quarta-feira, 8 de julho de 2026

Limão no Rosto, Idiocracia e Inteligência Artificial

 


Por Diego de Almeida

... quando a ignorância aprende a parecer inteligente

Em 1995, um homem chamado McArthur Wheeler assaltou dois bancos em Pittsburgh sem máscara, sem disfarce e sem nenhum cuidado elementar para ocultar o rosto. A razão era quase inacreditável: ele havia passado suco de limão na face, acreditando que isso o tornaria invisível às câmeras de segurança. Sua lógica, se é que se pode chamar assim, vinha de uma analogia infantil com a tinta invisível feita com limão. Se o limão podia esconder palavras no papel, talvez pudesse esconder também seu rosto diante das câmeras. O episódio entrou para a literatura psicológica como uma espécie de parábola moderna da incompetência confiante, abrindo o clássico artigo de Justin Kruger e David Dunning sobre pessoas “inábeis e inconscientes disso”.

O caso não é apenas engraçado. Aliás, se tratado apenas como anedota, perde sua força. Wheeler não errou apenas porque teve uma ideia absurda. Ele errou porque não possuía os instrumentos mínimos para perceber que sua ideia era absurda. Esse é o núcleo do chamado efeito Dunning-Kruger: em certos domínios, a incompetência não apenas prejudica o desempenho; ela também prejudica a capacidade de avaliar o próprio desempenho. O sujeito não sabe, mas, pior ainda, não sabe que não sabe.

Há, naturalmente, exageros na vulgarização desse conceito. O efeito Dunning-Kruger virou meme, xingamento e carimbo de superioridade moral. Isso é ruim. A própria literatura posterior trouxe críticas metodológicas relevantes, apontando que parte do fenômeno pode ser explicada por artefatos estatísticos, regressão à média e vieses gerais de autoavaliação. Ainda assim, mesmo com essas ressalvas, a intuição central permanece poderosa: existe uma forma de ignorância que se protege de si mesma. Ela não se reconhece como ignorância. Ela se percebe como certeza.

Essa imagem - um homem com limão no rosto, caminhando confiante para dentro de um banco - talvez seja uma das metáforas mais precisas do nosso tempo.

Pouco mais de uma década depois, em 2006, Mike Judge lançou “Idiocracy”, uma comédia distópica sobre um homem mediano que desperta no futuro e descobre que, por comparação, tornou-se o indivíduo mais inteligente do mundo. O filme estreou em Los Angeles em 1º de setembro de 2006 e foi apresentado como uma sátira de ficção científica e humor negro. Sua premissa mais superficial é conhecida: a humanidade teria “emburrecido”. Mas a leitura mais interessante do filme não está em sua hipótese biológica, que é simplista e perigosa. A força de “Idiocracy” está em outra coisa: a percepção de que uma sociedade pode organizar seus incentivos de tal maneira que a estupidez passe a ser recompensada, televisionada, consumida, eleita e institucionalizada.

Esse é o ponto de encontro entre McArthur Wheeler e “Idiocracy”.

Wheeler representa a idiocracia individual: a ignorância confiante de um homem que acredita ter enganado o mundo com limão no rosto. O filme de Mike Judge representa a idiocracia coletiva: uma civilização inteira que perdeu seus mecanismos de correção do erro. Em Wheeler, há uma falha de julgamento. Em “Idiocracy”, há uma falência cultural.

A diferença é importante. Toda sociedade sempre teve ignorantes, fanáticos, charlatães, palpiteiros e vaidosos. Isso não é novidade. A novidade contemporânea é que os filtros que antes constrangiam a ignorância, como escola, imprensa, comunidade científica, autoridade técnica, reputação profissional, vergonha pública, hierarquia do conhecimento, estão sendo corroídos por uma economia da atenção que premia o ruído, a velocidade, a indignação e a simplificação. O problema não é simplesmente haver ignorância. O problema é a ignorância ter adquirido palco, microfone, estética, monetização e, agora, automação.

É aqui que entra a inteligência artificial.

Quando “Idiocracy” foi lançado, a internet já existia, redes sociais cresciam, mas ainda não havia a disseminação massiva de ferramentas de inteligência artificial generativa. Hoje, qualquer pessoa pode produzir um texto com aparência técnica, uma imagem com aparência documental, uma opinião com verniz acadêmico, uma petição com tom jurídico, uma análise política com estilo de especialista ou uma explicação médica com linguagem aparentemente sofisticada. A forma ficou barata. A aparência de competência foi democratizada. O problema é que a competência real não acompanha automaticamente essa aparência.

A IA não cria a idiocracia. Isso seria uma crítica preguiçosa. A IA é ferramenta, e uma ferramenta poderosa. Pode ajudar a estudar, revisar, comparar argumentos, traduzir, resumir, organizar ideias, identificar contradições e ampliar o acesso ao conhecimento. Usada com método, ela pode ser um instrumento formidável de educação. Mas usada como oráculo, muleta ou fábrica de certezas, ela intensifica o pior da cultura contemporânea: a substituição do pensamento pela resposta pronta.

A adoção dessa tecnologia ocorre em velocidade extraordinária. O relatório AI Index 2026, de Stanford, aponta que a IA generativa alcançou 53% de adoção populacional em apenas três anos, mais rapidamente que o computador pessoal ou a internet. Isso significa que não estamos diante de uma curiosidade tecnológica. Estamos diante de uma nova infraestrutura cognitiva. Uma camada intermediária entre o sujeito e o mundo, entre a pergunta e a resposta, entre a dúvida e a conclusão.

O risco é simples e grave: se o usuário não tem repertório para avaliar a resposta, a IA pode transformar erro em texto elegante. Pode transformar palpite em parecer. Pode transformar ressentimento em tese. Pode transformar ignorância em conteúdo publicável.

McArthur Wheeler, no século XX, passou limão no rosto e acreditou estar invisível. O McArthur Wheeler do século XXI talvez peça a uma IA: “explique cientificamente por que o suco de limão pode impedir câmeras de me identificarem”. Se receber uma resposta ruim, mas bem escrita, talvez se sinta ainda mais seguro. A tragédia contemporânea não é apenas a existência do erro. É o erro ganhar fluência, estrutura, retórica e design.

Na educação, o problema já aparece de modo concreto. Um estudo publicado na PNAS sobre uso de IA generativa em matemática mostrou que estudantes com acesso ao GPT-4 melhoraram o desempenho enquanto usavam a ferramenta, mas tiveram pior desempenho quando o acesso foi retirado; o efeito negativo foi mitigado quando a IA foi desenhada com salvaguardas pedagógicas, oferecendo pistas em vez de simplesmente entregar respostas. A conclusão é incômoda: a IA pode melhorar a performance imediata e, ao mesmo tempo, prejudicar a aprendizagem duradoura quando substitui o esforço cognitivo necessário.

Isso deveria nos preocupar mais do que a velha discussão moralista sobre “cola”. A questão central não é se o aluno trapaceia. A questão é se ele ainda aprende a pensar. Se a resposta vem antes da elaboração, se o resumo vem antes da leitura, se a conclusão vem antes da dúvida, se o texto vem antes da experiência intelectual, formamos indivíduos capazes de entregar produtos, mas incapazes de sustentar pensamento.

