segunda-feira, 22 de junho de 2026

Nem Todo Lugar Onde Cabemos Nos Serve

 


Por Diego de Almeida

Há imagens que parecem simples, quase ingênuas, mas que têm a capacidade de tocar em regiões sensíveis da convivência humana. Uma tangerina colocada dentro de um alho, acompanhada da frase “não é porque você se encaixa que o lugar serve para você”, pode parecer apenas mais uma dessas mensagens de redes sociais feitas para consumo rápido. Mas, quando transportada para um grupo formado por pessoas ligadas por ideais filosóficos, iniciáticos e fraternais, ela deixa de ser uma frase decorativa e se transforma em provocação.

E talvez tenha sido exatamente isso que aconteceu.

A primeira leitura possível é imediata: nem todo lugar onde conseguimos entrar é um lugar onde conseguimos florescer. Às vezes cabemos formalmente. Temos lugar na mesa, assento na reunião, nome na lista, voz no grupo, avental no templo, título, cargo, função e reconhecimento. Mas, ainda assim, algo essencial pode não estar em harmonia. O espaço nos comporta, mas não nos alimenta. Aceita nossa presença, mas não favorece nosso crescimento. Permite que fiquemos, mas exige que, para permanecer, abandonemos demais de nós mesmos.

Essa leitura, entretanto, exige cuidado. Existe uma diferença enorme entre reconhecer incompatibilidades profundas e rejeitar qualquer ambiente onde existam diferenças. A segunda atitude é pobre, imatura e incompatível com qualquer proposta séria de aperfeiçoamento humano.

A convivência com o diferente é uma das grandes escolas da vida. Mais ainda, é uma das grandes escolas da Maçonaria. Não se entra em uma Ordem iniciática para encontrar apenas pessoas que pensam igual, sentem igual, votam igual, interpretam igual e vivem igual. Isso seria confortável, mas seria também inútil. O contraditório incomoda porque nos obriga a testar nossas certezas. A diferença nos tira da preguiça intelectual. O outro, quando tratado com respeito, funciona como espelho, limite e ferramenta de lapidação.

Portanto, o problema não está na diferença.

O problema está em confundir diferença com deformação; diversidade com incoerência; tolerância com submissão; fraternidade com silêncio diante daquilo que fere valores essenciais.

A igualdade maçônica também não deve ser confundida com uniformidade. Somos iguais em dignidade, direitos e deveres. Mas não somos iguais em história, maturidade, cultura, temperamento, capacidade de escuta, compromisso, profundidade filosófica ou disposição para o serviço. Dizer isso não é elitismo. É apenas reconhecer a realidade.

A frase “somos todos iguais” é bela, mas pode se tornar vazia quando usada para impedir reflexões necessárias. Somos iguais perante o ideal, mas ainda estamos muito distantes de realizá-lo plenamente. Se já fôssemos todos iguais em virtude, não precisaríamos de iniciação, instrução, vigilância, silêncio, símbolo, ritual ou trabalho interior. A própria existência da Loja pressupõe que somos pedras ainda imperfeitas.

O verdadeiro desafio não é fingir que não existem arestas. O desafio é trabalhá-las sem destruir a pedra.

Por outro lado, há também um risco oposto: transformar qualquer desconforto em justificativa para partir. Nem todo incômodo é sinal de que o lugar não serve. Às vezes, o incômodo é justamente o instrumento da lapidação. Há ambientes que nos contrariam porque nos desafiam a crescer. Há pessoas difíceis que revelam nossa impaciência. Há divergências que expõem nossa vaidade. Há críticas que, mesmo mal formuladas, contêm algum fragmento de verdade.

Sair de todo lugar onde somos contrariados não é sabedoria. Pode ser apenas fuga com verniz filosófico.

Mas permanecer em todo lugar, a qualquer custo, também não é virtude. Pode ser medo, acomodação ou dependência emocional disfarçada de tolerância.

A sabedoria está no discernimento.

Há situações em que a pessoa se encaixa, mas para isso precisa se diminuir. Há ambientes onde ela é aceita, desde que não cresça demais, não questione demais, não pense demais, não sirva de modo diferente, não traga novas ideias, não revele desconfortos, não desorganize vaidades antigas. Nesses casos, o encaixe pode se tornar prisão. O pertencimento passa a cobrar um preço alto demais: a renúncia à própria coerência.

