quarta-feira, 19 de agosto de 2026

O QUE JÁ FOI ESCONDIDO E HOJE JÁ NÃO É...

 


Por Diego de Almeida


A glamourização do “job”, a economia da atenção e aquilo que estamos ensinando aos nossos filhos

Tenho assistido, com frequência cada vez maior, a vídeos e entrevistas de homens e mulheres que se apresentam abertamente como profissionais do sexo, produtores de conteúdo adulto ou, para usar a expressão que se popularizou nas próprias redes, profissionais do “job”.

Não estou falando de uma investigação sobre os subterrâneos da prostituição, de documentários sobre vulnerabilidade social ou de reportagens tratando de exploração sexual. É quase o contrário.

São podcasts. Cortes de entrevistas. Reels. TikToks. Conversas descontraídas.

Falam de clientes, preferências, experiências, viagens, presentes, valores cobrados e, principalmente, dinheiro.

Muito dinheiro.

Alguns contam quanto faturam por mês. Outros mostram carros, apartamentos, viagens e uma vida de consumo confortável. Há histórias do tipo “larguei meu emprego e comecei a ganhar dez vezes mais”. Tudo contado sem constrangimento aparente e, não raramente, com indisfarçável orgulho.

Confesso: isso me incomoda.

E seria fácil reduzir meu incômodo a moralismo.

Seria igualmente fácil responder que cada adulto faz com o próprio corpo aquilo que deseja, desde que dentro da lei e mediante consentimento. E é verdade. Mas não é disso que estou falando.

Também seria fácil atribuir minha reação à inveja de quem ganha mais. Seria uma leitura preguiçosa. Mas meu desconforto é outro.

Passei muitos anos estudando para exercer uma profissão. Somando graduação e formação posterior, foram cerca de onze anos até chegar a determinado grau de qualificação profissional. Como médico, cada decisão que tomo envolve conhecimento, responsabilidade, risco, atualização permanente e consequências concretas sobre a vida de outras pessoas.

Ainda assim, não é difícil encontrar alguém relatando que, vendendo conteúdo sexual ou encontros, recebe em alguns dias aquilo que profissionais altamente qualificados levam semanas ou meses para ganhar.

A princípio, alguma coisa parece fora do lugar.

Mas talvez a pergunta correta não seja: “Por que uma prostituta pode ganhar mais do que um médico?”

A pergunta mais incômoda é outra: o que aconteceu com uma sociedade na qual exposição, intimidade e capacidade de chamar atenção podem ser economicamente mais valiosas do que anos de formação, conhecimento e responsabilidade?

É aí que a conversa começa a ficar interessante.

O fenômeno existe, não é apenas impressão

Antes de qualquer julgamento, convém olhar os números.

O OnlyFans não é exclusivamente uma plataforma de conteúdo sexual, embora seja mundialmente associado a esse mercado. Nas últimas contas disponíveis de sua controladora, referentes ao exercício encerrado em novembro de 2024, a plataforma possuía cerca de 4,6 milhões de contas de criadores e 377,5 milhões de contas de fãs. Os usuários movimentaram aproximadamente US$ 7,2 bilhões no período, dos quais cerca de US$ 5,8 bilhões foram destinados aos criadores.

Estamos falando de bilhões de dólares.

Portanto, não se trata mais de uma atividade escondida em alguma viela moral da sociedade. Há uma infraestrutura digital sofisticada capaz de transformar sexualidade, intimidade e interação pessoal em um mercado global de gigantesca escala.

Mais interessante ainda é observar como se chega ao consumidor.

Um estudo publicado em 2025, baseado em três anos de etnografia digital e entrevistas com criadores adultos, demonstrou que trabalhar no OnlyFans frequentemente exige construir uma marca pessoal em várias outras redes. Instagram, X, Telegram e outras plataformas funcionam como vitrines para produzir atenção e conduzir consumidores até onde ocorre a monetização. Os próprios autores descrevem uma aproximação entre trabalho sexual, produção de conteúdo e self-branding.

Isso muda bastante a interpretação daqueles vídeos que aparecem em nossas telas.

A profissional que concede uma entrevista dizendo quanto ganha pode estar contando sua história. Mas pode estar fazendo muito mais do que isso. Está construindo marca. Está produzindo curiosidade. Está atraindo seguidores. Está adquirindo clientes.

Em outras palavras, falar sobre quanto dinheiro se ganha vendendo sexo pode ser parte do próprio negócio de vender sexo.

A ostentação deixa de ser apenas consequência do sucesso. Torna-se publicidade.

A velha prostituição encontrou a economia da atenção

Nada disso começou com o OnlyFans, óbvio. Prostituição, pornografia, voyeurismo e comércio da sexualidade são muito anteriores à internet. 

A novidade é outra.

Pela primeira vez na história, praticamente qualquer pessoa dispõe no bolso de uma infraestrutura capaz de alcançar milhões de outras pessoas, sem televisão, editora, gravadora, jornal, agência de modelos ou produtor.

A matéria-prima desse sistema é a atenção.

E atenção é um recurso estranho...

Podemos produzir conteúdo praticamente sem limite, mas ninguém consegue fabricar uma vigésima quinta hora para assistir a ele.

Por isso, bilhões de pessoas e empresas competem pelos mesmos olhos.

Nesse ambiente, aquilo que provoca reação leva vantagem.

Sexo provoca reação.

Beleza provoca reação.

Ostentação provoca reação.

Escândalo provoca reação.

Indignação também provoca reação!!!

E esse último ponto é particularmente irônico.

Às vezes vejo determinado vídeo justamente porque fiquei indignado com ele. Geralmente nem assisto até o fim... talvez leia os comentários, eventualmente vejo outro sobre o mesmo assunto. Os algoritmos nos encharcam de conteúdo similar após o primeiro clique... O algoritmo não sabe se fiquei admirado ou revoltado. Ele sabe que parei.

O próprio TikTok informa que seus sistemas utilizam interações do usuário, inclusive tempo de visualização, curtidas e outras formas de comportamento, para personalizar recomendações.

Meu repúdio, portanto, pode produzir para o algoritmo um sinal semelhante ao interesse.

Vejo um. Aparecem mais três... Depois dez.

Logo parece que o mundo inteiro aderiu ao “job”.

Parte dessa percepção pode ser real. Outra parte é produzida pelo espelho deformador do meu próprio feed.

Isso também precisa ser reconhecido.

Contudo, neste momento, aparece uma verdade economicamente elementar e moralmente desconfortável: O mercado não remunera necessariamente aquilo que é mais difícil.

Não remunera necessariamente aquilo que exige mais estudo.

Não remunera necessariamente aquilo que possui maior utilidade social.

E não remunera necessariamente aquilo que consideramos moralmente mais digno.

O mercado remunera aquilo que consegue produzir demanda e capturar receita. São coisas completamente diferentes.

Um professor pode transformar a vida intelectual de centenas de crianças e receber pouco; Um pesquisador pode participar da descoberta de algo que beneficiará milhões e jamais enriquecer; Uma enfermeira pode passar uma madrugada inteira cuidando de um paciente gravíssimo; Um jogador pode receber em uma semana mais do que todos eles juntos receberão durante anos.

Nada disso significa que a sociedade tenha realizado algum cálculo filosófico e concluído que chutar uma bola vale mais do que ensinar uma criança.

Significa apenas que os mecanismos de geração e apropriação de receita são diferentes.

O economista Sherwin Rosen já descrevia, em 1981, aquilo que chamou de economia das superestrelas: determinados mercados permitem que um número relativamente pequeno de indivíduos concentre grande parcela da atividade e obtenha rendimentos extraordinariamente superiores aos demais. A possibilidade de atender grandes mercados ao mesmo tempo é uma das peças desse mecanismo.