Essa deterioração não ocorre no vazio. A OCDE registrou, no PISA 2022, uma queda recorde no desempenho médio em matemática entre países da organização entre 2018 e 2022, além de queda significativa em leitura. Esses dados não autorizam a afirmação grosseira de que “as pessoas ficaram burras”. Isso seria simplista. Mas eles reforçam um ponto mais sério: há sinais consistentes de fragilização das competências básicas de leitura, raciocínio e interpretação. E uma população com baixa leitura, baixa paciência argumentativa e baixa capacidade de abstração é terreno fértil para manipulação política, charlatanismo digital e radicalização emocional.

A vida pública sofre diretamente com isso.

A política democrática depende de um mínimo de cidadania cognitiva. Não exige que todos sejam filósofos, cientistas ou juristas. Mas exige que um número suficiente de pessoas consiga distinguir argumento de slogan, evidência de boato, discordância de traição, crítica de perseguição, prudência de covardia, ciência de propaganda e autoridade técnica de celebridade barulhenta. Quando essa distinção se perde, a política deixa de ser deliberação e vira espetáculo tribal.

A desinformação não é apenas um conjunto de mentiras circulando na internet. Ela é uma tecnologia de desorganização social. A OCDE aponta que campanhas de desinformação podem prejudicar políticas públicas, aprofundar divisões sociais e minar a confiança em instituições democráticas. A UNESCO e o PNUD também alertaram para o impacto da inteligência artificial, de sistemas de recomendação e de deepfakes sobre liberdade de expressão e eleições, especialmente pela transformação do ecossistema informacional.

Aqui aparece a nova idiocracia: não uma população necessariamente incapaz de acessar informação, mas incapaz de hierarquizá-la. Todos sabem algo, todos viram um vídeo, todos receberam um print, todos têm uma opinião, todos “pesquisaram”. Mas pesquisar virou muitas vezes apenas encontrar um conteúdo que confirme a própria irritação. A autoridade deslocou-se do estudo para a convicção. O especialista passou a ser suspeito; o influenciador passou a ser íntimo. O professor virou “doutrinador”; o charlatão virou “corajoso”. A dúvida virou fraqueza. A certeza performática virou virtude.

É uma inversão perigosa. A tradição intelectual, em seu melhor sentido, nunca foi arrogância de gabinete. Intelectualidade não é falar difícil, colecionar diplomas ou citar autores para humilhar os outros. Intelectualidade é disciplina diante da complexidade. É suportar a demora do pensamento. É aceitar que nem todo problema tem resposta simples. É desconfiar da própria primeira impressão. É submeter ideias a crítica. É saber que a realidade não se curva ao desejo, à ideologia ou ao engajamento.

O colapso da intelectualidade, portanto, não é a ausência de pessoas inteligentes. É a perda do respeito social pelos hábitos que tornam a inteligência útil: leitura, memória, comparação, escuta, método, silêncio, dúvida, revisão, humildade epistêmica e responsabilidade com a palavra.

A inteligência artificial pode agravar esse colapso justamente porque oferece um atalho sedutor. Ela dá a sensação de que o pensamento ocorreu, quando muitas vezes apenas a formulação foi terceirizada. O sujeito não atravessou o caminho; recebeu o mapa. Não compreendeu o problema; recebeu uma resposta plausível. Não amadureceu uma posição; encomendou uma justificativa.

Mas o oposto também é verdadeiro. A IA pode ser usada contra a idiocracia. Pode funcionar como uma navalha: cortar excessos, testar argumentos, expor incoerências, pedir fontes, simular objeções, traduzir complexidade, revelar premissas ocultas e obrigar o usuário a pensar melhor. A diferença não está apenas na ferramenta. Está na postura de quem a usa.

A pergunta decisiva não é: “a IA vai nos deixar burros?” Essa pergunta é pobre. A pergunta correta é: vamos usar a IA para substituir o pensamento ou para discipliná-lo?

Se for para substituir, estaremos apenas passando limão no rosto da civilização. Acharemos que estamos invisíveis ao erro porque nossas frases ficaram mais bonitas. Acharemos que sabemos porque o texto parece saber. Acharemos que pensamos porque uma máquina organizou nossa preguiça em parágrafos convincentes.

Se for para disciplinar, talvez a IA possa servir como antídoto parcial: não como mestre absoluto, mas como interlocutor; não como oráculo, mas como ferramenta crítica; não como substituto da inteligência, mas como espelho de nossas perguntas.

McArthur Wheeler acreditava que o limão o protegeria das câmeras. “Idiocracy” imaginou uma sociedade que já não sabia distinguir entretenimento de governo, publicidade de alimento, celebridade de competência. Nós estamos diante de algo mais sutil: uma época em que a ignorância não precisa mais parecer ignorante. Ela pode escrever bem, argumentar com aparência lógica, gerar imagens, fabricar vídeos, simular autoridade e vestir-se com a estética do conhecimento.

O perigo não é a burrice nua. Essa sempre foi fácil de reconhecer. O perigo é a burrice bem diagramada.

E talvez seja essa a verdadeira distopia contemporânea: não um futuro em que ninguém saiba nada, mas um presente em que todos tenham respostas para tudo, sem ainda saber formular uma boa pergunta.

Referências utilizadas

Kruger, J.; Dunning, D. “Unskilled and unaware of it: how difficulties in recognizing one's own incompetence lead to inflated self-assessments”. Journal of Personality and Social Psychology, 1999.

American Film Institute. Ficha de Idiocracy (2006), de Mike Judge.

Stanford HAI. The 2026 AI Index Report.

Bastani, H. et al. “Generative AI without guardrails can harm learning”. PNAS, 2025.

OECD. PISA 2022 Results – Volume I.

OECD. Facts not Fakes: Tackling Disinformation, Strengthening Information Integrity.

UNESCO/UNDP. Artificial Intelligence, Freedom of Expression and Elections.

Gignac, G. E.; Zajenkowski, M. “The Dunning-Kruger effect is mostly a statistical artefact”. Intelligence, 2020.

segunda-feira, 6 de julho de 2026

Quando A Camisa Pesa Menos Que O Espelho

 


Por Diego de Almeida

Em primeiro lugar, quero dizer que eu não entendo nada de futebol; mas entendo de comportamento humano, entendo de gente... 

A eliminação do Brasil para a Noruega não foi apenas uma derrota esportiva. Foi mais um capítulo de uma decadência simbólica que já vinha sendo percebida por observadores dentro e fora do país: a Seleção Brasileira parece ter perdido não apenas jogos, mas também parte de sua alma coletiva.

Há algum tempo, publicações chinesas já apontavam para a corrosão do chamado “futebol samba”, ou “futebol arte”, substituído por uma versão europeizada, funcional, previsível e menos criativa do jogo brasileiro. A crítica não era simples nostalgia. O ponto era mais profundo: o Brasil ainda revela bons atletas, mas já não parece formar jogadores que carreguem, juntos, uma identidade reconhecível. A ginga virou exceção. A alegria virou marketing. A camisa amarela, antes símbolo de invenção e coragem, parece agora pesar menos do que a imagem individual de quem a veste. Sohu

A derrota por 2 a 1 para a Noruega, nas oitavas de final da Copa do Mundo, escancarou essa crise. A Reuters descreveu uma seleção envelhecida em peças importantes, lenta, previsível e sem clareza de jogo. O Guardian foi ainda mais direto ao levantar a pergunta incômoda: o Brasil ainda é uma equipe ou se tornou apenas uma marca? Reuters The Guardian

Essa pergunta dói porque parece verdadeira. A Seleção Brasileira, por muitos anos, foi a expressão máxima de uma coletividade artística. O talento individual existia, e como existia, mas servia a uma ideia maior. Pelé, Garrincha, Zico, Sócrates, Romário, Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho e tantos outros tinham brilho próprio, mas esse brilho se integrava a uma narrativa coletiva. O craque encantava porque jogava pelo jogo, pelo povo, pela camisa, pela história.

