenas conhecidos e passam a ocupar o lugar de verdadeiros Irmãos.

A lealdade, nesse contexto, não significa apenas permanecer em um lugar. Significa construir memória coletiva. Significa participar da construção de algo que existia antes de nós e continuará existindo depois de nós.

Entrementes…

Talvez seja isso que mais me chamou a atenção naquela frase aparentemente simples: Ela não falava apenas sobre presença. Falava sobre pertencimento.

Num tempo em que tantas relações parecem frágeis, temporárias e descartáveis, ouvir alguém afirmar com serenidade que continuará ao lado de seus Irmãos é quase um pequeno gesto de resistência moral.

E confesso: achei bonito.

Porque, no fim das contas, instituições não sobrevivem por séculos apenas por seus símbolos, rituais ou tradições. Elas sobrevivem porque existem pessoas que escolhem permanecer.

E não são apenas as instituições: serve para os grupos de amigos, os colegas de classe, os funcionários de uma empresa, os integrantes de um partido político ou sindicato... em qualquer ambiente ou situação onde dois ou mais serem humanos estiverem juntos, poderemos aplicar o conceito e a necessidade da lealdade, nas suas mais diversas formas!

E a lealdade - silenciosa, discreta e constante - continua sendo uma das pedras mais sólidas sobre as quais qualquer fraternidade pode ser construída.

domingo, 8 de março de 2026

8 de Março: Tanto Conquistado! Tanto Ainda a Conquistar...

 


Por Diego de Almeida

Todos os anos, quando chega o Dia Internacional da Mulher, repetem-se dois rituais quase automáticos. De um lado, as flores, as homenagens, as mensagens bonitas nas redes sociais. De outro, uma espécie de disputa ideológica sobre o que afinal significa o tal “feminismo”. Entre elogios superficiais e caricaturas militantes, o sentido original da data muitas vezes se perde.

E, como tantas outras coisas em nosso tempo, aquilo que nasceu como reivindicação legítima acaba sendo transformado em slogan, bandeira partidária ou guerra cultural.

Mas se fizermos um pequeno exercício de memória histórica, veremos que o feminismo, em sua origem, não surgiu para estabelecer uma guerra entre homens e mulheres, tampouco para negar as diferenças naturais entre os sexos. Surgiu, sobretudo, como um movimento de equiparação de direitos civis, políticos e sociais.

E isso, convenhamos, não é pouca coisa.

Durante séculos, em grande parte do mundo, as mulheres não podiam votar, não podiam possuir propriedades de forma independente, não tinham acesso à educação formal e eram frequentemente excluídas das esferas de decisão pública. O feminismo histórico foi, antes de qualquer outra coisa, uma reação a esse estado de coisas.

Não se tratava de afirmar que homens e mulheres são absolutamente idênticos em tudo — ideia que, além de biologicamente questionável, é sociologicamente ingênua. Tratava-se de algo muito mais simples e muito mais razoável: se a dignidade humana é a mesma, os direitos fundamentais também devem ser.

Esse era o ponto.

Entrementes, como ocorre com praticamente todo movimento humano, o tempo tratou de multiplicar interpretações. Algumas delas equilibradas e razoáveis; outras, francamente caricatas. Em certos ambientes contemporâneos, o debate sobre direitos das mulheres parece ter sido substituído por uma espécie de competição de ressentimentos, na qual o objetivo já não é construir justiça, mas sim inverter hierarquias.

Mas reduzir toda a questão a esses exageros seria igualmente injusto. Porque basta olhar ao redor, ou um pouco além de nossas fronteiras, para perceber que a realidade ainda está longe de ser plenamente civilizada.

Aqui mesmo no Brasil, ainda convivemos com números alarmantes de violência doméstica, feminicídios e abusos que revelam o quanto a dignidade feminina continua sendo violada dentro de lares, ruas e ambientes de trabalho. Não são estatísticas abstratas; são vidas interrompidas, famílias destruídas e comunidades feridas.

E quando ampliamos o olhar para o cenário internacional, o quadro pode tornar-se ainda mais sombrio.

Em várias regiões do mundo, meninas continuam sendo impedidas de frequentar escolas. Em alguns países, estudar ainda pode ser considerado um ato de rebeldia feminina. Nos últimos dias, por exemplo, surgiram relatos perturbadores de bombardeios e ataques a escolas destinadas à educação de meninas no contexto da guerra no Oriente Médio, lembrando ao mundo que, para certas ideologias e regimes, a educação feminina ainda é vista como ameaça.

Sim, ameaça.

A ideia de que uma menina possa aprender, ler, pensar, escolher sua profissão ou seu destino ainda provoca medo em determinados lugares do planeta.

Além disso, como costuma dizer uma grande amiga, a Rosângela: "A Mulher é um portal pelo qual todos vem ao mundo... é o Homem tem a chave deste portal. Cabe ao dono da chave zelar pelo portal!" Veja bem: zelar não significa possuir, ou mandar... Mas, extrapolando esta ideia, se destruiu o portal, nada mais passa por ele... Logo, dizimando as mulheres de uma localidade, acaba-se com aquele povo, simples - e cruel - assim!

Quando observamos esse tipo de realidade, percebemos que muitas das discussões travadas nas redes sociais do Ocidente são, em certa medida, luxos de sociedades que já avançaram bastante, ainda que imperfeitamente, no campo dos direitos civis.

Em outras partes do mundo, a batalha ainda é muito mais elementar.

Trata-se simplesmente do direito de existir com dignidade. Ou apenas, de existir!

Talvez por isso o 8 de março não devesse ser apenas uma data de celebração. Tampouco deveria ser monopolizado por discursos ideológicos estreitos. Ele deveria ser, antes de tudo, um momento de consciência histórica.

Um lembrete de que os direitos não caíram do céu.

Foram conquistados.

Foram defendidos.

Foram pagos, muitas vezes, com sofrimento real.

E, como toda conquista humana, também precisam ser preservados.

Desta feita, a melhor homenagem que se pode fazer às mulheres não está apenas nas palavras bonitas publicadas uma vez por ano; está na construção cotidiana de uma sociedade em que respeito, segurança e oportunidades não dependam do sexo de alguém.

Uma sociedade em que meninas possam estudar sem medo.

Em que mulheres possam trabalhar sem violência.

Em que mães, filhas, irmãs e amigas possam simplesmente viver com dignidade.

Se um dia chegarmos plenamente a esse ponto, talvez o 8 de março se torne apenas uma data histórica, lembrada nos livros.

Até lá, meus caros, ele continua sendo necessário.

E talvez mais necessário do que gostaríamos de admitir.

Abraços fraternos.