quarta-feira, 19 de agosto de 2026

O QUE JÁ FOI ESCONDIDO E HOJE JÁ NÃO É...

 


Por Diego de Almeida


A glamourização do “job”, a economia da atenção e aquilo que estamos ensinando aos nossos filhos

Tenho assistido, com frequência cada vez maior, a vídeos e entrevistas de homens e mulheres que se apresentam abertamente como profissionais do sexo, produtores de conteúdo adulto ou, para usar a expressão que se popularizou nas próprias redes, profissionais do “job”.

Não estou falando de uma investigação sobre os subterrâneos da prostituição, de documentários sobre vulnerabilidade social ou de reportagens tratando de exploração sexual. É quase o contrário.

São podcasts. Cortes de entrevistas. Reels. TikToks. Conversas descontraídas.

Falam de clientes, preferências, experiências, viagens, presentes, valores cobrados e, principalmente, dinheiro.

Muito dinheiro.

Alguns contam quanto faturam por mês. Outros mostram carros, apartamentos, viagens e uma vida de consumo confortável. Há histórias do tipo “larguei meu emprego e comecei a ganhar dez vezes mais”. Tudo contado sem constrangimento aparente e, não raramente, com indisfarçável orgulho.

Confesso: isso me incomoda.

E seria fácil reduzir meu incômodo a moralismo.

Seria igualmente fácil responder que cada adulto faz com o próprio corpo aquilo que deseja, desde que dentro da lei e mediante consentimento. E é verdade. Mas não é disso que estou falando.

Também seria fácil atribuir minha reação à inveja de quem ganha mais. Seria uma leitura preguiçosa. Mas meu desconforto é outro.

Passei muitos anos estudando para exercer uma profissão. Somando graduação e formação posterior, foram cerca de onze anos até chegar a determinado grau de qualificação profissional. Como médico, cada decisão que tomo envolve conhecimento, responsabilidade, risco, atualização permanente e consequências concretas sobre a vida de outras pessoas.

Ainda assim, não é difícil encontrar alguém relatando que, vendendo conteúdo sexual ou encontros, recebe em alguns dias aquilo que profissionais altamente qualificados levam semanas ou meses para ganhar.

A princípio, alguma coisa parece fora do lugar.

Mas talvez a pergunta correta não seja: “Por que uma prostituta pode ganhar mais do que um médico?”

A pergunta mais incômoda é outra: o que aconteceu com uma sociedade na qual exposição, intimidade e capacidade de chamar atenção podem ser economicamente mais valiosas do que anos de formação, conhecimento e responsabilidade?

É aí que a conversa começa a ficar interessante.

O fenômeno existe, não é apenas impressão

Antes de qualquer julgamento, convém olhar os números.

O OnlyFans não é exclusivamente uma plataforma de conteúdo sexual, embora seja mundialmente associado a esse mercado. Nas últimas contas disponíveis de sua controladora, referentes ao exercício encerrado em novembro de 2024, a plataforma possuía cerca de 4,6 milhões de contas de criadores e 377,5 milhões de contas de fãs. Os usuários movimentaram aproximadamente US$ 7,2 bilhões no período, dos quais cerca de US$ 5,8 bilhões foram destinados aos criadores.

Estamos falando de bilhões de dólares.

Portanto, não se trata mais de uma atividade escondida em alguma viela moral da sociedade. Há uma infraestrutura digital sofisticada capaz de transformar sexualidade, intimidade e interação pessoal em um mercado global de gigantesca escala.

Mais interessante ainda é observar como se chega ao consumidor.

Um estudo publicado em 2025, baseado em três anos de etnografia digital e entrevistas com criadores adultos, demonstrou que trabalhar no OnlyFans frequentemente exige construir uma marca pessoal em várias outras redes. Instagram, X, Telegram e outras plataformas funcionam como vitrines para produzir atenção e conduzir consumidores até onde ocorre a monetização. Os próprios autores descrevem uma aproximação entre trabalho sexual, produção de conteúdo e self-branding.

Isso muda bastante a interpretação daqueles vídeos que aparecem em nossas telas.

A profissional que concede uma entrevista dizendo quanto ganha pode estar contando sua história. Mas pode estar fazendo muito mais do que isso. Está construindo marca. Está produzindo curiosidade. Está atraindo seguidores. Está adquirindo clientes.

Em outras palavras, falar sobre quanto dinheiro se ganha vendendo sexo pode ser parte do próprio negócio de vender sexo.

A ostentação deixa de ser apenas consequência do sucesso. Torna-se publicidade.

A velha prostituição encontrou a economia da atenção

Nada disso começou com o OnlyFans, óbvio. Prostituição, pornografia, voyeurismo e comércio da sexualidade são muito anteriores à internet. 

A novidade é outra.