Hoje, muitas vezes, o que se vê é outra coisa: atletas mais preocupados em performar uma persona do que em construir uma equipe. O futebol virou palco de autopromoção permanente. Cada gesto parece pensado para o corte de vídeo, para a postagem, para a provocação viral, para o contrato publicitário, para a monetização da própria imagem. E, nesse ambiente, a camisa da Seleção deixa de ser destino e passa a ser vitrine.

A crítica não deve ser infantil. O futebol moderno é profissional, bilionário, midiático e comercial. Ninguém espera que atletas de elite vivam como monges românticos do esporte. O problema começa quando a publicidade engole o propósito; quando a aposta, o clique, o patrocínio e a vaidade pública parecem ocupar o espaço antes reservado ao compromisso, à disciplina e à entrega coletiva.

É nesse contexto que o comportamento de Neymar na eliminação ganhou tanta carga simbólica. Ao converter um pênalti já nos acréscimos, com o Brasil ainda derrotado e praticamente eliminado, ele se envolveu em provocação com o goleiro norueguês. O G.E. registrou a reação negativa nas redes, com muitos torcedores considerando a atitude inadequada para o momento. ge

A cena foi pequena no placar, mas enorme no significado. O Brasil estava caindo. A seleção fazia sua pior campanha em Copas desde 1990. O país assistia a mais um fracasso coletivo. E, naquele instante, a imagem que ficou foi a de uma provocação individual, uma afirmação de ego, uma espécie de “eu ainda estou aqui”, mesmo quando o time já não estava.

Neymar, evidentemente, não é o único culpado. Seria simplista e injusto reduzir a eliminação a ele. Houve erros de convocação, escolhas táticas discutíveis, falta de intensidade, envelhecimento de peças importantes, deficiência criativa no meio-campo e uma incapacidade coletiva de responder à pressão. Mas Neymar se tornou o símbolo maior dessa geração porque concentrou, em sua trajetória, a contradição central do futebol brasileiro recente: talento imenso, números expressivos, fama global, mas uma incapacidade persistente de transformar brilho individual em conquista coletiva.

Depois do jogo, ele indicou sua despedida da Seleção, dizendo que tentou e que “agora acabou”. Sai com 80 gols e 58 assistências em 130 partidas, números gigantescos, mas sem Copa do Mundo. A imprensa chinesa chegou a tratá-lo como o “último dançarino do samba”, sugerindo que sua saída fecha simbolicamente uma era do futebol brasileiro. Reuters Guangming/The Paper

Mas talvez essa leitura seja generosa demais. Neymar pode ter sido o último grande representante técnico de uma certa estética brasileira, mas também foi o rosto de uma transição problemática: do craque-artista para o craque-marca; do camisa 10 como maestro para o influenciador em chuteiras; do futebol como expressão cultural para o futebol como produto de engajamento.

A brasilidade do nosso futebol nunca foi apenas drible. Era irreverência com responsabilidade, improviso com coragem, beleza com fome de vitória. Era jogar bonito não para humilhar o adversário ou alimentar o próprio ego, mas porque o Brasil compreendia o jogo de uma forma própria, quase musical. A arte estava na inteligência coletiva, na troca de passes, na movimentação, na alegria compartilhada.

Quando essa arte vira apenas pose, ela morre. Quando a vaidade ocupa o lugar da entrega, ela apodrece. Quando o jogador se preocupa mais com a própria narrativa do que com o destino do time, a coletividade desaparece. E quando a coletividade desaparece, o Brasil deixa de ser Brasil, mesmo vestindo amarelo.

A reconstrução da Seleção não será feita apenas trocando treinador, renovando elenco ou convocando jovens promessas. Isso é necessário, mas insuficiente. O Brasil precisa recuperar uma ética de camisa. Precisa voltar a entender que jogar pela Seleção não é uma extensão da carreira individual, nem uma plataforma de conteúdo, nem uma campanha publicitária em escala mundial. É representação nacional. É responsabilidade histórica. É pertencimento.

O futebol brasileiro não precisa escolher entre arte e organização. Essa é uma falsa oposição. O que ele precisa abandonar é a vaidade sem grandeza, o individualismo sem consequência, a pose sem entrega. A verdadeira arte nunca foi inimiga da coletividade. Ao contrário: no melhor futebol brasileiro, o indivíduo brilhava porque o conjunto respirava junto.

A derrota para a Noruega não enterrou apenas uma campanha. Ela expôs uma pergunta que o Brasil já não pode evitar: queremos voltar a ser uma seleção ou continuaremos satisfeitos em ser uma vitrine de estrelas isoladas?

Porque camisa não se honra com dancinha, provocação, publi ou frase de efeito. Camisa se honra com jogo, entrega, lucidez e compromisso. O resto é vaidade. E vaidade, em Copa do Mundo, não levanta taça.

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Nem Todo Lugar Onde Cabemos Nos Serve

 


Por Diego de Almeida

Há imagens que parecem simples, quase ingênuas, mas que têm a capacidade de tocar em regiões sensíveis da convivência humana. Uma tangerina colocada dentro de um alho, acompanhada da frase “não é porque você se encaixa que o lugar serve para você”, pode parecer apenas mais uma dessas mensagens de redes sociais feitas para consumo rápido. Mas, quando transportada para um grupo formado por pessoas ligadas por ideais filosóficos, iniciáticos e fraternais, ela deixa de ser uma frase decorativa e se transforma em provocação.

E talvez tenha sido exatamente isso que aconteceu.

A primeira leitura possível é imediata: nem todo lugar onde conseguimos entrar é um lugar onde conseguimos florescer. Às vezes cabemos formalmente. Temos lugar na mesa, assento na reunião, nome na lista, voz no grupo, avental no templo, título, cargo, função e reconhecimento. Mas, ainda assim, algo essencial pode não estar em harmonia. O espaço nos comporta, mas não nos alimenta. Aceita nossa presença, mas não favorece nosso crescimento. Permite que fiquemos, mas exige que, para permanecer, abandonemos demais de nós mesmos.

Essa leitura, entretanto, exige cuidado. Existe uma diferença enorme entre reconhecer incompatibilidades profundas e rejeitar qualquer ambiente onde existam diferenças. A segunda atitude é pobre, imatura e incompatível com qualquer proposta séria de aperfeiçoamento humano.

A convivência com o diferente é uma das grandes escolas da vida. Mais ainda, é uma das grandes escolas da Maçonaria. Não se entra em uma Ordem iniciática para encontrar apenas pessoas que pensam igual, sentem igual, votam igual, interpretam igual e vivem igual. Isso seria confortável, mas seria também inútil. O contraditório incomoda porque nos obriga a testar nossas certezas. A diferença nos tira da preguiça intelectual. O outro, quando tratado com respeito, funciona como espelho, limite e ferramenta de lapidação.

Portanto, o problema não está na diferença.

O problema está em confundir diferença com deformação; diversidade com incoerência; tolerância com submissão; fraternidade com silêncio diante daquilo que fere valores essenciais.

