Por Diego de Almeida
Em primeiro lugar, quero dizer que eu não entendo nada de futebol; mas entendo de comportamento humano, entendo de gente...
A eliminação do Brasil para a Noruega não foi apenas uma derrota esportiva. Foi mais um capítulo de uma decadência simbólica que já vinha sendo percebida por observadores dentro e fora do país: a Seleção Brasileira parece ter perdido não apenas jogos, mas também parte de sua alma coletiva.
Há algum tempo, publicações chinesas já apontavam para a corrosão do chamado “futebol samba”, ou “futebol arte”, substituído por uma versão europeizada, funcional, previsível e menos criativa do jogo brasileiro. A crítica não era simples nostalgia. O ponto era mais profundo: o Brasil ainda revela bons atletas, mas já não parece formar jogadores que carreguem, juntos, uma identidade reconhecível. A ginga virou exceção. A alegria virou marketing. A camisa amarela, antes símbolo de invenção e coragem, parece agora pesar menos do que a imagem individual de quem a veste. Sohu
A derrota por 2 a 1 para a Noruega, nas oitavas de final da Copa do Mundo, escancarou essa crise. A Reuters descreveu uma seleção envelhecida em peças importantes, lenta, previsível e sem clareza de jogo. O Guardian foi ainda mais direto ao levantar a pergunta incômoda: o Brasil ainda é uma equipe ou se tornou apenas uma marca? Reuters The Guardian
Essa pergunta dói porque parece verdadeira. A Seleção Brasileira, por muitos anos, foi a expressão máxima de uma coletividade artística. O talento individual existia, e como existia, mas servia a uma ideia maior. Pelé, Garrincha, Zico, Sócrates, Romário, Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho e tantos outros tinham brilho próprio, mas esse brilho se integrava a uma narrativa coletiva. O craque encantava porque jogava pelo jogo, pelo povo, pela camisa, pela história.
Hoje, muitas vezes, o que se vê é outra coisa: atletas mais preocupados em performar uma persona do que em construir uma equipe. O futebol virou palco de autopromoção permanente. Cada gesto parece pensado para o corte de vídeo, para a postagem, para a provocação viral, para o contrato publicitário, para a monetização da própria imagem. E, nesse ambiente, a camisa da Seleção deixa de ser destino e passa a ser vitrine.
A crítica não deve ser infantil. O futebol moderno é profissional, bilionário, midiático e comercial. Ninguém espera que atletas de elite vivam como monges românticos do esporte. O problema começa quando a publicidade engole o propósito; quando a aposta, o clique, o patrocínio e a vaidade pública parecem ocupar o espaço antes reservado ao compromisso, à disciplina e à entrega coletiva.
É nesse contexto que o comportamento de Neymar na eliminação ganhou tanta carga simbólica. Ao converter um pênalti já nos acréscimos, com o Brasil ainda derrotado e praticamente eliminado, ele se envolveu em provocação com o goleiro norueguês. O G.E. registrou a reação negativa nas redes, com muitos torcedores considerando a atitude inadequada para o momento. ge
A cena foi pequena no placar, mas enorme no significado. O Brasil estava caindo. A seleção fazia sua pior campanha em Copas desde 1990. O país assistia a mais um fracasso coletivo. E, naquele instante, a imagem que ficou foi a de uma provocação individual, uma afirmação de ego, uma espécie de “eu ainda estou aqui”, mesmo quando o time já não estava.
Neymar, evidentemente, não é o único culpado. Seria simplista e injusto reduzir a eliminação a ele. Houve erros de convocação, escolhas táticas discutíveis, falta de intensidade, envelhecimento de peças importantes, deficiência criativa no meio-campo e uma incapacidade coletiva de responder à pressão. Mas Neymar se tornou o símbolo maior dessa geração porque concentrou, em sua trajetória, a contradição central do futebol brasileiro recente: talento imenso, números expressivos, fama global, mas uma incapacidade persistente de transformar brilho individual em conquista coletiva.
Depois do jogo, ele indicou sua despedida da Seleção, dizendo que tentou e que “agora acabou”. Sai com 80 gols e 58 assistências em 130 partidas, números gigantescos, mas sem Copa do Mundo. A imprensa chinesa chegou a tratá-lo como o “último dançarino do samba”, sugerindo que sua saída fecha simbolicamente uma era do futebol brasileiro. Reuters Guangming/The Paper
Mas talvez essa leitura seja generosa demais. Neymar pode ter sido o último grande representante técnico de uma certa estética brasileira, mas também foi o rosto de uma transição problemática: do craque-artista para o craque-marca; do camisa 10 como maestro para o influenciador em chuteiras; do futebol como expressão cultural para o futebol como produto de engajamento.
A brasilidade do nosso futebol nunca foi apenas drible. Era irreverência com responsabilidade, improviso com coragem, beleza com fome de vitória. Era jogar bonito não para humilhar o adversário ou alimentar o próprio ego, mas porque o Brasil compreendia o jogo de uma forma própria, quase musical. A arte estava na inteligência coletiva, na troca de passes, na movimentação, na alegria compartilhada.
Quando essa arte vira apenas pose, ela morre. Quando a vaidade ocupa o lugar da entrega, ela apodrece. Quando o jogador se preocupa mais com a própria narrativa do que com o destino do time, a coletividade desaparece. E quando a coletividade desaparece, o Brasil deixa de ser Brasil, mesmo vestindo amarelo.
A reconstrução da Seleção não será feita apenas trocando treinador, renovando elenco ou convocando jovens promessas. Isso é necessário, mas insuficiente. O Brasil precisa recuperar uma ética de camisa. Precisa voltar a entender que jogar pela Seleção não é uma extensão da carreira individual, nem uma plataforma de conteúdo, nem uma campanha publicitária em escala mundial. É representação nacional. É responsabilidade histórica. É pertencimento.
O futebol brasileiro não precisa escolher entre arte e organização. Essa é uma falsa oposição. O que ele precisa abandonar é a vaidade sem grandeza, o individualismo sem consequência, a pose sem entrega. A verdadeira arte nunca foi inimiga da coletividade. Ao contrário: no melhor futebol brasileiro, o indivíduo brilhava porque o conjunto respirava junto.
A derrota para a Noruega não enterrou apenas uma campanha. Ela expôs uma pergunta que o Brasil já não pode evitar: queremos voltar a ser uma seleção ou continuaremos satisfeitos em ser uma vitrine de estrelas isoladas?
Porque camisa não se honra com dancinha, provocação, publi ou frase de efeito. Camisa se honra com jogo, entrega, lucidez e compromisso. O resto é vaidade. E vaidade, em Copa do Mundo, não levanta taça.