A internet colocou esse fenômeno sob efeito de esteroides!

O médico vende uma hora. O vídeo pode ser vendido dez mil vezes.

Aqui está talvez a diferença econômica mais importante de todas:

Quando faço uma consulta, aquele período da minha vida foi utilizado. Não posso realizar simultaneamente cem consultas. Quando participo de uma cirurgia, preciso estar fisicamente ali.

Existe paciente. Existe tempo. Existe responsabilidade. Existe limite.

Agora imagine uma pessoa produzindo determinado conteúdo digital: O trabalho de gravá-lo ocorre uma vez.

Depois disso, cem pessoas podem pagar para assisti-lo. Mil. Dez mil. Cem mil ou muito mais.

O custo de entregar a centésima milésima cópia é praticamente insignificante.

É a diferença entre trabalho linear e produto escalável.

Isso não acontece apenas com conteúdo sexual.

Acontece com livros, músicas, softwares, cursos gravados, filmes, jogos e diversos outros produtos intelectuais.

O que torna o conteúdo adulto particularmente eficiente nesse ambiente é a combinação de escalabilidade com um dos mais antigos impulsos humanos: sexualidade.

Acrescente ainda curiosidade, exclusividade, intimidade aparente e interação direta com o criador.

Está formado um produto comercial extremamente poderoso.

E então compreendemos como alguém cobrando cinquenta reais pode ganhar muito mais do que alguém cobrando quinhentos.

O primeiro pode vender cinquenta reais dez mil vezes sem trabalhar dez mil vezes mais.

O segundo continua preso às vinte e quatro horas do dia...

Mas existe um truque estatístico importante; Há outro detalhe que as entrevistas raramente contam.

Não vemos uma amostra aleatória dos profissionais desse mercado. Vemos os casos interessantes.

A história da pessoa que abriu uma conta, expôs sua intimidade e ganhou pouco não rende um grande corte de podcast.

Já a mulher que afirma faturar cem mil reais por mês produz título. Produz clique. Produz comentário. Produz indignação. Produz novos assinantes.

A economia dos criadores é fortemente concentrada no topo. Em dados de pagamentos de campanhas analisados pela CreatorIQ em 2025, por exemplo, os 10% de criadores mais bem remunerados receberam 62% do volume total de pagamentos, enquanto apenas o 1% do topo recebeu 21%. Esses números não se referem especificamente ao OnlyFans, mas demonstram como a própria economia dos criadores é profundamente assimétrica.

Portanto, quando uma profissional do sexo diz ganhar uma fortuna, três coisas podem ser verdadeiras simultaneamente: Ela pode estar dizendo a verdade. Pode representar uma minoria excepcionalmente bem-sucedida. E sua história pode induzir milhões de pessoas a imaginar que aquele rendimento seja comum.

É o velho viés do sobrevivente adaptado à era do Instagram. Vemos quem venceu! Os invisíveis continuam invisíveis.

Até aqui poderíamos encerrar a questão dizendo: “É o mercado.”

Mas seria pouco.

Porque mercados não funcionam apenas como mecanismos econômicos.

Eles também produzem símbolos. E símbolos ensinam.

Uma sociedade educa seus jovens não somente por aquilo que pais e professores dizem. Ela educa por aquilo que recompensa, exibe, admira e transforma em modelo de sucesso.

É justamente aí que meu incômodo deixa de ser econômico e passa a ser cultural.

Não me preocupa que uma mulher adulta, consciente e livre decida vender conteúdo sexual.

Não considero que eu tenha qualquer autoridade para decidir o que outro adulto deve fazer com a própria vida.

O que me preocupa é outra coisa: o que acontece quando essa escolha deixa de aparecer apenas como uma possibilidade individual e começa a ser apresentada aos jovens como uma espécie de atalho glamouroso para dinheiro, autonomia e reconhecimento?

Essa hipótese já merece atenção científica.

Em 2025 foi publicado um estudo particularmente incômodo com 164 estudantes de 12 a 16 anos, em Guadalajara, na Espanha. Os pesquisadores investigaram a percepção dos adolescentes sobre a promoção do OnlyFans nas redes sociais.

O resultado exige cautela porque se trata de uma amostra específica, em determinada região, e não autoriza generalizações para todos os adolescentes nem para o Brasil.

Ainda assim, o sinal é inquietante.

Os participantes demonstravam conhecimento da plataforma e alguns relatavam acesso apesar de serem menores. Mais importante, os pesquisadores encontraram entre os adolescentes a percepção do OnlyFans como alternativa profissional atraente, especialmente para meninas que correspondessem aos padrões de beleza. O trabalho também identificou minimização de riscos e discursos associados a autonomia sexual e vantagens econômicas.

Aqui a discussão muda completamente. 

Porque já não estamos falando apenas sobre adultos escolhendo livremente uma atividade.

Estamos falando sobre formação de expectativas.

O problema não é o sexo. É a pedagogia do sucesso fácil.

Toda geração aprende observando quem parece vencer.

Durante décadas, crianças foram ensinadas, para o bem e para o mal, que determinadas rotas ofereciam reconhecimento e ascensão: estudar; aprender uma profissão; tornar-se competente; trabalhar; acumular experiência; construir patrimônio.

Naturalmente nunca foi tão simples.

Havia herdeiros, celebridades, jogadores, artistas, aventureiros e toda sorte de exceções. Mas a narrativa central permanecia relativamente intacta: prepare-se hoje para colher amanhã.

A economia da atenção introduziu outra narrativa: exponha-se hoje e talvez enriqueça amanhã.

O perigo não está em algum adolescente efetivamente tornar-se influenciador ou criador de conteúdo. Muitos produzirão trabalhos excelentes, educativos, artísticos ou empresariais.

O problema está na mensagem mais profunda de que visibilidade pode substituir competência. Que audiência pode substituir autoridade. Que popularidade pode substituir conhecimento. Que parecer bem-sucedido pode tornar-se mais importante do que construir alguma coisa.

E, no extremo sexual dessa economia, que o próprio corpo e a própria intimidade constituem um capital imediatamente monetizável.

É uma mudança cultural de grande magnitude.

Há algo especialmente desconcertante para quem pertence às chamadas profissões tradicionais.

A formação continua longa. A responsabilidade continua elevada. Mas a percepção de exclusividade diminuiu.

A Demografia Médica no Brasil 2025, produzida pela Faculdade de Medicina da USP em colaboração com o Ministério da Saúde e outras instituições, registrou centenas de milhares de profissionais no país, com expansão contínua da força de trabalho médica e importantes transformações na formação e distribuição de especialistas. O levantamento também discute renda e vínculos profissionais.

Isso significa que mesmo uma formação extremamente difícil não suspende as leis de oferta e demanda.

O médico pode estudar onze, doze anos, ou mais. Pode continuar estudando pelo resto da vida. Pode assumir responsabilidade civil, ética e criminal por seus atos.

Mas continua inserido em um mercado no qual hospitais, operadoras, cooperativas, Estado, clínicas e inúmeros intermediários participam da divisão da receita.

Sua qualificação produz valor.

Isso não significa que ele consiga capturar financeiramente todo esse valor.

Enquanto isso, um criador digital pode vender diretamente ao consumidor mundial.

A questão econômica, portanto, não é saber quem “merece” ganhar mais.

A pergunta correta é: quem possui melhor mecanismo para transformar aquilo que tem em receita?

E, nesse quesito, a economia digital é implacável.

Talvez seja aqui que minha preocupação se torne mais pessoal.

Tenho filhos.

Tenho netos.

E, quando observo essas transformações, não estou pensando apenas no presente.