A igualdade maçônica também não deve ser confundida com uniformidade. Somos iguais em dignidade, direitos e deveres. Mas não somos iguais em história, maturidade, cultura, temperamento, capacidade de escuta, compromisso, profundidade filosófica ou disposição para o serviço. Dizer isso não é elitismo. É apenas reconhecer a realidade.

A frase “somos todos iguais” é bela, mas pode se tornar vazia quando usada para impedir reflexões necessárias. Somos iguais perante o ideal, mas ainda estamos muito distantes de realizá-lo plenamente. Se já fôssemos todos iguais em virtude, não precisaríamos de iniciação, instrução, vigilância, silêncio, símbolo, ritual ou trabalho interior. A própria existência da Loja pressupõe que somos pedras ainda imperfeitas.

O verdadeiro desafio não é fingir que não existem arestas. O desafio é trabalhá-las sem destruir a pedra.

Por outro lado, há também um risco oposto: transformar qualquer desconforto em justificativa para partir. Nem todo incômodo é sinal de que o lugar não serve. Às vezes, o incômodo é justamente o instrumento da lapidação. Há ambientes que nos contrariam porque nos desafiam a crescer. Há pessoas difíceis que revelam nossa impaciência. Há divergências que expõem nossa vaidade. Há críticas que, mesmo mal formuladas, contêm algum fragmento de verdade.

Sair de todo lugar onde somos contrariados não é sabedoria. Pode ser apenas fuga com verniz filosófico.

Mas permanecer em todo lugar, a qualquer custo, também não é virtude. Pode ser medo, acomodação ou dependência emocional disfarçada de tolerância.

A sabedoria está no discernimento.

Há situações em que a pessoa se encaixa, mas para isso precisa se diminuir. Há ambientes onde ela é aceita, desde que não cresça demais, não questione demais, não pense demais, não sirva de modo diferente, não traga novas ideias, não revele desconfortos, não desorganize vaidades antigas. Nesses casos, o encaixe pode se tornar prisão. O pertencimento passa a cobrar um preço alto demais: a renúncia à própria coerência.

Também existem ambientes onde o discurso é fraterno, mas a prática é áspera; onde se fala em igualdade, mas se cultuam hierarquias de vaidade; onde se exalta o serviço, mas se disputa aparência; onde o símbolo é reverenciado, mas sua lição é esquecida; onde o rito é executado com precisão, mas o Irmão ao lado é tratado sem delicadeza.

Aqui cabe uma advertência incômoda: uma instituição iniciática pode conservar seus ritos e, ainda assim, perder seu eixo. Pode preservar paramentos, cargos, fórmulas, joias, atas, protocolos e solenidades, mas esquecer que tudo isso deveria servir a algo maior. O rito sem transformação vira teatro. A hierarquia sem serviço vira vaidade. A tradição sem reflexão vira repetição. A fraternidade sem cuidado vira palavra bonita.

Isso não significa desprezar o ritual, a forma ou a disciplina. Seria um erro grosseiro. A forma educa. O símbolo organiza. O rito conduz. A tradição preserva uma linguagem que não nasceu ontem e não pertence ao capricho de cada geração. Mas tudo isso deve apontar para o aperfeiçoamento humano e para o serviço à humanidade. Quando a forma deixa de ser caminho e passa a ser fim em si mesma, ela endurece. E tudo o que endurece demais deixa de servir à vida.

A imagem da tangerina dentro do alho é poderosa porque mostra algo aparentemente encaixado, mas essencialmente deslocado. A tangerina cabe ali, mas não pertence àquela natureza. Sua cor, sua textura, seu aroma e sua função são outros. Ela não é melhor do que o alho. O alho não é inferior à tangerina. Apenas não são a mesma coisa. O problema não está em um ou outro. Está em forçar uma integração artificial, sustentada apenas pela aparência do encaixe.

Essa talvez seja uma das grandes questões da vida adulta: saber distinguir adaptação de anulação.

Adaptar-se é necessário. Quem não se adapta não convive. Anular-se, porém, é adoecer lentamente em nome da aceitação. Adaptar-se é ceder em aspectos secundários para preservar uma convivência maior. Anular-se é sacrificar valores essenciais para não perder lugar. Adaptar-se é virtude social. Anular-se é violência contra si mesmo.

Na vida maçônica, essa distinção é ainda mais importante. A Ordem não deve ser um espaço de unanimidade artificial, mas também não pode ser um território onde qualquer postura se justifique sob o pretexto da diferença. Nem toda opinião merece o mesmo peso moral. Nem toda conduta deve ser acolhida como mera diversidade. Há diferenças que enriquecem. Há comportamentos que corroem.

O diferente nos faz crescer quando vem acompanhado de respeito, escuta e compromisso com algo maior do que o ego individual. Mas o diferente também pode ferir quando se manifesta como arrogância, agressividade, desprezo, oportunismo ou vaidade travestida de opinião.

Por isso, a pergunta não deve ser apenas: “eu caibo aqui?”

Essa pergunta é pequena.

A pergunta mais honesta talvez seja: “este lugar me ajuda a ser melhor?” E, mais ainda: “a minha presença aqui ajuda este lugar a cumprir melhor o seu propósito?”

Porque permanecer apenas por hábito, medo ou aparência não é fidelidade. É inércia. E partir apenas por orgulho ferido também não é sabedoria. É vaidade!

Entre a permanência covarde e a ruptura precipitada existe um caminho mais difícil: o discernimento sereno. Ele exige recolhimento, autocrítica e coragem. Exige perguntar se o incômodo vem do ambiente ou do nosso próprio orgulho. Exige reconhecer quando estamos sendo lapidados e quando estamos sendo diminuídos. Exige separar conflito fértil de desgaste inútil.

A Maçonaria, quando vivida com seriedade, não promete conforto. Promete trabalho. Não oferece um grupo de iguais no sentido banal da palavra, mas uma oficina de aperfeiçoamento entre pessoas diferentes, reunidas por um ideal comum. O problema começa quando o ideal comum é substituído por preferências pessoais, disputas de vaidade, formalismos estéreis ou ressentimentos mal resolvidos.

Nesses momentos, a fraternidade deixa de ser uma palavra de ordem e passa a ser uma prova. É fácil chamar alguém de Irmão quando concorda conosco. Difícil é tratá-lo como Irmão quando diverge, quando nos contraria, quando nos obriga a pensar melhor. Mais difícil ainda é reconhecer que, em alguns casos, o vínculo fraterno não exige permanência cega, mas respeito maduro pela distância necessária.

Saber ficar é virtude.

Saber partir também pode ser.

Mas saber por que se fica ou por que se parte é sabedoria.

Talvez a imagem compartilhada tenha incomodado justamente por isso. Ela nos lembra que pertencimento verdadeiro não é simples encaixe. É coerência entre presença, propósito e crescimento. É estar onde se pode servir sem se deformar. É conviver com diferenças sem abandonar valores. É aceitar a lapidação sem permitir a destruição da própria essência.

No fim, a pergunta permanece aberta, como toda boa reflexão deve permanecer:

Estamos apenas cabendo nos lugares que ocupamos, ou estamos realmente servindo, crescendo e ajudando outros a crescerem?

A resposta não cabe em uma imagem de rede social. Mas talvez uma imagem de rede social, quando bem recebida, possa abrir a porta para uma reflexão que há muito tempo precisava ser feita.

quarta-feira, 17 de junho de 2026

ENTRE GALHOS CAÍDOS E TEMPESTADES ANUNCIADAS

 


Por Diego de Almeida

Há uma doença social que se alastra com mais rapidez do que qualquer frente fria, enxurrada ou vendaval: a incapacidade de discutir problemas reais sem transformá-los em espetáculo, deboche ou guerra política.

