quarta-feira, 22 de abril de 2026

Osmar que vem pra bem! Adeus, padrinho.



Por: Diego de Almeida

Há textos que se escrevem com a razão. Outros, inevitavelmente, são ditados pela memória, e estes, quase sempre, vêm embebidos de saudade.

“Estimado”. Assim, com essa simplicidade carregada de afeto, meu padrinho me saudava a cada encontro: “Meu estimado!”. E não era apenas uma palavra escolhida ao acaso. Era, antes, um retrato fiel daquilo que ele próprio era: querido, respeitado, benquisto. Um homem que fazia jus, em vida, ao adjetivo que tão generosamente distribuía.

O Padrinho Osmar Vieira tinha dessas presenças que não se impõem, acolhem. Voz mansa, sorriso largo, gestos sempre afetuosos. Cardíaco de longa data, é verdade… mas ouso dizer que seu coração não sucumbiu à doença; talvez tenha apenas se rendido ao excesso de amor que carregava.

Partiu no dia de Tiradentes. Data cívica, de memória e de significado. E há, nisso, uma certa poesia silenciosa, como se até o calendário tivesse escolhido um dia digno para a despedida.

Jornalista por formação, diácono permanente por vocação. Quase trinta anos de ministério vividos com entrega genuína, dessas que não pedem reconhecimento, mas deixam marcas profundas. Estava sempre disponível: uma palavra de consolo, uma escuta paciente, uma presença discreta nas horas difíceis. Não importava o horário, não importava o cansaço.

Quando eu fui crismado (sacramento católico), ele me deu uma bíblia, que guardo com carinho até hoje... não leio tanto quanto deveria, mas está lá no meu quarto, sempre ao alcance da mão, se precisar. 

E quando eu entrei pra faculdade de medicina, em 1998, passávamos por um período complicado. então foi ele que deu o dinheiro pra eu comprar o meu primeiro livro médico: Atlas de Anatomia Humana de Yokochi! Foram 98,00 reais... uma fortuna, na época! Ele nunca fez menção de cobrar algo em troca...

Era sério quando necessário, mas, na maior parte do tempo, era um verdadeiro pândego. Brincava com tudo. Inclusive com o próprio nome. Dizia, com aquele sorriso maroto: “Erraram na concordância… o certo era O Mar, e não Osmar… embora haja Os mar que vêm pra bem…”. E vinha mesmo. Tanto que, até no hospital, já o conheciam como “o Osmar que vem pra bem”.

Havia nele uma leveza quase desconcertante diante da vida. Dizia que gostava de acordar cedo, não por disciplina rígida, mas para “ter mais tempo sem fazer nada depois”. E acordava mesmo. Quatro da madrugada já o encontravam de pé. Entre uma oração e outra (e não eram poucas), lá estava ele, fiel ao seu ritual: chimarrão em mãos, proseando com o Sr. Antônio, seu sogro, como quem cultiva o tempo em estado bruto.

Depois, vinha o cuidado com o corpo, ou algo próximo disso. Tinha o hábito (ou seria o exagero?) de consumir uma quantidade quase mítica de frutas pela manhã. Doze? Dezesseis? Confesso que a memória falha… mas a imagem permanece: um homem simples, cercado de cores, sabores e exageros que só faziam sentido dentro da lógica muito própria de sua alegria de viver.

Aliás, ele próprio dizia que comia apenas uma vez ao dia: “Começo de manhã e termino à noite”. E dizia isso com a naturalidade de quem encontrou, à sua maneira, um jeito leve de atravessar o cotidiano.

Quem o visse de relance — figura miúda, aparência comum — dificilmente perceberia a grandeza que ali habitava. Mas bastava sentar-se ao seu lado por alguns minutos… e estava feito: conquistava. Sem esforço, sem intenção. Apenas sendo.

Deixou uma esposa dedicada, três filhos bem formados, netos que certamente herdarão algo dessa luz tranquila. Deixou amigos — muitos. Talvez mais do que ele próprio pudesse contar.

Mas, sobretudo, deixou aquilo que não se inventa nem se substitui: um legado silencioso de presença, de serviço e de bondade cotidiana. Dessas virtudes que não fazem alarde, mas que sustentam o mundo sem que percebamos.

Mais de três décadas de dedicação à Igreja e à comunidade não se encerram com um adeus. Permanecem. Ecoam. Continuam a agir, de algum modo, naqueles que foram tocados por sua passagem.

E, sim: fará falta. Uma falta mansa, daquelas que não gritam, mas que se instalam devagar, nos pequenos detalhes: no cumprimento que não virá, na piada que não será contada, na cadeira que permanecerá vazia.

Ide em paz, meu estimado padrinho Osmar.

Se houve, de fato, um erro de concordância em seu nome… foi apenas na gramática. Porque, na vida, o senhor foi, com absoluta precisão, alguém que veio para o bem.





quarta-feira, 15 de abril de 2026

Vai dar tempo — até o dia em que não dá mais


 
Por Diego de Almeida

🚂 Vai dar tempo — até o dia em que não dá mais

Meus caros,

Há coisas na vida que não deveriam precisar de estatística para nos ensinar, mas, ainda assim, insistem em se repetir com uma regularidade quase didática.