Também existem ambientes onde o discurso é fraterno, mas a prática é áspera; onde se fala em igualdade, mas se cultuam hierarquias de vaidade; onde se exalta o serviço, mas se disputa aparência; onde o símbolo é reverenciado, mas sua lição é esquecida; onde o rito é executado com precisão, mas o Irmão ao lado é tratado sem delicadeza.

Aqui cabe uma advertência incômoda: uma instituição iniciática pode conservar seus ritos e, ainda assim, perder seu eixo. Pode preservar paramentos, cargos, fórmulas, joias, atas, protocolos e solenidades, mas esquecer que tudo isso deveria servir a algo maior. O rito sem transformação vira teatro. A hierarquia sem serviço vira vaidade. A tradição sem reflexão vira repetição. A fraternidade sem cuidado vira palavra bonita.

Isso não significa desprezar o ritual, a forma ou a disciplina. Seria um erro grosseiro. A forma educa. O símbolo organiza. O rito conduz. A tradição preserva uma linguagem que não nasceu ontem e não pertence ao capricho de cada geração. Mas tudo isso deve apontar para o aperfeiçoamento humano e para o serviço à humanidade. Quando a forma deixa de ser caminho e passa a ser fim em si mesma, ela endurece. E tudo o que endurece demais deixa de servir à vida.

A imagem da tangerina dentro do alho é poderosa porque mostra algo aparentemente encaixado, mas essencialmente deslocado. A tangerina cabe ali, mas não pertence àquela natureza. Sua cor, sua textura, seu aroma e sua função são outros. Ela não é melhor do que o alho. O alho não é inferior à tangerina. Apenas não são a mesma coisa. O problema não está em um ou outro. Está em forçar uma integração artificial, sustentada apenas pela aparência do encaixe.

Essa talvez seja uma das grandes questões da vida adulta: saber distinguir adaptação de anulação.

Adaptar-se é necessário. Quem não se adapta não convive. Anular-se, porém, é adoecer lentamente em nome da aceitação. Adaptar-se é ceder em aspectos secundários para preservar uma convivência maior. Anular-se é sacrificar valores essenciais para não perder lugar. Adaptar-se é virtude social. Anular-se é violência contra si mesmo.

Na vida maçônica, essa distinção é ainda mais importante. A Ordem não deve ser um espaço de unanimidade artificial, mas também não pode ser um território onde qualquer postura se justifique sob o pretexto da diferença. Nem toda opinião merece o mesmo peso moral. Nem toda conduta deve ser acolhida como mera diversidade. Há diferenças que enriquecem. Há comportamentos que corroem.

O diferente nos faz crescer quando vem acompanhado de respeito, escuta e compromisso com algo maior do que o ego individual. Mas o diferente também pode ferir quando se manifesta como arrogância, agressividade, desprezo, oportunismo ou vaidade travestida de opinião.

Por isso, a pergunta não deve ser apenas: “eu caibo aqui?”

Essa pergunta é pequena.

A pergunta mais honesta talvez seja: “este lugar me ajuda a ser melhor?” E, mais ainda: “a minha presença aqui ajuda este lugar a cumprir melhor o seu propósito?”

Porque permanecer apenas por hábito, medo ou aparência não é fidelidade. É inércia. E partir apenas por orgulho ferido também não é sabedoria. É vaidade!

Entre a permanência covarde e a ruptura precipitada existe um caminho mais difícil: o discernimento sereno. Ele exige recolhimento, autocrítica e coragem. Exige perguntar se o incômodo vem do ambiente ou do nosso próprio orgulho. Exige reconhecer quando estamos sendo lapidados e quando estamos sendo diminuídos. Exige separar conflito fértil de desgaste inútil.

A Maçonaria, quando vivida com seriedade, não promete conforto. Promete trabalho. Não oferece um grupo de iguais no sentido banal da palavra, mas uma oficina de aperfeiçoamento entre pessoas diferentes, reunidas por um ideal comum. O problema começa quando o ideal comum é substituído por preferências pessoais, disputas de vaidade, formalismos estéreis ou ressentimentos mal resolvidos.

Nesses momentos, a fraternidade deixa de ser uma palavra de ordem e passa a ser uma prova. É fácil chamar alguém de Irmão quando concorda conosco. Difícil é tratá-lo como Irmão quando diverge, quando nos contraria, quando nos obriga a pensar melhor. Mais difícil ainda é reconhecer que, em alguns casos, o vínculo fraterno não exige permanência cega, mas respeito maduro pela distância necessária.