Nos últimos dias, dois assuntos aparentemente distintos expuseram a mesma ferida. De um lado, prefeitos brasileiros se organizam para discutir estratégias de prevenção diante da possibilidade de um El Niño forte em 2026/2027, com risco aumentado de eventos climáticos extremos. De outro, em Curitiba, uma jovem foi gravemente atingida pela queda de um galho de árvore na Praça Osório, num acidente de consequências devastadoras.

Em ambos os casos, como era previsível, as redes sociais não decepcionaram em sua vocação para decepcionar.

Vieram os comentários agressivos. As ironias baratas. As acusações automáticas. Os diagnósticos de sofá. As sentenças proferidas por gente que não leu um laudo, não conhece um protocolo técnico, não entende arborização urbana, não sabe o que é Defesa Civil, não distingue prevenção de alarmismo e, ainda assim, se sente autorizada a julgar tudo e todos com a segurança dos ignorantes.

O problema não é criticar o poder público. Criticar é necessário. Fiscalizar é indispensável. Cobrar transparência, laudos, planejamento, orçamento e responsabilidade é parte elementar da vida democrática. O problema é confundir crítica com linchamento, fiscalização com histeria e indignação com oportunismo.

Há uma diferença enorme entre perguntar “o que foi feito, quando foi feito, por quem foi feito e se foi suficiente?” e simplesmente gritar “culpa da prefeitura”, antes de qualquer apuração técnica.

Essa diferença parece pequena para quem vive de frases prontas. Mas é justamente nela que se separa a cidadania da barbárie digital.

A possível chegada de um El Niño forte exige preparação. Não porque o céu vá necessariamente desabar amanhã, nem porque toda previsão climática deva ser tratada como profecia. Mas porque gestão pública responsável trabalha com risco, probabilidade e impacto.

É assim na medicina, na engenharia, na aviação, na segurança pública e deveria ser assim também na administração das cidades.

Quando há possibilidade de chuvas intensas, alagamentos, deslizamentos, ventos fortes, enchentes ou colapso de infraestrutura, o dever do gestor público não é esperar a tragédia para depois posar de solidário. O dever é planejar antes.

Isso significa mapear áreas de risco, revisar planos de contingência, testar sistemas de alerta, preparar abrigos, limpar galerias pluviais, revisar pontes, encostas e vias críticas, integrar Defesa Civil, assistência social, saúde, educação, obras e comunicação pública.

Significa também conversar com outros municípios, com Estados e com a União. Desastres climáticos não respeitam divisas administrativas. A água não consulta o mapa político antes de invadir uma cidade. O vento não pergunta a legenda partidária do prefeito antes de derrubar uma árvore. A encosta não escolhe ideologia antes de deslizar.

Portanto, quando prefeitos se reúnem para discutir prevenção, a pergunta madura não é “quanto custa essa reunião?” ou “quem vai aparecer na foto?”. A pergunta correta é: “quais medidas concretas sairão dali?”.

Reunião vazia merece crítica. Prevenção séria merece apoio. O que não merece respeito é o comentário raso que ridiculariza qualquer tentativa de planejamento e depois, quando ocorre a tragédia, cobra exatamente aquilo que antes desprezou.

Noutra situação, temos uma fatalidade; A queda de um galho que atinge uma jovem em praça pública é um episódio brutal. Não há como tratar isso com frieza burocrática. Uma vida foi profundamente alterada em questão de segundos. Uma família foi violentamente lançada em sofrimento, angústia e incerteza.

Mas exatamente por ser um caso grave, ele exige seriedade. Seriedade não combina com conclusão apressada.

Árvores são organismos vivos. Podem estar aparentemente estáveis e, ainda assim, sofrer falha estrutural. Podem ser afetadas por fungos, cupins, apodrecimento interno, encharcamento do solo, ventos, podas anteriores inadequadas, sobrecarga de galhos ou alterações urbanas no entorno. Algumas situações são previsíveis. Outras, não. Algumas decorrem de negligência. Outras, de atroz acaso.

A única maneira honesta de diferenciar uma coisa da outra é por meio de apuração técnica.

A árvore havia sido vistoriada? Quando? Por quem? Com qual metodologia? Havia sinais externos de comprometimento? O galho que caiu apresentava doença, podridão ou fratura prévia? O protocolo municipal de inspeção é adequado? A periodicidade das vistorias é suficiente? Há inventário arbóreo atualizado? Há equipe técnica e orçamento compatíveis com a quantidade de árvores da cidade?

Essas são perguntas legítimas.

O que não é legítimo é transformar dor humana em palanque, antes mesmo de saber se houve falha, omissão ou imprevisibilidade. Não é nenhum pouco plausível, muito menos produtivo, comentários de tipo arranquem todas as árvores das praçaslugar de árvore é na floresta, entre outros, que vimos por aí...

Também não é legítimo fazer o movimento oposto: usar a palavra “fatalidade” como escudo automático para impedir investigação. Acidente imprevisível existe. Mas a imprevisibilidade precisa ser demonstrada, não apenas proclamada.

O poder público não deve ser culpado por tudo. Mas deve estar preparado para explicar tudo.

Existe uma fantasia infantil na forma como muitas pessoas enxergam a vida urbana. Querem praças arborizadas, ruas sombreadas, feiras ao ar livre, parques bonitos, calçadas vivas e cidades menos hostis. Mas, ao mesmo tempo, ignoram que tudo isso exige manutenção, técnica, orçamento, poda, supressão quando necessária, reposição arbórea, fiscalização e decisões muitas vezes impopulares.

Quando uma árvore é removida preventivamente, alguém acusa a prefeitura de destruir o verde. Quando uma árvore cai, alguém acusa a prefeitura de não ter removido antes. Quando há reunião preventiva sobre clima, alguém chama de alarmismo. Quando vem a enchente, alguém pergunta por que ninguém se preparou.

Essa esquizofrenia cívica é uma das marcas do nosso tempo.

Queremos segurança sem custo, prevenção sem obra, fiscalização sem incômodo, cidade arborizada sem manejo, drenagem eficiente sem intervenção urbana, Defesa Civil forte sem investimento e poder público infalível sem admitir que a vida concreta possui riscos residuais.

Não existe cidade sem risco. Existe cidade que conhece seus riscos, monitora seus riscos, reduz seus riscos e responde melhor quando eles se materializam.

Essa é a diferença entre gestão e improviso.

É preciso abandonar dois vícios igualmente ruins:

O primeiro é o vício da culpabilização automática. A cada acidente, antes de qualquer dado, já se aponta o dedo. A prefeitura é culpada. O prefeito é culpado. O secretário é culpado. O servidor é culpado. O engenheiro é culpado. A árvore cai e a sentença já está pronta. A árvore é culpada!

Esse comportamento não é justiça. É preguiça mental com verniz de indignação.

O segundo vício é a absolvição automática. Tudo vira “fatalidade”, “força da natureza”, “impossível prever”, “ninguém poderia fazer nada”. Esse discurso também é perigoso, porque pode esconder omissão, desorganização ou precariedade técnica.

O caminho correto é outro: apuração.