Pergunto-me qual será a escala de valores oferecida à geração deles. 

Não gostaria que crescessem acreditando que uma profissão vale menos porque paga menos. 

Não gostaria que confundissem salário com mérito.

Não gostaria que imaginassem que alguém que possui milhões de seguidores necessariamente possui algo importante a dizer.

Não gostaria que concluíssem que a maneira mais racional de viver seja escolher sempre aquilo que oferece maior retorno financeiro imediato.

E, principalmente, não gostaria que aprendessem que tudo aquilo que pode ser monetizado deve necessariamente ser colocado à venda.

Porque esse talvez seja o ponto mais delicado de todos.

A tecnologia está progressivamente retirando as fronteiras entre vida e produto. A casa virou cenário. A família virou conteúdo. O relacionamento virou conteúdo. A gravidez virou conteúdo. O sofrimento virou conteúdo. A cirurgia virou conteúdo. A opinião virou conteúdo. O corpo virou conteúdo. A intimidade virou conteúdo.

E aquilo que vira conteúdo pode virar dinheiro.

A pergunta que resta é se deveria.

Talvez a verdadeira pobreza seja não saber o preço do que não tem preço...

Não tenho qualquer intenção de fazer uma cruzada contra prostitutas, acompanhantes ou criadores de conteúdo adulto. Seria intelectualmente pobre e humanamente injusto.

Existem histórias, circunstâncias, escolhas, necessidades e realidades muito diferentes por trás de cada pessoa.

Também não sustento a fantasia de que antigamente vivíamos numa sociedade moralmente superior. A prostituição sempre existiu. A exploração também. A hipocrisia talvez fosse até maior.

O que mudou foi a vitrine.

O bordel ganhou algoritmo. A garota de programa ganhou seguidores. O anúncio ganhou narrativa de empreendedorismo.

E o que antes era oferecido discretamente ao cliente adulto passou também a circular como espetáculo diante de adolescentes.

Essa transformação merece ser discutida sem puritanismo, mas também sem ingenuidade.

Há enorme diferença entre defender a liberdade de um adulto e glamourizar uma escolha para quem ainda está formando sua identidade.

Há diferença entre reconhecer que determinado mercado existe e transformar seus casos mais extraordinários em propaganda de enriquecimento.

E há uma diferença fundamental entre valor econômico e valor humano.

Talvez precisemos reaprender isso antes de ensiná-lo aos nossos filhos. Porque o problema não é uma profissional do “job” comprar um carro melhor do que o meu. Ela pode comprar dois, até, se quiser!

O problema começa quando nossos filhos olham para aquele carro, depois olham para anos de estudo, esforço, disciplina e responsabilidade, e concluem que nós fomos os tolos.

Quando isso acontece, a discussão já não é sobre prostituição. É sobre cultura.

É sobre aquilo que uma sociedade escolhe exibir. Sobre aquilo que seus algoritmos amplificam. Sobre aquilo que seus jovens aprendem a desejar. E sobre o tipo de adulto que estamos ajudando a formar.

Talvez a pergunta que deva nos inquietar não seja quanto uma pessoa consegue cobrar pelo próprio corpo.

Talvez seja outra: quanto estamos dispostos a pagar, como sociedade, por uma geração que aprenda que tudo tem preço e quase nada tem valor?

Essa conta pode ser muito mais alta do que parece.

sábado, 18 de julho de 2026

A VAGA RESERVADA E A DESIGUALDADE INVISÍVEL

 


Por Diego de Almeida

Uma reflexão pessoal sobre mérito, vulnerabilidade e as novas cotas trans da UFPR

A Universidade Federal do Paraná aprovou recentemente a reserva de 3% das vagas de seus cursos de graduação para pessoas travestis e transexuais. Segundo as informações divulgadas, a medida alcançará todos os cursos, turnos e campi, com a intenção de assegurar pelo menos uma vaga por curso. A decisão teria sido tomada pelo Conselho Universitário em 1º de julho de 2026, com previsão de aplicação já no próximo processo seletivo.

Como era previsível, a notícia produziu reações imediatas. De um lado, foi celebrada como avanço histórico, reparação e democratização da universidade. De outro, foi recebida como mais um passo na fragmentação das vagas públicas segundo critérios identitários cada vez mais específicos.

Em uma conversa entre antigos colegas da Faculdade de Medicina, surgiram questionamentos legítimos sobre mérito, capacidade acadêmica e os objetivos das ações afirmativas. Mas também apareceram generalizações, comparações depreciativas e afirmações que praticamente transformavam cotistas, indígenas e pessoas trans em sinônimos de incapacidade. Em determinado momento, a crítica à política pública deixou de ser dirigida ao critério adotado e passou a atingir as próprias pessoas potencialmente beneficiadas.

Essa passagem é perigosa.

É perfeitamente possível - e necessário - questionar a criação de cotas baseadas exclusivamente em identidade de gênero. Mas isso pode ser feito sem ridicularizar pessoas trans, sem presumir sua incompetência e sem negar que enfrentem discriminações reais.

Criticar uma política pública não exige desumanizar quem ela pretende proteger.

Minha história não cabe facilmente nas categorias

Entrei para o curso de Medicina da UFPR em 1998, aos 17 anos. Hoje tenho 45.

Sou branco, embora tenha ascendência indígena. Essa origem nunca me provocou constrangimento, discriminação ou qualquer obstáculo perceptível. Não seria honesto reivindicar uma condição de vulnerabilidade racial apenas porque algum antepassado meu era indígena.

Por outro lado, minha realidade econômica estava longe de ser confortável.

Vim de uma família de classe média-baixa. Meu pai era o único que trabalhava e ganhava aproximadamente R$ 1.800,00 mensais. Com esse salário, sustentava a esposa, dona de casa, e quatro filhos, dos quais sou o mais velho.

Embora aquele valor fosse superior à mensalidade cobrada por algumas faculdades privadas de Medicina da época, que girava em torno de R$ 1.000,00 a R$ 1.200,00, isso não significa que minha família pudesse pagar uma delas. Uma mensalidade não existe isoladamente. Havia alimentação, moradia, roupas, transporte e todas as despesas de seis pessoas.

Logo após meu ingresso na universidade, meu pai perdeu o emprego. Precisou procurar novas oportunidades em Mato Grosso. Durante toda a faculdade, trabalhei para complementar minha renda e conseguir permanecer no curso.

Fiz praticamente toda a minha formação em escola pública. No último ano, consegui uma bolsa de estudos por mérito para cursar o chamado “terceirão” em um colégio particular. Estudei, fui aprovado no vestibular e conquistei minha vaga.

Não afirmo isso para construir uma lenda pessoal ou para dizer que todos deveriam suportar as mesmas dificuldades. Muito menos para negar que outras pessoas tenham enfrentado obstáculos ainda maiores.

Relato isso porque minha trajetória revela uma falha dos sistemas de classificação: a realidade humana é muito mais complexa do que as categorias administrativas criadas para representá-la.

Pelas regras atuais da Lei de Cotas, eu não poderia concorrer às vagas destinadas a estudantes de escola pública. A legislação exige que o candidato tenha cursado integralmente o ensino médio na rede pública. O ano realizado em uma escola privada, ainda que com bolsa integral conquistada por desempenho, excluiria minha candidatura dessa modalidade.

Ou seja: uma oportunidade obtida por mérito poderia, paradoxalmente, retirar de mim o reconhecimento posterior de minha vulnerabilidade econômica e educacional.

Esse exemplo não invalida toda a política de cotas. Mas demonstra que a régua pode ser imperfeita.