Pela primeira vez na história, praticamente qualquer pessoa dispõe no bolso de uma infraestrutura capaz de alcançar milhões de outras pessoas, sem televisão, editora, gravadora, jornal, agência de modelos ou produtor.

A matéria-prima desse sistema é a atenção.

E atenção é um recurso estranho...

Podemos produzir conteúdo praticamente sem limite, mas ninguém consegue fabricar uma vigésima quinta hora para assistir a ele.

Por isso, bilhões de pessoas e empresas competem pelos mesmos olhos.

Nesse ambiente, aquilo que provoca reação leva vantagem.

Sexo provoca reação.

Beleza provoca reação.

Ostentação provoca reação.

Escândalo provoca reação.

Indignação também provoca reação!!!

E esse último ponto é particularmente irônico.

Às vezes vejo determinado vídeo justamente porque fiquei indignado com ele. Geralmente nem assisto até o fim... talvez leia os comentários, eventualmente vejo outro sobre o mesmo assunto. Os algoritmos nos encharcam de conteúdo similar após o primeiro clique... O algoritmo não sabe se fiquei admirado ou revoltado. Ele sabe que parei.

O próprio TikTok informa que seus sistemas utilizam interações do usuário, inclusive tempo de visualização, curtidas e outras formas de comportamento, para personalizar recomendações.

Meu repúdio, portanto, pode produzir para o algoritmo um sinal semelhante ao interesse.

Vejo um. Aparecem mais três... Depois dez.

Logo parece que o mundo inteiro aderiu ao “job”.

Parte dessa percepção pode ser real. Outra parte é produzida pelo espelho deformador do meu próprio feed.

Isso também precisa ser reconhecido.

Contudo, neste momento, aparece uma verdade economicamente elementar e moralmente desconfortável: O mercado não remunera necessariamente aquilo que é mais difícil.

Não remunera necessariamente aquilo que exige mais estudo.

Não remunera necessariamente aquilo que possui maior utilidade social.

E não remunera necessariamente aquilo que consideramos moralmente mais digno.

O mercado remunera aquilo que consegue produzir demanda e capturar receita. São coisas completamente diferentes.

Um professor pode transformar a vida intelectual de centenas de crianças e receber pouco; Um pesquisador pode participar da descoberta de algo que beneficiará milhões e jamais enriquecer; Uma enfermeira pode passar uma madrugada inteira cuidando de um paciente gravíssimo; Um jogador pode receber em uma semana mais do que todos eles juntos receberão durante anos.

Nada disso significa que a sociedade tenha realizado algum cálculo filosófico e concluído que chutar uma bola vale mais do que ensinar uma criança.

Significa apenas que os mecanismos de geração e apropriação de receita são diferentes.

O economista Sherwin Rosen já descrevia, em 1981, aquilo que chamou de economia das superestrelas: determinados mercados permitem que um número relativamente pequeno de indivíduos concentre grande parcela da atividade e obtenha rendimentos extraordinariamente superiores aos demais. A possibilidade de atender grandes mercados ao mesmo tempo é uma das peças desse mecanismo.

A internet colocou esse fenômeno sob efeito de esteroides!

O médico vende uma hora. O vídeo pode ser vendido dez mil vezes.

Aqui está talvez a diferença econômica mais importante de todas:

Quando faço uma consulta, aquele período da minha vida foi utilizado. Não posso realizar simultaneamente cem consultas. Quando participo de uma cirurgia, preciso estar fisicamente ali.

Existe paciente. Existe tempo. Existe responsabilidade. Existe limite.

Agora imagine uma pessoa produzindo determinado conteúdo digital: O trabalho de gravá-lo ocorre uma vez.

Depois disso, cem pessoas podem pagar para assisti-lo. Mil. Dez mil. Cem mil ou muito mais.

O custo de entregar a centésima milésima cópia é praticamente insignificante.

É a diferença entre trabalho linear e produto escalável.

Isso não acontece apenas com conteúdo sexual.

Acontece com livros, músicas, softwares, cursos gravados, filmes, jogos e diversos outros produtos intelectuais.

O que torna o conteúdo adulto particularmente eficiente nesse ambiente é a combinação de escalabilidade com um dos mais antigos impulsos humanos: sexualidade.

Acrescente ainda curiosidade, exclusividade, intimidade aparente e interação direta com o criador.

Está formado um produto comercial extremamente poderoso.

E então compreendemos como alguém cobrando cinquenta reais pode ganhar muito mais do que alguém cobrando quinhentos.

O primeiro pode vender cinquenta reais dez mil vezes sem trabalhar dez mil vezes mais.

O segundo continua preso às vinte e quatro horas do dia...

Mas existe um truque estatístico importante; Há outro detalhe que as entrevistas raramente contam.

Não vemos uma amostra aleatória dos profissionais desse mercado. Vemos os casos interessantes.

A história da pessoa que abriu uma conta, expôs sua intimidade e ganhou pouco não rende um grande corte de podcast.