Apurar não é perseguir. Apurar é esclarecer. É verificar se protocolos foram cumpridos, se eram adequados, se havia sinais prévios, se houve resposta rápida, se a manutenção estava em dia, se o sistema precisa ser corrigido e se alguém deve ser responsabilizado.

Numa sociedade minimamente séria, a pergunta não é “como uso isso contra meu adversário político?”. A pergunta é: “o que este evento revela sobre a nossa capacidade de prevenir e responder?”.

As redes sociais deram voz a muita gente. Isso foi bom. Mas também deram megafone a uma multidão que confunde opinião com conhecimento e raiva com lucidez.

O hater não quer entender; Quer reagir. Não quer melhorar a cidade; Quer vencer uma disputa imaginária. Não quer proteger vidas; Quer humilhar alguém. Não quer apuração; Quer culpados convenientes.

Se o prefeito se antecipa, é oportunista. Se não se antecipa, é omisso. Se poda árvore, destrói o meio ambiente. Se não poda, é irresponsável. Se convoca reunião, faz politicagem. Se não convoca, negligencia. Se comunica risco, espalha pânico. Se não comunica, esconde informação.

Esse tipo de comportamento não é fiscalização. É sabotagem do debate público.

E a consequência é grave: gestores passam a se preocupar mais com a reação digital do que com a decisão tecnicamente correta. Técnicos passam a ser desautorizados por clamor de rede. Políticas públicas viram reféns de frases de efeito. A prevenção perde espaço para a encenação.

Quando tudo vira disputa política, exacerbação de ego e ataque cego, nada é tratado com a seriedade que merece.

A resposta correta para o El Niño não é discurso. É plano.

Cada município deveria ter, de forma clara e pública, um plano de contingência atualizado para eventos climáticos extremos. Não um documento esquecido em gaveta, mas um protocolo operacional conhecido pelas equipes envolvidas.

É preciso mapear áreas de risco, atualizar cadastros de famílias vulneráveis, identificar escolas e ginásios que possam servir de abrigo, treinar equipes, revisar rotas de evacuação, garantir comunicação rápida com a população, limpar sistemas de drenagem e estabelecer canais diretos entre Defesa Civil, saúde, assistência social, segurança, obras e meio ambiente.

Também é necessário investir em comunicação pública simples. A população precisa saber o que fazer antes, durante e depois de uma emergência. Alerta que ninguém entende não salva ninguém. Sirene que ninguém reconhece não evacua ninguém. Aplicativo que ninguém usa não protege ninguém.

No caso da arborização urbana, as cidades precisam de inventário arbóreo georreferenciado, classificação de risco, vistorias periódicas, critérios técnicos de poda e remoção, registro público de intervenções e equipes capacitadas. Árvores não podem ser tratadas apenas como paisagem. Elas são infraestrutura viva.

Isso não significa sair cortando árvores de forma irresponsável. Pelo contrário. Significa cuidar melhor delas. Arborização urbana séria não é nem abandono romântico nem motosserra histérica. É manejo técnico.

A tragédia da Praça Osório não deve ser usada como munição política. Deve ser usada como alerta. O possível El Niño forte não deve ser usado como terror climático. Deve ser usado como chamado à preparação.

Entre a demagogia e a omissão existe um caminho mais difícil: o da responsabilidade.

Responsabilidade do poder público, que deve planejar, executar, prestar contas e corrigir falhas. Responsabilidade dos órgãos técnicos, que devem agir com rigor, transparência e independência. Responsabilidade da imprensa, que deve informar sem explorar a dor alheia. Responsabilidade da população, que deve cobrar sem linchar, fiscalizar sem inventar, indignar-se sem perder a razão. E responsabilidade de todos nós, que precisamos reaprender a distinguir acidente de negligência, prevenção de alarmismo, crítica de ódio e política pública de palanque.

Porque a cidade real não se governa com meme. Não se protege uma população com comentário raivoso. Não se evita desastre com lacração, nem com cinismo.

Prevenir catástrofes exige técnica, orçamento, coordenação e coragem administrativa.

Investigar acidentes exige serenidade, perícia e transparência.

E discutir tudo isso exige algo que anda escasso: maturidade.

A queda de um galho pode ser um acidente imprevisível. Uma enchente pode ser agravada por décadas de descaso. Um evento climático pode ser natural, mas seus efeitos são profundamente sociais. O que não podemos é continuar respondendo a temas complexos com a brutalidade simplória das redes.

A natureza não negocia com a nossa ignorância.

E a realidade, ao contrário dos haters, não está interessada em lacrar.

sexta-feira, 22 de maio de 2026

O Aprendizado em T e a Tentação de Saber Tudo

 



Por Diego de Almeida

O Aprendizado em T e a Tentação de Saber Tudo

Meus caros,

Há certas ideias que, quando bem apresentadas, parecem simples demais para serem profundas. Talvez seja justamente aí que more sua força. Assistindo a uma palestra de Salim Ismail, canadense conhecido por suas reflexões sobre inovação, organizações exponenciais e os impactos das tecnologias emergentes sobre o mundo contemporâneo, deparei-me novamente com uma dessas imagens conceituais que explicam muito com pouco: o chamado modelo de aprendizado em T.

A metáfora é quase infantil de tão visual. Imagine a letra T. A linha vertical representa a profundidade. A linha horizontal representa a amplitude. Em outras palavras, o indivíduo deve ter uma área na qual realmente se aprofunda, na qual estuda, pratica, erra, corrige, amadurece e se torna competente. Mas, ao mesmo tempo, precisa desenvolver uma visão ampla o suficiente para compreender outras áreas, dialogar com outros saberes e perceber conexões que, à primeira vista, não seriam evidentes.

Simples? Sim. Óbvio? Nem tanto.

Vivemos numa época curiosa. Nunca houve tanto acesso à informação. Nunca foi tão fácil assistir a uma aula, ler um artigo, acompanhar uma conferência internacional ou perguntar a uma inteligência artificial qualquer coisa que nos passe pela cabeça. Entrementes, talvez nunca tenha sido tão fácil confundir informação com conhecimento, opinião com domínio e repertório superficial com sabedoria.

Há quem saiba falar um pouco de tudo. Política, economia, filosofia, medicina, tecnologia, espiritualidade, educação dos filhos, investimentos, alimentação, vinhos, geopolítica e até reforma tributária. Fala-se de tudo com uma segurança invejável, geralmente inversamente proporcional à profundidade real do conhecimento. É a síndrome da linha horizontal sem haste vertical. Uma pessoa que se estende muito, mas não desce em lugar nenhum.

Por outro lado, há o especialista entrincheirado. Aquele que conhece muito de um campo específico, mas olha para todo o restante como se fosse ruído, distração ou ameaça. É o sujeito que se aprofunda tanto num poço que deixa de ver a paisagem ao redor. Sabe muito, mas conecta pouco. Domina uma técnica, mas não compreende o contexto. Resolve um problema pontual, mas não percebe a transformação do ambiente em que esse problema existe.

O modelo em T tenta escapar desses dois empobrecimentos. Ele não defende o generalista raso, nem o especialista cego. Propõe outra coisa: profundidade com abertura. Competência com curiosidade. Técnica com cultura. Domínio com diálogo.

E aqui está o ponto que me parece mais interessante: a linha horizontal só tem valor quando existe uma haste vertical que a sustente. Sem profundidade, a amplitude vira apenas passeio intelectual. Um tipo de turismo de ideias. A pessoa visita muitos temas, tira fotografias bonitas, compra lembrancinhas conceituais, mas não mora em nenhum deles. Não sabe construir, não sabe sustentar, não sabe responder quando a coisa aperta.