O mérito existe, embora não exista sozinho

Parte do debate público trata a palavra “mérito” como se fosse uma fraude inventada pelos privilegiados. Essa posição é intelectualmente preguiçosa.

O mérito existe.

Há quem estude mais, quem se prepare melhor, quem faça escolhas difíceis, quem renuncie a horas de lazer e quem persista diante das dificuldades. Há diferença entre disciplina e desinteresse, entre esforço e negligência, entre preparação e improviso.

Negar isso é negar a responsabilidade individual.

Ao mesmo tempo, o mérito nunca se manifesta em condições completamente iguais. Um adolescente que estuda em uma escola bem estruturada, possui quarto próprio, livros, professores particulares e não precisa trabalhar compete em situação diferente daquela de quem divide o espaço doméstico com várias pessoas, enfrenta transporte precário e precisa ajudar no sustento da família.

Reconhecer essa diferença não elimina o mérito. Apenas impede que o resultado de uma prova seja confundido com uma medida perfeita do valor humano, da inteligência ou da capacidade futura de cada candidato.

O vestibular mede desempenho em uma prova. Ele não mede toda a trajetória anterior nem garante sozinho a competência profissional futura.

Por isso, ações afirmativas podem ser justificáveis. O problema começa quando qualquer grupo socialmente discriminado passa a ser considerado, automaticamente, credor de uma fração específica das vagas universitárias.

Nem toda injustiça social deve ser corrigida por meio de uma cota.

O Estado possui outros instrumentos: assistência estudantil, bolsas, cursos preparatórios, reforço escolar, apoio psicológico, proteção contra discriminação, políticas de permanência, moradia universitária e fiscalização das instituições de ensino.

A existência de um problema não determina, por si só, a solução adequada.

Pessoas trans enfrentam obstáculos reais

Seria desonesto afirmar que pessoas trans não sofrem discriminação.

A literatura registra situações de violência, constrangimento, bullying, rejeição familiar e abandono escolar. Um estudo brasileiro com mulheres trans encontrou agressões frequentes e idade média de interrupção dos estudos em torno dos 16 anos, embora se trate de uma amostra limitada e que não pode ser automaticamente generalizada para toda a população trans. Outros trabalhos qualitativos relatam percursos escolares marcados por hostilidade e necessidade permanente de enfrentamento.

Portanto, a justificativa séria das cotas trans não é uma suposta deficiência cognitiva. É a alegação de que a hostilidade social afasta parte dessas pessoas da escola e reduz suas oportunidades educacionais.

Esse argumento merece ser ouvido.

Mas há uma diferença fundamental entre reconhecer a existência de discriminação e concluir que a reserva de vagas universitárias é necessariamente a melhor resposta.

Entre o diagnóstico e a prescrição existe um caminho que precisa ser demonstrado.

Uma pessoa trans pode pertencer a uma família rica, estudar nas melhores escolas, realizar cursos preparatórios caros e contar com amplo apoio familiar.

Uma pessoa não trans pode ter crescido na pobreza, estudado em escolas precárias, trabalhado desde a adolescência e enfrentado instabilidade familiar.

Se a identidade de gênero for suficiente para assegurar acesso a uma vaga reservada, a primeira pessoa poderá obter preferência sobre a segunda, ainda que tenha recebido muito mais oportunidades educacionais.

Isso não é uma hipótese absurda. É uma consequência previsível de qualquer política que utilize uma característica coletiva como substituta automática da vulnerabilidade individual.

A identidade trans pode estar associada à exclusão. Mas associação não significa equivalência.

Nem toda pessoa trans é economicamente vulnerável. Nem toda pessoa cisgênero teve condições adequadas para estudar. Nem toda pessoa branca foi socialmente privilegiada. Nem toda pessoa pertencente a uma minoria enfrentou a mesma intensidade de discriminação.

Políticas públicas inevitavelmente trabalham com categorias. Não é possível analisar toda a biografia de cada candidato. Porém, quanto mais distante a categoria estiver da desvantagem educacional que se pretende corrigir, maior será o risco de incluir quem não precisa e excluir quem precisa.

Essa é minha principal dificuldade com as cotas baseadas exclusivamente em identidade de gênero.

Não se trata de negar dignidade, direitos ou respeito às pessoas trans. Trata-se de perguntar por que a identidade, isoladamente, deve conferir preferência na distribuição de um recurso público escasso.

As perguntas que a UFPR precisa responder

Uma política pública séria não pode depender apenas de boas intenções, discursos emocionais ou expressões como “reparação histórica”.

É necessário definir o problema, demonstrar sua dimensão, justificar o instrumento escolhido e estabelecer mecanismos de avaliação.

No caso da nova política da UFPR, algumas perguntas permanecem sem resposta suficientemente clara.

Por que exatamente 3%?

O percentual corresponde à proporção estimada de pessoas trans na população? À proporção entre candidatos ao vestibular? A um levantamento sobre evasão escolar? Ou foi escolhido apenas porque gera aproximadamente uma vaga por curso?

As vagas serão retiradas da ampla concorrência, incorporadas ao conjunto das vagas já reservadas ou criadas como vagas suplementares?

Haverá exigência de escola pública ou renda familiar?

Uma pessoa trans de alta renda e formada integralmente em escola privada poderá concorrer à reserva?

Qual será o método de validação?

A retificação registral será suficiente? Haverá entrevista? Quais critérios poderão ser utilizados sem transformar uma banca universitária em tribunal encarregado de decidir quem parece ou não suficientemente trans?

Como serão prevenidas fraudes?

Quais indicadores serão acompanhados?

A universidade publicará anualmente dados sobre procura, ingresso, desempenho, retenção, evasão e conclusão?

A política será revisada depois de determinado período?

Existirá uma cláusula de reavaliação, ou a reserva se tornará permanente independentemente dos resultados?

Essas perguntas não são formas disfarçadas de preconceito. São requisitos elementares de governança.

Até o momento em que escrevo, há ainda uma aparente desarticulação entre a decisão anunciada e as informações oficiais do processo seletivo. As notícias afirmam que a cota de 3% valerá para o próximo vestibular, mas as páginas oficiais consultadas sobre o Vestibular 2027 continuam descrevendo as modalidades previstas na Lei Federal de Cotas, sem apresentar claramente a nova categoria trans.

Isso não significa necessariamente que a política não será implementada. Significa que sua regulamentação e comunicação precisam ser mais transparentes.

Cotas não são diplomas automáticos

Também é necessário rejeitar um argumento frequente entre os críticos: o de que as cotas entregarão diplomas a pessoas incapazes.

O ingresso por reserva de vagas não dispensa o estudante de frequentar disciplinas, realizar avaliações, cumprir carga horária, fazer atividades práticas e ser aprovado durante o curso.

Uma nota de entrada mais baixa não significa, automaticamente, incompetência profissional futura. Da mesma maneira, uma nota alta no vestibular não garante que alguém será bom médico, engenheiro, professor ou advogado.

Dados divulgados pela própria UFPR, com base no Censo da Educação Superior, indicaram taxa de conclusão maior entre cotistas da rede federal do que entre não cotistas em 2023. Esse dado não prova igualdade de desempenho técnico nem resolve toda a discussão, mas contradiz a afirmação simplista de que cotistas seriam inevitavelmente incapazes de concluir seus cursos.

A crítica responsável deve exigir padrões acadêmicos rigorosos para todos, e não presumir incapacidade antes mesmo do ingresso.

A universidade não deve reduzir seus critérios de aprovação para acomodar qualquer grupo. Se um estudante não alcança as competências necessárias, não deve ser aprovado, tenha ingressado pela ampla concorrência ou por qualquer modalidade de cota.

A porta de entrada pode considerar desigualdades. A porta de saída deve exigir formação adequada.