No Paraná, mais de uma centena de acidentes ferroviários ocorrem por ano. Em Curitiba, algumas dezenas, todos os anos. 

E, na esmagadora maioria das vezes, o roteiro é o mesmo:

Um veículo diante da linha férrea. Um trem em aproximação. E uma decisão.

Não é o acaso que governa esse encontro. É algo bem mais humano e, por isso mesmo, mais perigoso.

A cena é sempre banal, até deixar de ser; O trem vem... Grande. Barulhento. Inevitável! Não se esconde. Não desvia. Não negocia...

O motorista olha. Calcula. Hesita por um segundo, ou nem isso. E então decide: “Vai dar tempo.”

Essa frase não é dita em voz alta. Mas está ali, inteira, sustentando a ação.

E, convenhamos, na maioria das vezes… dá mesmo.

O carro passa. A vida segue. E o cérebro registra aquilo como prova de que o cálculo foi correto.

Mas não foi. Foi apenas tolerado pela sorte. O erro que se repete porque funciona, até falhar!

Entrementes, é aqui que mora o engano mais sutil.

O problema não é o erro em si. É o sucesso repetido do erro.

Porque cada travessia bem-sucedida reforça a ilusão de controle. Cada “quase” invisível alimenta a confiança. E assim se constrói uma convicção silenciosa: “Eu sei o que estou fazendo.”

Até o dia em que o trem não está tão longe quanto parecia. Até o dia em que a margem desaparece. Até o dia em que o tempo deixa de ser suficiente...

E, nesse dia, não há habilidade que compense. Não há reflexo que resolva. Não há decisão que reverta.

Porque a decisão já foi tomada antes; muito antes! 

Há um ponto que ninguém vê: Existe, em toda linha férrea, um ponto invisível. Um ponto em que o trem já não consegue parar e o veículo já não consegue sair. A partir dali, tudo o que resta é consequência.

O mais desconcertante é que esse ponto não se anuncia. Não há placa. Não há aviso. Não há sinal. Ele simplesmente é ultrapassado, quase sempre sem que se perceba.

E, quando se percebe, já não importa mais...

Agora, retire o trem da cena e observe:

Esse mesmo mecanismo se repete, com uma fidelidade incômoda, em outras áreas da vida.

No trabalho, quando o prazo ainda parece distante.
Na relação, quando o incômodo ainda é pequeno.
Na rotina, quando o desgaste ainda é tolerável.

“Depois eu resolvo.” “Ainda dá tempo.” “Está sob controle.”

Palavras diferentes. A mesma lógica.

A vida não buzina! Aqui reside uma diferença cruel.

O trem ainda avisa; Ele apita. Vibra. Anuncia sua presença. Ele dá sinais claros de que está vindo, e vindo forte.

A vida, não...

Ela não buzina antes de cobrar. Ela não reduz a velocidade para facilitar o seu cálculo. Ela não se importa com a sua percepção de tempo. 

Ela apenas segue, e cobra.

Cobra sempre e caro, pelo atraso que não parece atraso...

No trabalho, o atraso não começa no dia do prazo. Ele começa no primeiro adiamento irrelevante. Na primeira tarefa “que pode esperar”. Na primeira vez em que você confunde folga com margem... E, quando você percebe, não está mais trabalhando, está tentando compensar.

Mas compensar não é resolver. É apenas correr atrás de algo que já se perdeu. É o famoso correr atrás do prejuízo!

Nos relacionamentos, o erro é ainda mais silencioso.

Não é o grande conflito que destrói, mas sim, são os pequenos silêncios acumulados; A conversa que não aconteceu. O incômodo que foi engolido. A distância que foi tolerada.

Até que, um dia, não há mais o que dizer. E, curiosamente, ninguém sabe exatamente quando começou. Mas começou cedo. Muito cedo!

Se há uma ilusão que nos acompanha com persistência, é esta: A de que sempre haverá um “depois” disponível para correção. Mas nem tudo na vida permite correção tardia. 

Algumas decisões são como cruzamentos ferroviários: Elas exigem precisão antes, não reação depois.

O que deveria nos inquietar, então?

Não é o acidente em si. É o fato de que ele é previsível. Não nos detalhes, mas na essência.

Ele não acontece porque alguém quis que acontecesse. Ele acontece porque alguém acreditou, com sinceridade, que daria tempo.

E essa é, talvez, a forma mais perigosa de erro: Aquela que parece razoável no momento em que é cometida. 

Em última análise, não é sobre o trem. Nunca foi. É sobre a confiança excessiva na própria capacidade de calcular o tempo, o risco e a margem.

É sobre ultrapassar, sem perceber, o ponto em que ainda seria possível parar.

E é, sobretudo, sobre reconhecer antes, aquilo que, depois, já não terá solução.

Meus caros, a vida não costuma anunciar seus pontos de não retorno. Ela apenas os atravessa conosco. E, quando percebemos, já estamos do outro lado.