Há uma diferença enorme entre conversar sobre um assunto e responder por ele.

Na medicina, isso é evidente. Um médico pode e deve conhecer gestão, tecnologia, comunicação, ética, economia da saúde, inteligência artificial e políticas públicas. Seria ingenuidade imaginar que a boa prática médica, hoje, pudesse viver isolada numa ilha técnica. Mas nada disso substitui a formação sólida, o raciocínio clínico, a experiência acumulada, o estudo contínuo e a responsabilidade concreta diante do paciente. A amplitude melhora a prática. Não a substitui.

Na vida profissional, o mesmo acontece. Um engenheiro que entende de comunicação negocia melhor. Um advogado que compreende tecnologia interpreta melhor o mundo em transformação. Um professor que conhece psicologia, cultura digital e sociologia ensina com mais inteligência. Um empresário que entende de comportamento humano lidera melhor. Mas todos eles precisam ter uma base de competência real. Caso contrário, tornam-se apenas bons conversadores em reuniões longas.

E, convenhamos, o mundo já tem reuniões longas em quantidade suficiente.

O aprendizado em T também serve para a vida interior. Cada um de nós deveria ter uma haste vertical de valores. Algo que desça fundo. Princípios que não mudem a cada modismo, a cada palestra empolgante, a cada frase bonita compartilhada nas redes sociais. Sem essa profundidade moral, a amplitude vira dispersão. A pessoa conhece muitas ideias, mas não sabe quem é. Experimenta muitos discursos, mas não sustenta nenhuma convicção. Troca de opinião como quem troca de camisa, chamando instabilidade de evolução.

Evoluir não é oscilar ao sabor do vento. Evoluir é crescer mantendo algum eixo.

Talvez por isso a metáfora do T seja tão feliz. Ela nos lembra que é preciso expandir, mas também enraizar. Abrir os braços, mas manter a coluna. Conversar com o mundo, mas não perder o centro.

O mesmo se aplica à cidadania. Não basta ter opinião. Opinião, hoje, é produto barato. Todo mundo tem, oferece e, muitas vezes, impõe. O que falta é densidade. Falta estudo. Falta escuta. Falta a capacidade de compreender que problemas complexos raramente cabem em frases de efeito. A barra horizontal nos ajuda a enxergar a complexidade. A haste vertical nos impede de sermos engolidos por ela.

Salim Ismail costuma falar de um mundo em aceleração. Tecnologias que mudam mercados. Organizações que crescem em velocidade antes impensável. Profissões que desaparecem, outras que surgem, modelos que envelhecem antes mesmo de amadurecer. Nesse cenário, o aprendizado em T deixa de ser uma elegância intelectual e passa a ser uma necessidade prática. Quem não aprofunda, não entrega. Quem não amplia, fica obsoleto.

E aqui há uma lição incômoda: estudar não é acumular temas. Estudar é organizar a própria ignorância.

Saber o que se sabe. Saber o que não se sabe. Saber onde é preciso descer mais fundo. Saber quais pontes precisam ser construídas com outros campos. Isso exige humildade. E humildade, neste caso, não é modéstia performática. É método de sobrevivência intelectual.

O mundo contemporâneo premia, muitas vezes, a aparência de competência. Um bom vocabulário, meia dúzia de conceitos importados, algumas expressões em inglês e uma apresentação bem diagramada já fazem muita gente parecer mais preparada do que realmente é. Mas a realidade tem o desagradável hábito de cobrar profundidade. Na hora da crise, da decisão difícil, da responsabilidade concreta, a superfície não sustenta ninguém.

Por isso, talvez a pergunta que devamos fazer não seja apenas: “o que preciso aprender?”

A pergunta melhor é: “em que eu preciso me aprofundar de verdade, e que outras áreas preciso compreender para não me tornar estreito?”

Essa pergunta vale para o médico, para o empresário, para o professor, para o filósofo, para o gestor público, para o pai, para a mãe, para qualquer pessoa que deseje atravessar este tempo sem ser apenas arrastada por ele.

Aprender em T é aceitar que não podemos saber tudo, mas também não temos o direito de saber apenas uma coisa. É reconhecer que a especialidade nos dá consistência, enquanto a amplitude nos dá inteligência contextual. É, no fundo, uma forma de maturidade.

Porque há pessoas que crescem para os lados, mas não criam raízes. Outras criam raízes tão fundas que nunca mais veem o horizonte.

O desafio é ser árvore e ponte.

Ter raiz suficiente para não cair.

E abertura suficiente para alcançar o outro lado.

Abraços fraternos.

quarta-feira, 22 de abril de 2026

Osmar que vem pra bem! Adeus, padrinho.



Por: Diego de Almeida

Há textos que se escrevem com a razão. Outros, inevitavelmente, são ditados pela memória, e estes, quase sempre, vêm embebidos de saudade.

“Estimado”. Assim, com essa simplicidade carregada de afeto, meu padrinho me saudava a cada encontro: “Meu estimado!”. E não era apenas uma palavra escolhida ao acaso. Era, antes, um retrato fiel daquilo que ele próprio era: querido, respeitado, benquisto. Um homem que fazia jus, em vida, ao adjetivo que tão generosamente distribuía.

O Padrinho Osmar Vieira tinha dessas presenças que não se impõem, acolhem. Voz mansa, sorriso largo, gestos sempre afetuosos. Cardíaco de longa data, é verdade… mas ouso dizer que seu coração não sucumbiu à doença; talvez tenha apenas se rendido ao excesso de amor que carregava.

Partiu no dia de Tiradentes. Data cívica, de memória e de significado. E há, nisso, uma certa poesia silenciosa, como se até o calendário tivesse escolhido um dia digno para a despedida.

Jornalista por formação, diácono permanente por vocação. Quase trinta anos de ministério vividos com entrega genuína, dessas que não pedem reconhecimento, mas deixam marcas profundas. Estava sempre disponível: uma palavra de consolo, uma escuta paciente, uma presença discreta nas horas difíceis. Não importava o horário, não importava o cansaço.

Quando eu fui crismado (sacramento católico), ele me deu uma bíblia, que guardo com carinho até hoje... não leio tanto quanto deveria, mas está lá no meu quarto, sempre ao alcance da mão, se precisar. 

E quando eu entrei pra faculdade de medicina, em 1998, passávamos por um período complicado. então foi ele que deu o dinheiro pra eu comprar o meu primeiro livro médico: Atlas de Anatomia Humana de Yokochi! Foram 98,00 reais... uma fortuna, na época! Ele nunca fez menção de cobrar algo em troca...

Era sério quando necessário, mas, na maior parte do tempo, era um verdadeiro pândego. Brincava com tudo. Inclusive com o próprio nome. Dizia, com aquele sorriso maroto: “Erraram na concordância… o certo era O Mar, e não Osmar… embora haja Os mar que vêm pra bem…”. E vinha mesmo. Tanto que, até no hospital, já o conheciam como “o Osmar que vem pra bem”.

Havia nele uma leveza quase desconcertante diante da vida. Dizia que gostava de acordar cedo, não por disciplina rígida, mas para “ter mais tempo sem fazer nada depois”. E acordava mesmo. Quatro da madrugada já o encontravam de pé. Entre uma oração e outra (e não eram poucas), lá estava ele, fiel ao seu ritual: chimarrão em mãos, proseando com o Sr. Antônio, seu sogro, como quem cultiva o tempo em estado bruto.