Especialmente em cursos como Medicina, nos quais erros podem produzir consequências graves, nenhuma política de inclusão pode justificar flexibilização de competências essenciais.

Mas isso vale para todos.

O problema da má formação médica é muito maior do que as cotas. Envolve proliferação de cursos, campos de estágio insuficientes, qualidade docente, mercantilização do ensino, fragilidade das avaliações e ausência histórica de mecanismos nacionais consistentes para verificar a proficiência dos formandos.

Culpar exclusivamente os cotistas seria escolher um alvo conveniente e ignorar o restante do sistema.

Uma política mais defensável

A identidade de gênero poderia ser considerada como um fator adicional de vulnerabilidade, mas não necessariamente como critério único e autossuficiente.

Uma política mais consistente poderia combinar indicadores: renda familiar, formação integral ou predominante em escola pública, necessidade de trabalhar durante o ensino médio, ruptura ou abandono familiar, situações documentadas de violência e evasão escolar, condições de moradia e pertencimento a grupos submetidos a discriminação persistente.

Reconheço que esse modelo também teria dificuldades. Exigir que uma pessoa exponha experiências traumáticas pode ser invasivo. Produzir documentos sobre discriminações ocorridas anos antes pode ser impossível. Quanto mais complexo o sistema, maior o custo administrativo.

Ainda assim, essas dificuldades não autorizam a universidade a substituir toda a análise da vulnerabilidade por uma identidade declarada.

Uma alternativa seria criar vagas suplementares, sem redução da ampla concorrência, ao menos durante uma fase experimental. Outra possibilidade seria estabelecer programas preparatórios, bolsas específicas e políticas robustas de permanência para estudantes trans socialmente vulneráveis.

Também seriam indispensáveis nota mínima, critérios públicos de validação, auditoria, divulgação periódica de resultados e revisão da política depois de prazo determinado.

Ação afirmativa não deveria significar ação permanente, imune a avaliação e protegida contra qualquer crítica.

Discordar não é odiar

Talvez este seja o ponto mais importante.

Eu não concordo com a criação de cotas baseadas exclusivamente na identidade de gênero.

Não considero suficientemente demonstrado que ser trans, independentemente de renda, escola frequentada e trajetória concreta, deva conferir preferência no acesso a uma vaga universitária.

Entendo melhor a lógica das cotas socioeconômicas. Consigo compreender, ainda que com ressalvas, a fundamentação histórica das cotas raciais. Mas encontro maior dificuldade em aceitar que uma condição identitária, por si só, seja transformada em critério de acesso diferenciado.

Essa discordância não representa hostilidade contra pessoas trans.

Defender que todos sejam tratados com dignidade não obriga ninguém a concordar com toda política apresentada em nome de determinado grupo.

O debate público se deteriora quando os defensores das cotas classificam qualquer questionamento como transfobia. Mas também se deteriora quando seus críticos utilizam caricaturas, piadas e insultos para desqualificar pessoas que sequer conhecem.

De um lado, o moralismo identitário tenta encerrar a discussão antes que ela comece. De outro, o preconceito transforma uma discussão institucional em desprezo pessoal.

Ambos empobrecem o debate.

A régua precisa medir aquilo que promete corrigir

Minha história não prova que as cotas sejam desnecessárias. Também não me transforma em modelo obrigatório de superação.

Ela apenas demonstra que vulnerabilidades reais podem permanecer invisíveis quando o Estado escolhe critérios excessivamente rígidos ou identitários.

Eu trabalhei durante toda a faculdade. Minha família enfrentou instabilidade financeira. Meu pai perdeu o emprego logo no início do curso. Minha passagem por uma escola particular ocorreu por meio de uma bolsa conquistada por desempenho.

Mesmo assim, em determinados modelos de ação afirmativa, eu seria tratado como alguém plenamente favorecido.

Enquanto isso, uma pessoa pertencente a um grupo identitário específico poderia ser considerada vulnerável sem que sua condição econômica, educacional ou familiar fosse examinada.

Esse contraste deveria nos incomodar.

A finalidade de uma política de cotas não deve ser distribuir reconhecimento simbólico entre identidades. Deve ser enfrentar desigualdades concretas que impedem pessoas capazes de acessar oportunidades educacionais.

Para isso, a régua utilizada precisa medir, com razoável precisão, aquilo que promete corrigir.

Quando a régua mede apenas a identidade, corre o risco de não enxergar a necessidade.

"E quando uma política pública deixa de enxergar a necessidade, pode produzir uma nova injustiça enquanto afirma combater a anterior."

quinta-feira, 16 de julho de 2026

A Terrível Síndrome do "Dono da Casa"

 



Por Diego de Almeida

Donos da Casa: quando o dirigente se torna maior do que a instituição

Há instituições que possuem sede, estatuto, diretoria, assembleias, eleições, cargos e até uma longa lista de membros. Por fora, parec em organizações sólidas. Por dentro, porém, funcionam como propriedade particular de uma única pessoa.

Essa pessoa pode ser o fundador, o presidente, o venerável, o grão-mestre, o diretor ou simplesmente aquele personagem antigo que, embora nem sempre ocupe formalmente o cargo principal, controla tudo o que realmente importa. É ele quem possui os contatos, conhece as senhas, guarda os documentos, movimenta as relações políticas, define quem pode crescer, determina o que pode ser discutido e decide até onde os demais podem participar.

É o que podemos chamar de “dono da casa”.

O dono da casa não precisa ter adquirido a instituição, nem possuir legalmente seu patrimônio. Seu domínio é de outra natureza. Ele se considera proprietário moral da obra porque a fundou, ajudou a fundá-la, sustentou-a em algum momento ou nela permaneceu por mais tempo do que os demais.

A partir disso, passa a acreditar que sua dedicação lhe concedeu uma espécie de direito permanente de mando.

O problema não está em reconhecer a importância dos fundadores. Toda instituição nasce do esforço de alguém. Em seus primeiros anos, é natural que poucas pessoas concentrem tarefas, responsabilidades e decisões. Uma organização recém-criada ainda não possui quadros numerosos, procedimentos amadurecidos nem pessoas suficientemente preparadas para assumir todas as funções.

A centralização inicial pode ser necessária.

O perigo começa quando aquilo que deveria ser uma fase transitória transforma-se em método permanente de governo.

O fundador deixa de formar novos dirigentes porque teme perder espaço. O presidente não compartilha informações porque acredita que ninguém fará o trabalho com a mesma competência. O venerável distribui cargos, mas não distribui autoridade. O grão-mestre nomeia auxiliares, mas conserva para si todas as decisões importantes.

Os demais membros passam a ocupar funções apenas decorativas.

Existe secretário, mas os documentos permanecem com o dirigente. Existe tesoureiro, mas apenas o presidente conhece integralmente as finanças. Existe conselho, mas suas decisões precisam corresponder à vontade de quem realmente manda. Existem eleições, mas ninguém se sente livre para apresentar uma candidatura que contrarie o grupo dominante.

A instituição conserva a aparência de uma democracia, mas funciona como uma propriedade pessoal.

A armadilha da eficiência

O personalismo costuma se instalar sob a aparência da eficiência.

“É mais fácil deixar que ele resolva.”

“Somente ela conhece todos os procedimentos.”

“Ele sempre fez assim.”

“Quando precisamos de alguma coisa, é com ela que falamos.”

Essas frases parecem elogios, mas na realidade são diagnósticos de fragilidade institucional.

Quando apenas uma pessoa sabe como tudo funciona, não estamos diante de excelência administrativa. Estamos diante de um grave risco operacional.

Quando apenas uma pessoa possui acesso aos documentos, às contas, aos contatos externos e à memória da organização, não existe organização. Existe dependência.