“Não é o impacto que destrói; é a decisão tomada (ou não) quando ainda parecia que daria tempo.”

quarta-feira, 8 de abril de 2026

Inverno da Alma - Quando a vida real não cabe na tela...

 

fonte: https://www.instagram.com/p/DW1eYJfjdul/


Por Diego de Almeida


Carlos Filhar, 47 anos, psicólogo, influenciador digital em ascensão... Uma vida interrompida abruptamente em um ato auto-infligido. 

Há algo de profundamente inquietante nos acontecimentos recentes. Não pelo espetáculo, que infelizmente sempre se forma, mas pelo silêncio que vem antes dele. Um silêncio que, muitas vezes, passa despercebido em meio a stories, reels, likes e comentários.

Vivemos tempos curiosos. Nunca estivemos tão expostos, e talvez nunca tenhamos estado tão sós.

As redes sociais criaram uma espécie de vitrine permanente da vida. Ali, tudo parece organizado, bonito, coerente. Relacionamentos são felizes, rotinas são produtivas, corpos são saudáveis, emoções são controladas. Mas essa vitrine, meus caros, não é a casa; é apenas a fachada.

E o problema começa exatamente aí.

Porque quando a vida real, com suas falhas, dores, frustrações e imperfeições, começa a destoar da imagem construída, surge um conflito silencioso. Um desalinhamento entre aquilo que se vive e aquilo que se mostra. E sustentar essa discrepância, dia após dia, cobra um preço alto.

Relacionamentos, que já são complexos por natureza, tornam-se ainda mais frágeis quando atravessados pela lógica da exposição. O amor, que deveria ser espaço de acolhimento e verdade, passa a disputar lugar com validação externa, comparação constante e expectativas irreais.

E quando algo se rompe, como inevitavelmente acontece na experiência humana, a queda não é apenas emocional. Ela é amplificada. Tornada pública. Comentada. Julgada. Compartilhada.

Mas é preciso dizer com clareza: nenhuma ruptura afetiva, por mais dolorosa que seja, explica sozinha um colapso emocional profundo. Quando alguém chega ao limite, há quase sempre um histórico silencioso por trás, um acúmulo de dores não elaboradas, de cansaços não verbalizados, de pedidos de ajuda que passaram despercebidos.

E é justamente aqui que devemos deslocar o foco.

Não para o evento em si. Não para a curiosidade mórbida. Não para o julgamento fácil. Mas para aquilo que ele revela.

Quantas pessoas ao nosso redor estão sustentando, em silêncio, uma luta interna semelhante? Quantas estão funcionando, produzindo, sorrindo e, ainda assim, esgotadas por dentro? Quantas vezes ignoramos sinais sutis, porque não são escandalosos o suficiente para chamar atenção?

A depressão raramente grita. Ela costuma sussurrar. E, com frequência, é interpretada como “fase”, “drama” ou “fraqueza”.

Não é.

É doença. É sofrimento real. E, sobretudo, é tratável, desde que haja escuta, acolhimento e intervenção adequada.

Se há uma responsabilidade que podemos assumir diante de tudo isso, ela não é a de explicar o ocorrido, mas a de agir no que nos cabe.

Prestar mais atenção. Perguntar com mais honestidade: “você está bem, de verdade?” 

Ouvir sem interromper, sem corrigir, sem minimizar.

E, quando necessário, orientar e incentivar a busca por ajuda profissional, psicólogos, psiquiatras, redes de apoio. Carlos é a prova que psicólogo não faz auto-análise; Quando estamos no fundo do poço, a corda de salvação precisa vir de fora!

Da mesma forma, é preciso reconhecer algo incômodo: o sucesso nas redes sociais não é sinônimo de estabilidade emocional. Visibilidade não protege ninguém. Curtidas não substituem vínculos reais. Seguidores não são, por si só, rede de suporte.

Há uma diferença fundamental entre ser visto e ser amparado.

E talvez este seja o ponto mais importante de todos.

A vida que importa continua acontecendo fora da tela. Nos encontros reais. Nas conversas difíceis. Nos silêncios compartilhados. Nos gestos pequenos, mas constantes.

Se você que lê este texto se reconhece, ainda que parcialmente, em algum desses sinais - cansaço persistente, desânimo, sensação de vazio, dificuldade de seguir - não normalize isso como algo que “vai passar sozinho”.

Procure ajuda. Fale com alguém! Não carregue sozinho um peso que pode, e deve, ser dividido.

E, se você conhece alguém que possa estar nessa condição, não espere um pedido explícito. Muitas vezes, ele não virá.

Aproxime-se.

A presença, quando verdadeira, pode ser mais terapêutica do que qualquer discurso elaborado.

Entrementes, talvez a maior lição silenciosa deste episódio seja esta: precisamos reconstruir espaços de humanidade fora da lógica do espetáculo. Relações mais reais, menos performáticas. Mais profundas, menos expostas. Mais verdadeiras, menos perfeitas.

Porque, no fim, o que sustenta alguém não é a imagem que ele projeta, mas os vínculos que ele tem.

E estes, felizmente, ainda dependem muito menos de algoritmos e muito mais de nós.

“Há dores que não fazem barulho — mas são justamente as que mais precisam ser ouvidas.”