Saber ficar é virtude.

Saber partir também pode ser.

Mas saber por que se fica ou por que se parte é sabedoria.

Talvez a imagem compartilhada tenha incomodado justamente por isso. Ela nos lembra que pertencimento verdadeiro não é simples encaixe. É coerência entre presença, propósito e crescimento. É estar onde se pode servir sem se deformar. É conviver com diferenças sem abandonar valores. É aceitar a lapidação sem permitir a destruição da própria essência.

No fim, a pergunta permanece aberta, como toda boa reflexão deve permanecer:

Estamos apenas cabendo nos lugares que ocupamos, ou estamos realmente servindo, crescendo e ajudando outros a crescerem?

A resposta não cabe em uma imagem de rede social. Mas talvez uma imagem de rede social, quando bem recebida, possa abrir a porta para uma reflexão que há muito tempo precisava ser feita.

quarta-feira, 17 de junho de 2026

ENTRE GALHOS CAÍDOS E TEMPESTADES ANUNCIADAS

 


Por Diego de Almeida

Há uma doença social que se alastra com mais rapidez do que qualquer frente fria, enxurrada ou vendaval: a incapacidade de discutir problemas reais sem transformá-los em espetáculo, deboche ou guerra política.

Nos últimos dias, dois assuntos aparentemente distintos expuseram a mesma ferida. De um lado, prefeitos brasileiros se organizam para discutir estratégias de prevenção diante da possibilidade de um El Niño forte em 2026/2027, com risco aumentado de eventos climáticos extremos. De outro, em Curitiba, uma jovem foi gravemente atingida pela queda de um galho de árvore na Praça Osório, num acidente de consequências devastadoras.

Em ambos os casos, como era previsível, as redes sociais não decepcionaram em sua vocação para decepcionar.

Vieram os comentários agressivos. As ironias baratas. As acusações automáticas. Os diagnósticos de sofá. As sentenças proferidas por gente que não leu um laudo, não conhece um protocolo técnico, não entende arborização urbana, não sabe o que é Defesa Civil, não distingue prevenção de alarmismo e, ainda assim, se sente autorizada a julgar tudo e todos com a segurança dos ignorantes.

O problema não é criticar o poder público. Criticar é necessário. Fiscalizar é indispensável. Cobrar transparência, laudos, planejamento, orçamento e responsabilidade é parte elementar da vida democrática. O problema é confundir crítica com linchamento, fiscalização com histeria e indignação com oportunismo.

Há uma diferença enorme entre perguntar “o que foi feito, quando foi feito, por quem foi feito e se foi suficiente?” e simplesmente gritar “culpa da prefeitura”, antes de qualquer apuração técnica.

Essa diferença parece pequena para quem vive de frases prontas. Mas é justamente nela que se separa a cidadania da barbárie digital.

A possível chegada de um El Niño forte exige preparação. Não porque o céu vá necessariamente desabar amanhã, nem porque toda previsão climática deva ser tratada como profecia. Mas porque gestão pública responsável trabalha com risco, probabilidade e impacto.

É assim na medicina, na engenharia, na aviação, na segurança pública e deveria ser assim também na administração das cidades.

Quando há possibilidade de chuvas intensas, alagamentos, deslizamentos, ventos fortes, enchentes ou colapso de infraestrutura, o dever do gestor público não é esperar a tragédia para depois posar de solidário. O dever é planejar antes.

Isso significa mapear áreas de risco, revisar planos de contingência, testar sistemas de alerta, preparar abrigos, limpar galerias pluviais, revisar pontes, encostas e vias críticas, integrar Defesa Civil, assistência social, saúde, educação, obras e comunicação pública.

Significa também conversar com outros municípios, com Estados e com a União. Desastres climáticos não respeitam divisas administrativas. A água não consulta o mapa político antes de invadir uma cidade. O vento não pergunta a legenda partidária do prefeito antes de derrubar uma árvore. A encosta não escolhe ideologia antes de deslizar.

Portanto, quando prefeitos se reúnem para discutir prevenção, a pergunta madura não é “quanto custa essa reunião?” ou “quem vai aparecer na foto?”. A pergunta correta é: “quais medidas concretas sairão dali?”.