O dono da casa muitas vezes acredita estar protegendo a instituição. Como conhece profundamente seus mecanismos, imagina que centralizar seja uma forma de evitar erros, conflitos e desvios. Pode até agir de boa-fé. Pode ser trabalhador, competente e sinceramente dedicado.

Mas boa intenção não corrige má governança. E como diz o adágio popular: "de boa intensão o inferno está cheio".

Uma instituição que depende integralmente de uma pessoa é uma instituição condenada a entrar em crise quando essa pessoa se afastar, adoecer, renunciar ou morrer.

E todos, sem exceção, um dia se afastam.

O dirigente que não prepara sua saída fracassa em sua missão

Existe uma ideia equivocada de que o sucesso de um dirigente deve ser medido pelo que ele realiza enquanto permanece no comando.

Não é suficiente!

O verdadeiro teste de uma liderança ocorre depois de sua saída.

Se a instituição continua funcionando, se novos dirigentes assumem com segurança, se os documentos estão organizados, se as contas são compreensíveis, se os membros conhecem os procedimentos e se a sucessão acontece sem traumas, então houve liderança institucional.

Se, ao contrário, tudo paralisa, os arquivos desaparecem, as relações externas se desfazem, os membros entram em conflito e ninguém sabe exatamente o que fazer, então aquilo que parecia liderança era apenas dependência.

O verdadeiro fundador não cria seguidores permanentes. Cria sucessores.

O verdadeiro dirigente não concentra conhecimento para tornar-se indispensável. Compartilha conhecimento para que sua presença deixe de ser necessária.

A obra de um líder não deve ser avaliada pela dificuldade de substituí-lo, mas pela tranquilidade com que a instituição consegue continuar sem ele.

Ser insubstituível não é prova de competência. Muitas vezes é prova de que se falhou deliberadamente em preparar outras pessoas.

Exemplos que atravessam diferentes instituições

Esse padrão pode ser encontrado em empresas, igrejas, associações, partidos, movimentos sociais e organizações iniciáticas.

A Mars Hill Church, nos Estados Unidos, cresceu como uma ampla rede religiosa profundamente identificada com seu fundador e principal dirigente, Mark Driscoll. Quando ele deixou o comando, em meio a uma grave crise de liderança, a estrutura central rapidamente se dissolveu. Algumas comunidades locais continuaram de maneira independente, mas a organização que havia sido construída ao redor do líder não sobreviveu à sua saída.

Na WeWork, Adam Neumann construiu uma empresa cuja governança lhe concedia poderes desproporcionais. O fundador não era apenas o principal executivo: era tratado como figura quase inseparável da identidade da companhia. A organização somente conseguiu prosseguir depois de uma ruptura traumática, reestruturações profundas e enorme destruição de valor.

Na Theranos e na FTX, a concentração de poder nos fundadores permitiu que conselhos, executivos e mecanismos de fiscalização fossem neutralizados. Não foram simples crises de sucessão, mas exemplos extremos do que acontece quando nenhuma estrutura interna possui força suficiente para confrontar quem ocupa o centro.

No campo maçônico, a Loja Propaganda Due, a P2, tornou-se inseparável de Licio Gelli. Sem comparar moralmente instituições tão distintas, o caso demonstra como uma Loja pode deixar de servir aos seus princípios e transformar-se em instrumento de poder pessoal daquele que deveria apenas dirigi-la.

Conheci também, pessoalmente, uma situação que se aproxima desse modelo.

Sucedeu-se com a Grande Loja do Brasil, a GLOB. Conheci seu fundador e grão-mestre, Dorival Fiorini, assim como seu filho, Fernando Fiorini. A GLOB possuía lojas em diferentes localidades, estrutura administrativa, cargos e relações institucionais. Entretanto, após a morte de Dorival Fiorini, não houve sucessão capaz de preservar a Potência. As lojas deixaram de funcionar e, nos termos maçônicos, abateram colunas. A própria Potência desapareceu.

Não se trata aqui de julgar intenções pessoais, nem de produzir uma investigação histórica sobre responsabilidades. O fato relevante é institucional: uma estrutura que parecia ampla não conseguiu sobreviver à ausência de seu dirigente central.

Esse é o resultado final do modelo do dono da casa.

A responsabilidade não é apenas do centralizador

Seria confortável atribuir toda a culpa àquele que concentra o poder. Porém, o dono da casa raramente governa sozinho. Ele conta com a colaboração, a submissão ou a omissão dos demais.

Muitos membros preferem não assumir responsabilidades.

É mais simples comparecer às reuniões, participar das cerimônias, desfrutar do convívio e deixar que alguém resolva os problemas administrativos. É mais cômodo criticar quem trabalha do que aprender a executar as tarefas. É mais confortável dizer que não se tem tempo do que aceitar um cargo e preparar-se adequadamente para exercê-lo.

A concentração de poder nasce tanto da vaidade de alguns quanto da acomodação de muitos.

Quando ninguém quer aprender a secretaria, apenas o secretário se torna necessário.

Quando ninguém acompanha as finanças, o tesoureiro transforma-se em proprietário das informações.

Quando ninguém estuda os estatutos, aquele que os conhece pode interpretá-los conforme sua conveniência.

Quando ninguém se prepara para liderar, o mesmo grupo permanece eternamente nos cargos.

Portanto, combater o personalismo exige mais do que pedir ao dirigente que delegue. Exige que os demais estejam dispostos a receber tarefas, assumir responsabilidades e responder por seus próprios erros.

Distribuir trabalho não significa simplesmente dividir encargos desagradáveis. Significa formar consciência institucional.

Cada membro deve compreender que uma Loja ou associação não existe apenas para lhe proporcionar reuniões, cerimônias, títulos, amizades ou reconhecimento. Pertencer implica trabalhar.

Uma instituição coletiva sustentada pelo esforço permanente de dois ou três indivíduos é uma fraude contra o próprio significado da palavra associação.

Cargos não são propriedades

Na Maçonaria, a ideia de dono da casa é especialmente contraditória.

Uma Loja não pertence ao venerável, aos fundadores, aos membros mais antigos ou àqueles que contribuíram financeiramente para sua criação.

O malhete não é um título de propriedade.

O cargo é temporário, a função é transitória e a autoridade é delegada.

Quem ocupa a direção deveria compreender que administra algo que recebeu das gerações anteriores e que deverá entregar às gerações seguintes. Não é proprietário da Loja, mas seu depositário temporário.

O mesmo vale para Potências, associações, fundações e empresas familiares.

O dirigente que confunde o cargo com sua identidade pessoal tende a interpretar qualquer discordância como deslealdade. A crítica administrativa transforma-se em ofensa pessoal. O surgimento de novas lideranças passa a ser visto como ameaça. Quem demonstra competência é afastado, limitado ou mantido em funções secundárias.

Com o tempo, permanecem ao redor do líder apenas aqueles que não o desafiam.

A instituição perde seus melhores quadros e conserva os mais obedientes.

Forma-se então uma aparência de harmonia, mas não existe verdadeira unidade. Existe silêncio.

E o silêncio produzido pelo medo de contrariar alguém não é paz institucional. É estagnação.

Preparar sucessores é uma obrigação

Toda organização séria deveria possuir mecanismos claros de continuidade.

Isso inclui arquivos organizados, atas acessíveis, informações financeiras transparentes, mandatos definidos, alternância de cargos, formação de novos dirigentes e processos de transição planejados.

Nenhuma função deveria depender do conhecimento exclusivo de uma pessoa.