Depois, vinha o cuidado com o corpo, ou algo próximo disso. Tinha o hábito (ou seria o exagero?) de consumir uma quantidade quase mítica de frutas pela manhã. Doze? Dezesseis? Confesso que a memória falha… mas a imagem permanece: um homem simples, cercado de cores, sabores e exageros que só faziam sentido dentro da lógica muito própria de sua alegria de viver.

Aliás, ele próprio dizia que comia apenas uma vez ao dia: “Começo de manhã e termino à noite”. E dizia isso com a naturalidade de quem encontrou, à sua maneira, um jeito leve de atravessar o cotidiano.

Quem o visse de relance — figura miúda, aparência comum — dificilmente perceberia a grandeza que ali habitava. Mas bastava sentar-se ao seu lado por alguns minutos… e estava feito: conquistava. Sem esforço, sem intenção. Apenas sendo.

Deixou uma esposa dedicada, três filhos bem formados, netos que certamente herdarão algo dessa luz tranquila. Deixou amigos — muitos. Talvez mais do que ele próprio pudesse contar.

Mas, sobretudo, deixou aquilo que não se inventa nem se substitui: um legado silencioso de presença, de serviço e de bondade cotidiana. Dessas virtudes que não fazem alarde, mas que sustentam o mundo sem que percebamos.

Mais de três décadas de dedicação à Igreja e à comunidade não se encerram com um adeus. Permanecem. Ecoam. Continuam a agir, de algum modo, naqueles que foram tocados por sua passagem.

E, sim: fará falta. Uma falta mansa, daquelas que não gritam, mas que se instalam devagar, nos pequenos detalhes: no cumprimento que não virá, na piada que não será contada, na cadeira que permanecerá vazia.

Ide em paz, meu estimado padrinho Osmar.

Se houve, de fato, um erro de concordância em seu nome… foi apenas na gramática. Porque, na vida, o senhor foi, com absoluta precisão, alguém que veio para o bem.





quarta-feira, 15 de abril de 2026

Vai dar tempo — até o dia em que não dá mais


 
Por Diego de Almeida

🚂 Vai dar tempo — até o dia em que não dá mais

Meus caros,

Há coisas na vida que não deveriam precisar de estatística para nos ensinar, mas, ainda assim, insistem em se repetir com uma regularidade quase didática.

No Paraná, mais de uma centena de acidentes ferroviários ocorrem por ano. Em Curitiba, algumas dezenas, todos os anos. 

E, na esmagadora maioria das vezes, o roteiro é o mesmo:

Um veículo diante da linha férrea. Um trem em aproximação. E uma decisão.

Não é o acaso que governa esse encontro. É algo bem mais humano e, por isso mesmo, mais perigoso.

A cena é sempre banal, até deixar de ser; O trem vem... Grande. Barulhento. Inevitável! Não se esconde. Não desvia. Não negocia...

O motorista olha. Calcula. Hesita por um segundo, ou nem isso. E então decide: “Vai dar tempo.”

Essa frase não é dita em voz alta. Mas está ali, inteira, sustentando a ação.

E, convenhamos, na maioria das vezes… dá mesmo.

O carro passa. A vida segue. E o cérebro registra aquilo como prova de que o cálculo foi correto.

Mas não foi. Foi apenas tolerado pela sorte. O erro que se repete porque funciona, até falhar!

Entrementes, é aqui que mora o engano mais sutil.

O problema não é o erro em si. É o sucesso repetido do erro.

Porque cada travessia bem-sucedida reforça a ilusão de controle. Cada “quase” invisível alimenta a confiança. E assim se constrói uma convicção silenciosa: “Eu sei o que estou fazendo.”

Até o dia em que o trem não está tão longe quanto parecia. Até o dia em que a margem desaparece. Até o dia em que o tempo deixa de ser suficiente...

E, nesse dia, não há habilidade que compense. Não há reflexo que resolva. Não há decisão que reverta.

Porque a decisão já foi tomada antes; muito antes! 

Há um ponto que ninguém vê: Existe, em toda linha férrea, um ponto invisível. Um ponto em que o trem já não consegue parar e o veículo já não consegue sair. A partir dali, tudo o que resta é consequência.

O mais desconcertante é que esse ponto não se anuncia. Não há placa. Não há aviso. Não há sinal. Ele simplesmente é ultrapassado, quase sempre sem que se perceba.

E, quando se percebe, já não importa mais...

Agora, retire o trem da cena e observe:

Esse mesmo mecanismo se repete, com uma fidelidade incômoda, em outras áreas da vida.

No trabalho, quando o prazo ainda parece distante.
Na relação, quando o incômodo ainda é pequeno.
Na rotina, quando o desgaste ainda é tolerável.

“Depois eu resolvo.” “Ainda dá tempo.” “Está sob controle.”

Palavras diferentes. A mesma lógica.

A vida não buzina! Aqui reside uma diferença cruel.

O trem ainda avisa; Ele apita. Vibra. Anuncia sua presença. Ele dá sinais claros de que está vindo, e vindo forte.

A vida, não...

Ela não buzina antes de cobrar. Ela não reduz a velocidade para facilitar o seu cálculo. Ela não se importa com a sua percepção de tempo. 

Ela apenas segue, e cobra.

Cobra sempre e caro, pelo atraso que não parece atraso...

No trabalho, o atraso não começa no dia do prazo. Ele começa no primeiro adiamento irrelevante. Na primeira tarefa “que pode esperar”. Na primeira vez em que você confunde folga com margem... E, quando você percebe, não está mais trabalhando, está tentando compensar.

Mas compensar não é resolver. É apenas correr atrás de algo que já se perdeu. É o famoso correr atrás do prejuízo!

Nos relacionamentos, o erro é ainda mais silencioso.

Não é o grande conflito que destrói, mas sim, são os pequenos silêncios acumulados; A conversa que não aconteceu. O incômodo que foi engolido. A distância que foi tolerada.

Até que, um dia, não há mais o que dizer. E, curiosamente, ninguém sabe exatamente quando começou. Mas começou cedo. Muito cedo!

Se há uma ilusão que nos acompanha com persistência, é esta: A de que sempre haverá um “depois” disponível para correção. Mas nem tudo na vida permite correção tardia. 

Algumas decisões são como cruzamentos ferroviários: Elas exigem precisão antes, não reação depois.

O que deveria nos inquietar, então?

Não é o acidente em si. É o fato de que ele é previsível. Não nos detalhes, mas na essência.

Ele não acontece porque alguém quis que acontecesse. Ele acontece porque alguém acreditou, com sinceridade, que daria tempo.

E essa é, talvez, a forma mais perigosa de erro: Aquela que parece razoável no momento em que é cometida. 

Em última análise, não é sobre o trem. Nunca foi. É sobre a confiança excessiva na própria capacidade de calcular o tempo, o risco e a margem.

É sobre ultrapassar, sem perceber, o ponto em que ainda seria possível parar.

E é, sobretudo, sobre reconhecer antes, aquilo que, depois, já não terá solução.

Meus caros, a vida não costuma anunciar seus pontos de não retorno. Ela apenas os atravessa conosco. E, quando percebemos, já estamos do outro lado.

“Não é o impacto que destrói; é a decisão tomada (ou não) quando ainda parecia que daria tempo.”