Reunião vazia merece crítica. Prevenção séria merece apoio. O que não merece respeito é o comentário raso que ridiculariza qualquer tentativa de planejamento e depois, quando ocorre a tragédia, cobra exatamente aquilo que antes desprezou.

Noutra situação, temos uma fatalidade; A queda de um galho que atinge uma jovem em praça pública é um episódio brutal. Não há como tratar isso com frieza burocrática. Uma vida foi profundamente alterada em questão de segundos. Uma família foi violentamente lançada em sofrimento, angústia e incerteza.

Mas exatamente por ser um caso grave, ele exige seriedade. Seriedade não combina com conclusão apressada.

Árvores são organismos vivos. Podem estar aparentemente estáveis e, ainda assim, sofrer falha estrutural. Podem ser afetadas por fungos, cupins, apodrecimento interno, encharcamento do solo, ventos, podas anteriores inadequadas, sobrecarga de galhos ou alterações urbanas no entorno. Algumas situações são previsíveis. Outras, não. Algumas decorrem de negligência. Outras, de atroz acaso.

A única maneira honesta de diferenciar uma coisa da outra é por meio de apuração técnica.

A árvore havia sido vistoriada? Quando? Por quem? Com qual metodologia? Havia sinais externos de comprometimento? O galho que caiu apresentava doença, podridão ou fratura prévia? O protocolo municipal de inspeção é adequado? A periodicidade das vistorias é suficiente? Há inventário arbóreo atualizado? Há equipe técnica e orçamento compatíveis com a quantidade de árvores da cidade?

Essas são perguntas legítimas.

O que não é legítimo é transformar dor humana em palanque, antes mesmo de saber se houve falha, omissão ou imprevisibilidade. Não é nenhum pouco plausível, muito menos produtivo, comentários de tipo arranquem todas as árvores das praçaslugar de árvore é na floresta, entre outros, que vimos por aí...

Também não é legítimo fazer o movimento oposto: usar a palavra “fatalidade” como escudo automático para impedir investigação. Acidente imprevisível existe. Mas a imprevisibilidade precisa ser demonstrada, não apenas proclamada.

O poder público não deve ser culpado por tudo. Mas deve estar preparado para explicar tudo.

Existe uma fantasia infantil na forma como muitas pessoas enxergam a vida urbana. Querem praças arborizadas, ruas sombreadas, feiras ao ar livre, parques bonitos, calçadas vivas e cidades menos hostis. Mas, ao mesmo tempo, ignoram que tudo isso exige manutenção, técnica, orçamento, poda, supressão quando necessária, reposição arbórea, fiscalização e decisões muitas vezes impopulares.

Quando uma árvore é removida preventivamente, alguém acusa a prefeitura de destruir o verde. Quando uma árvore cai, alguém acusa a prefeitura de não ter removido antes. Quando há reunião preventiva sobre clima, alguém chama de alarmismo. Quando vem a enchente, alguém pergunta por que ninguém se preparou.

Essa esquizofrenia cívica é uma das marcas do nosso tempo.

Queremos segurança sem custo, prevenção sem obra, fiscalização sem incômodo, cidade arborizada sem manejo, drenagem eficiente sem intervenção urbana, Defesa Civil forte sem investimento e poder público infalível sem admitir que a vida concreta possui riscos residuais.

Não existe cidade sem risco. Existe cidade que conhece seus riscos, monitora seus riscos, reduz seus riscos e responde melhor quando eles se materializam.

Essa é a diferença entre gestão e improviso.

É preciso abandonar dois vícios igualmente ruins:

O primeiro é o vício da culpabilização automática. A cada acidente, antes de qualquer dado, já se aponta o dedo. A prefeitura é culpada. O prefeito é culpado. O secretário é culpado. O servidor é culpado. O engenheiro é culpado. A árvore cai e a sentença já está pronta. A árvore é culpada!

Esse comportamento não é justiça. É preguiça mental com verniz de indignação.

O segundo vício é a absolvição automática. Tudo vira “fatalidade”, “força da natureza”, “impossível prever”, “ninguém poderia fazer nada”. Esse discurso também é perigoso, porque pode esconder omissão, desorganização ou precariedade técnica.

O caminho correto é outro: apuração.

Apurar não é perseguir. Apurar é esclarecer. É verificar se protocolos foram cumpridos, se eram adequados, se havia sinais prévios, se houve resposta rápida, se a manutenção estava em dia, se o sistema precisa ser corrigido e se alguém deve ser responsabilizado.