O secretário deve preparar quem poderá substituí-lo. O tesoureiro deve tornar as contas inteligíveis para outros membros. O presidente deve compartilhar contatos e procedimentos. O dirigente ritualístico deve formar novos oficiais. O fundador deve aceitar que a obra crescerá de maneiras que talvez não correspondam exatamente às suas preferências.

A sucessão não começa quando alguém anuncia que deixará o cargo. Começa no primeiro dia de gestão.

Cada dirigente deveria perguntar a si mesmo:

Quem poderá realizar esta tarefa quando eu não estiver presente?

Quem conhece os procedimentos?

Onde estão guardados os documentos?

Quem possui acesso às informações?

Há alguém preparado para assumir amanhã?

Caso a resposta seja “ninguém”, não existe motivo para orgulho. Existe um problema urgente.

Construir templos, não tronos

Pessoas não vivem para sempre.

Seus cargos terminam, suas capacidades diminuem, suas prioridades mudam e suas vidas inevitavelmente chegam ao fim.

Entretanto, instituições podem atravessar décadas ou séculos.

Uma Loja pode iniciar pessoas que ainda nem nasceram. Uma associação pode servir a comunidades que seus fundadores jamais conhecerão. Uma obra pode continuar produzindo frutos quando os nomes daqueles que a iniciaram já forem apenas registros em antigas atas.

Esse é o verdadeiro legado.

O legado não está em ser lembrado como aquele sem o qual nada funcionava.

Está em ter construído algo que continuou funcionando quando já não se estava presente.

O dono da casa deseja que todos reconheçam que a instituição depende dele.

O verdadeiro líder trabalha para que ela não dependa.

O primeiro constrói um trono e chama isso de obra.

O segundo constrói uma instituição e aceita que um dia outro ocupará o seu lugar.

Casas possuem donos. Lojas, associações e instituições possuem membros, dirigentes temporários e responsabilidades compartilhadas.

Quando alguém se torna maior do que a organização, o futuro já está comprometido.

Quando todos se envolvem, aprendem, trabalham e preparam seus sucessores, a ausência de uma pessoa pode provocar saudade, mas não destruição.

É assim que se deixa um legado.

Não permanecendo eternamente no centro, mas tornando possível que a obra atravesse muitas gerações depois de nós.

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Limão no Rosto, Idiocracia e Inteligência Artificial

 


Por Diego de Almeida

... quando a ignorância aprende a parecer inteligente

Em 1995, um homem chamado McArthur Wheeler assaltou dois bancos em Pittsburgh sem máscara, sem disfarce e sem nenhum cuidado elementar para ocultar o rosto. A razão era quase inacreditável: ele havia passado suco de limão na face, acreditando que isso o tornaria invisível às câmeras de segurança. Sua lógica, se é que se pode chamar assim, vinha de uma analogia infantil com a tinta invisível feita com limão. Se o limão podia esconder palavras no papel, talvez pudesse esconder também seu rosto diante das câmeras. O episódio entrou para a literatura psicológica como uma espécie de parábola moderna da incompetência confiante, abrindo o clássico artigo de Justin Kruger e David Dunning sobre pessoas “inábeis e inconscientes disso”.

O caso não é apenas engraçado. Aliás, se tratado apenas como anedota, perde sua força. Wheeler não errou apenas porque teve uma ideia absurda. Ele errou porque não possuía os instrumentos mínimos para perceber que sua ideia era absurda. Esse é o núcleo do chamado efeito Dunning-Kruger: em certos domínios, a incompetência não apenas prejudica o desempenho; ela também prejudica a capacidade de avaliar o próprio desempenho. O sujeito não sabe, mas, pior ainda, não sabe que não sabe.

Há, naturalmente, exageros na vulgarização desse conceito. O efeito Dunning-Kruger virou meme, xingamento e carimbo de superioridade moral. Isso é ruim. A própria literatura posterior trouxe críticas metodológicas relevantes, apontando que parte do fenômeno pode ser explicada por artefatos estatísticos, regressão à média e vieses gerais de autoavaliação. Ainda assim, mesmo com essas ressalvas, a intuição central permanece poderosa: existe uma forma de ignorância que se protege de si mesma. Ela não se reconhece como ignorância. Ela se percebe como certeza.

Essa imagem - um homem com limão no rosto, caminhando confiante para dentro de um banco - talvez seja uma das metáforas mais precisas do nosso tempo.

Pouco mais de uma década depois, em 2006, Mike Judge lançou “Idiocracy”, uma comédia distópica sobre um homem mediano que desperta no futuro e descobre que, por comparação, tornou-se o indivíduo mais inteligente do mundo. O filme estreou em Los Angeles em 1º de setembro de 2006 e foi apresentado como uma sátira de ficção científica e humor negro. Sua premissa mais superficial é conhecida: a humanidade teria “emburrecido”. Mas a leitura mais interessante do filme não está em sua hipótese biológica, que é simplista e perigosa. A força de “Idiocracy” está em outra coisa: a percepção de que uma sociedade pode organizar seus incentivos de tal maneira que a estupidez passe a ser recompensada, televisionada, consumida, eleita e institucionalizada.

Esse é o ponto de encontro entre McArthur Wheeler e “Idiocracy”.

Wheeler representa a idiocracia individual: a ignorância confiante de um homem que acredita ter enganado o mundo com limão no rosto. O filme de Mike Judge representa a idiocracia coletiva: uma civilização inteira que perdeu seus mecanismos de correção do erro. Em Wheeler, há uma falha de julgamento. Em “Idiocracy”, há uma falência cultural.

A diferença é importante. Toda sociedade sempre teve ignorantes, fanáticos, charlatães, palpiteiros e vaidosos. Isso não é novidade. A novidade contemporânea é que os filtros que antes constrangiam a ignorância, como escola, imprensa, comunidade científica, autoridade técnica, reputação profissional, vergonha pública, hierarquia do conhecimento, estão sendo corroídos por uma economia da atenção que premia o ruído, a velocidade, a indignação e a simplificação. O problema não é simplesmente haver ignorância. O problema é a ignorância ter adquirido palco, microfone, estética, monetização e, agora, automação.

É aqui que entra a inteligência artificial.

Quando “Idiocracy” foi lançado, a internet já existia, redes sociais cresciam, mas ainda não havia a disseminação massiva de ferramentas de inteligência artificial generativa. Hoje, qualquer pessoa pode produzir um texto com aparência técnica, uma imagem com aparência documental, uma opinião com verniz acadêmico, uma petição com tom jurídico, uma análise política com estilo de especialista ou uma explicação médica com linguagem aparentemente sofisticada. A forma ficou barata. A aparência de competência foi democratizada. O problema é que a competência real não acompanha automaticamente essa aparência.

A IA não cria a idiocracia. Isso seria uma crítica preguiçosa. A IA é ferramenta, e uma ferramenta poderosa. Pode ajudar a estudar, revisar, comparar argumentos, traduzir, resumir, organizar ideias, identificar contradições e ampliar o acesso ao conhecimento. Usada com método, ela pode ser um instrumento formidável de educação. Mas usada como oráculo, muleta ou fábrica de certezas, ela intensifica o pior da cultura contemporânea: a substituição do pensamento pela resposta pronta.

A adoção dessa tecnologia ocorre em velocidade extraordinária. O relatório AI Index 2026, de Stanford, aponta que a IA generativa alcançou 53% de adoção populacional em apenas três anos, mais rapidamente que o computador pessoal ou a internet. Isso significa que não estamos diante de uma curiosidade tecnológica. Estamos diante de uma nova infraestrutura cognitiva. Uma camada intermediária entre o sujeito e o mundo, entre a pergunta e a resposta, entre a dúvida e a conclusão.

O risco é simples e grave: se o usuário não tem repertório para avaliar a resposta, a IA pode transformar erro em texto elegante. Pode transformar palpite em parecer. Pode transformar ressentimento em tese. Pode transformar ignorância em conteúdo publicável.

McArthur Wheeler, no século XX, passou limão no rosto e acreditou estar invisível. O McArthur Wheeler do século XXI talvez peça a uma IA: “explique cientificamente por que o suco de limão pode impedir câmeras de me identificarem”. Se receber uma resposta ruim, mas bem escrita, talvez se sinta ainda mais seguro. A tragédia contemporânea não é apenas a existência do erro. É o erro ganhar fluência, estrutura, retórica e design.

Na educação, o problema já aparece de modo concreto. Um estudo publicado na PNAS sobre uso de IA generativa em matemática mostrou que estudantes com acesso ao GPT-4 melhoraram o desempenho enquanto usavam a ferramenta, mas tiveram pior desempenho quando o acesso foi retirado; o efeito negativo foi mitigado quando a IA foi desenhada com salvaguardas pedagógicas, oferecendo pistas em vez de simplesmente entregar respostas. A conclusão é incômoda: a IA pode melhorar a performance imediata e, ao mesmo tempo, prejudicar a aprendizagem duradoura quando substitui o esforço cognitivo necessário.

Isso deveria nos preocupar mais do que a velha discussão moralista sobre “cola”. A questão central não é se o aluno trapaceia. A questão é se ele ainda aprende a pensar. Se a resposta vem antes da elaboração, se o resumo vem antes da leitura, se a conclusão vem antes da dúvida, se o texto vem antes da experiência intelectual, formamos indivíduos capazes de entregar produtos, mas incapazes de sustentar pensamento.

Essa deterioração não ocorre no vazio. A OCDE registrou, no PISA 2022, uma queda recorde no desempenho médio em matemática entre países da organização entre 2018 e 2022, além de queda significativa em leitura. Esses dados não autorizam a afirmação grosseira de que “as pessoas ficaram burras”. Isso seria simplista. Mas eles reforçam um ponto mais sério: há sinais consistentes de fragilização das competências básicas de leitura, raciocínio e interpretação. E uma população com baixa leitura, baixa paciência argumentativa e baixa capacidade de abstração é terreno fértil para manipulação política, charlatanismo digital e radicalização emocional.

A vida pública sofre diretamente com isso.

A política democrática depende de um mínimo de cidadania cognitiva. Não exige que todos sejam filósofos, cientistas ou juristas. Mas exige que um número suficiente de pessoas consiga distinguir argumento de slogan, evidência de boato, discordância de traição, crítica de perseguição, prudência de covardia, ciência de propaganda e autoridade técnica de celebridade barulhenta. Quando essa distinção se perde, a política deixa de ser deliberação e vira espetáculo tribal.

A desinformação não é apenas um conjunto de mentiras circulando na internet. Ela é uma tecnologia de desorganização social. A OCDE aponta que campanhas de desinformação podem prejudicar políticas públicas, aprofundar divisões sociais e minar a confiança em instituições democráticas. A UNESCO e o PNUD também alertaram para o impacto da inteligência artificial, de sistemas de recomendação e de deepfakes sobre liberdade de expressão e eleições, especialmente pela transformação do ecossistema informacional.

Aqui aparece a nova idiocracia: não uma população necessariamente incapaz de acessar informação, mas incapaz de hierarquizá-la. Todos sabem algo, todos viram um vídeo, todos receberam um print, todos têm uma opinião, todos “pesquisaram”. Mas pesquisar virou muitas vezes apenas encontrar um conteúdo que confirme a própria irritação. A autoridade deslocou-se do estudo para a convicção. O especialista passou a ser suspeito; o influenciador passou a ser íntimo. O professor virou “doutrinador”; o charlatão virou “corajoso”. A dúvida virou fraqueza. A certeza performática virou virtude.

É uma inversão perigosa. A tradição intelectual, em seu melhor sentido, nunca foi arrogância de gabinete. Intelectualidade não é falar difícil, colecionar diplomas ou citar autores para humilhar os outros. Intelectualidade é disciplina diante da complexidade. É suportar a demora do pensamento. É aceitar que nem todo problema tem resposta simples. É desconfiar da própria primeira impressão. É submeter ideias a crítica. É saber que a realidade não se curva ao desejo, à ideologia ou ao engajamento.

O colapso da intelectualidade, portanto, não é a ausência de pessoas inteligentes. É a perda do respeito social pelos hábitos que tornam a inteligência útil: leitura, memória, comparação, escuta, método, silêncio, dúvida, revisão, humildade epistêmica e responsabilidade com a palavra.

A inteligência artificial pode agravar esse colapso justamente porque oferece um atalho sedutor. Ela dá a sensação de que o pensamento ocorreu, quando muitas vezes apenas a formulação foi terceirizada. O sujeito não atravessou o caminho; recebeu o mapa. Não compreendeu o problema; recebeu uma resposta plausível. Não amadureceu uma posição; encomendou uma justificativa.

Mas o oposto também é verdadeiro. A IA pode ser usada contra a idiocracia. Pode funcionar como uma navalha: cortar excessos, testar argumentos, expor incoerências, pedir fontes, simular objeções, traduzir complexidade, revelar premissas ocultas e obrigar o usuário a pensar melhor. A diferença não está apenas na ferramenta. Está na postura de quem a usa.

A pergunta decisiva não é: “a IA vai nos deixar burros?” Essa pergunta é pobre. A pergunta correta é: vamos usar a IA para substituir o pensamento ou para discipliná-lo?

Se for para substituir, estaremos apenas passando limão no rosto da civilização. Acharemos que estamos invisíveis ao erro porque nossas frases ficaram mais bonitas. Acharemos que sabemos porque o texto parece saber. Acharemos que pensamos porque uma máquina organizou nossa preguiça em parágrafos convincentes.

Se for para disciplinar, talvez a IA possa servir como antídoto parcial: não como mestre absoluto, mas como interlocutor; não como oráculo, mas como ferramenta crítica; não como substituto da inteligência, mas como espelho de nossas perguntas.

McArthur Wheeler acreditava que o limão o protegeria das câmeras. “Idiocracy” imaginou uma sociedade que já não sabia distinguir entretenimento de governo, publicidade de alimento, celebridade de competência. Nós estamos diante de algo mais sutil: uma época em que a ignorância não precisa mais parecer ignorante. Ela pode escrever bem, argumentar com aparência lógica, gerar imagens, fabricar vídeos, simular autoridade e vestir-se com a estética do conhecimento.

O perigo não é a burrice nua. Essa sempre foi fácil de reconhecer. O perigo é a burrice bem diagramada.

E talvez seja essa a verdadeira distopia contemporânea: não um futuro em que ninguém saiba nada, mas um presente em que todos tenham respostas para tudo, sem ainda saber formular uma boa pergunta.

Referências utilizadas

Kruger, J.; Dunning, D. “Unskilled and unaware of it: how difficulties in recognizing one's own incompetence lead to inflated self-assessments”. Journal of Personality and Social Psychology, 1999.

American Film Institute. Ficha de Idiocracy (2006), de Mike Judge.

Stanford HAI. The 2026 AI Index Report.

Bastani, H. et al. “Generative AI without guardrails can harm learning”. PNAS, 2025.

OECD. PISA 2022 Results – Volume I.

OECD. Facts not Fakes: Tackling Disinformation, Strengthening Information Integrity.

UNESCO/UNDP. Artificial Intelligence, Freedom of Expression and Elections.

Gignac, G. E.; Zajenkowski, M. “The Dunning-Kruger effect is mostly a statistical artefact”. Intelligence, 2020.