Numa sociedade minimamente séria, a pergunta não é “como uso isso contra meu adversário político?”. A pergunta é: “o que este evento revela sobre a nossa capacidade de prevenir e responder?”.

As redes sociais deram voz a muita gente. Isso foi bom. Mas também deram megafone a uma multidão que confunde opinião com conhecimento e raiva com lucidez.

O hater não quer entender; Quer reagir. Não quer melhorar a cidade; Quer vencer uma disputa imaginária. Não quer proteger vidas; Quer humilhar alguém. Não quer apuração; Quer culpados convenientes.

Se o prefeito se antecipa, é oportunista. Se não se antecipa, é omisso. Se poda árvore, destrói o meio ambiente. Se não poda, é irresponsável. Se convoca reunião, faz politicagem. Se não convoca, negligencia. Se comunica risco, espalha pânico. Se não comunica, esconde informação.

Esse tipo de comportamento não é fiscalização. É sabotagem do debate público.

E a consequência é grave: gestores passam a se preocupar mais com a reação digital do que com a decisão tecnicamente correta. Técnicos passam a ser desautorizados por clamor de rede. Políticas públicas viram reféns de frases de efeito. A prevenção perde espaço para a encenação.

Quando tudo vira disputa política, exacerbação de ego e ataque cego, nada é tratado com a seriedade que merece.

A resposta correta para o El Niño não é discurso. É plano.

Cada município deveria ter, de forma clara e pública, um plano de contingência atualizado para eventos climáticos extremos. Não um documento esquecido em gaveta, mas um protocolo operacional conhecido pelas equipes envolvidas.

É preciso mapear áreas de risco, atualizar cadastros de famílias vulneráveis, identificar escolas e ginásios que possam servir de abrigo, treinar equipes, revisar rotas de evacuação, garantir comunicação rápida com a população, limpar sistemas de drenagem e estabelecer canais diretos entre Defesa Civil, saúde, assistência social, segurança, obras e meio ambiente.

Também é necessário investir em comunicação pública simples. A população precisa saber o que fazer antes, durante e depois de uma emergência. Alerta que ninguém entende não salva ninguém. Sirene que ninguém reconhece não evacua ninguém. Aplicativo que ninguém usa não protege ninguém.

No caso da arborização urbana, as cidades precisam de inventário arbóreo georreferenciado, classificação de risco, vistorias periódicas, critérios técnicos de poda e remoção, registro público de intervenções e equipes capacitadas. Árvores não podem ser tratadas apenas como paisagem. Elas são infraestrutura viva.

Isso não significa sair cortando árvores de forma irresponsável. Pelo contrário. Significa cuidar melhor delas. Arborização urbana séria não é nem abandono romântico nem motosserra histérica. É manejo técnico.

A tragédia da Praça Osório não deve ser usada como munição política. Deve ser usada como alerta. O possível El Niño forte não deve ser usado como terror climático. Deve ser usado como chamado à preparação.

Entre a demagogia e a omissão existe um caminho mais difícil: o da responsabilidade.

Responsabilidade do poder público, que deve planejar, executar, prestar contas e corrigir falhas. Responsabilidade dos órgãos técnicos, que devem agir com rigor, transparência e independência. Responsabilidade da imprensa, que deve informar sem explorar a dor alheia. Responsabilidade da população, que deve cobrar sem linchar, fiscalizar sem inventar, indignar-se sem perder a razão. E responsabilidade de todos nós, que precisamos reaprender a distinguir acidente de negligência, prevenção de alarmismo, crítica de ódio e política pública de palanque.

Porque a cidade real não se governa com meme. Não se protege uma população com comentário raivoso. Não se evita desastre com lacração, nem com cinismo.

Prevenir catástrofes exige técnica, orçamento, coordenação e coragem administrativa.

Investigar acidentes exige serenidade, perícia e transparência.

E discutir tudo isso exige algo que anda escasso: maturidade.

A queda de um galho pode ser um acidente imprevisível. Uma enchente pode ser agravada por décadas de descaso. Um evento climático pode ser natural, mas seus efeitos são profundamente sociais. O que não podemos é continuar respondendo a temas complexos com a brutalidade simplória das redes.

A natureza não negocia com a nossa ignorância.

E a realidade, ao contrário dos haters, não está interessada em lacrar.