Já a mulher que afirma faturar cem mil reais por mês produz título. Produz clique. Produz comentário. Produz indignação. Produz novos assinantes.

A economia dos criadores é fortemente concentrada no topo. Em dados de pagamentos de campanhas analisados pela CreatorIQ em 2025, por exemplo, os 10% de criadores mais bem remunerados receberam 62% do volume total de pagamentos, enquanto apenas o 1% do topo recebeu 21%. Esses números não se referem especificamente ao OnlyFans, mas demonstram como a própria economia dos criadores é profundamente assimétrica.

Portanto, quando uma profissional do sexo diz ganhar uma fortuna, três coisas podem ser verdadeiras simultaneamente: Ela pode estar dizendo a verdade. Pode representar uma minoria excepcionalmente bem-sucedida. E sua história pode induzir milhões de pessoas a imaginar que aquele rendimento seja comum.

É o velho viés do sobrevivente adaptado à era do Instagram. Vemos quem venceu! Os invisíveis continuam invisíveis.

Até aqui poderíamos encerrar a questão dizendo: “É o mercado.”

Mas seria pouco.

Porque mercados não funcionam apenas como mecanismos econômicos.

Eles também produzem símbolos. E símbolos ensinam.

Uma sociedade educa seus jovens não somente por aquilo que pais e professores dizem. Ela educa por aquilo que recompensa, exibe, admira e transforma em modelo de sucesso.

É justamente aí que meu incômodo deixa de ser econômico e passa a ser cultural.

Não me preocupa que uma mulher adulta, consciente e livre decida vender conteúdo sexual.

Não considero que eu tenha qualquer autoridade para decidir o que outro adulto deve fazer com a própria vida.

O que me preocupa é outra coisa: o que acontece quando essa escolha deixa de aparecer apenas como uma possibilidade individual e começa a ser apresentada aos jovens como uma espécie de atalho glamouroso para dinheiro, autonomia e reconhecimento?

Essa hipótese já merece atenção científica.

Em 2025 foi publicado um estudo particularmente incômodo com 164 estudantes de 12 a 16 anos, em Guadalajara, na Espanha. Os pesquisadores investigaram a percepção dos adolescentes sobre a promoção do OnlyFans nas redes sociais.

O resultado exige cautela porque se trata de uma amostra específica, em determinada região, e não autoriza generalizações para todos os adolescentes nem para o Brasil.

Ainda assim, o sinal é inquietante.

Os participantes demonstravam conhecimento da plataforma e alguns relatavam acesso apesar de serem menores. Mais importante, os pesquisadores encontraram entre os adolescentes a percepção do OnlyFans como alternativa profissional atraente, especialmente para meninas que correspondessem aos padrões de beleza. O trabalho também identificou minimização de riscos e discursos associados a autonomia sexual e vantagens econômicas.

Aqui a discussão muda completamente. 

Porque já não estamos falando apenas sobre adultos escolhendo livremente uma atividade.

Estamos falando sobre formação de expectativas.

O problema não é o sexo. É a pedagogia do sucesso fácil.

Toda geração aprende observando quem parece vencer.

Durante décadas, crianças foram ensinadas, para o bem e para o mal, que determinadas rotas ofereciam reconhecimento e ascensão: estudar; aprender uma profissão; tornar-se competente; trabalhar; acumular experiência; construir patrimônio.

Naturalmente nunca foi tão simples.

Havia herdeiros, celebridades, jogadores, artistas, aventureiros e toda sorte de exceções. Mas a narrativa central permanecia relativamente intacta: prepare-se hoje para colher amanhã.

A economia da atenção introduziu outra narrativa: exponha-se hoje e talvez enriqueça amanhã.

O perigo não está em algum adolescente efetivamente tornar-se influenciador ou criador de conteúdo. Muitos produzirão trabalhos excelentes, educativos, artísticos ou empresariais.

O problema está na mensagem mais profunda de que visibilidade pode substituir competência. Que audiência pode substituir autoridade. Que popularidade pode substituir conhecimento. Que parecer bem-sucedido pode tornar-se mais importante do que construir alguma coisa.

E, no extremo sexual dessa economia, que o próprio corpo e a própria intimidade constituem um capital imediatamente monetizável.

É uma mudança cultural de grande magnitude.

Há algo especialmente desconcertante para quem pertence às chamadas profissões tradicionais.

A formação continua longa. A responsabilidade continua elevada. Mas a percepção de exclusividade diminuiu.

A Demografia Médica no Brasil 2025, produzida pela Faculdade de Medicina da USP em colaboração com o Ministério da Saúde e outras instituições, registrou centenas de milhares de profissionais no país, com expansão contínua da força de trabalho médica e importantes transformações na formação e distribuição de especialistas. O levantamento também discute renda e vínculos profissionais.

Isso significa que mesmo uma formação extremamente difícil não suspende as leis de oferta e demanda.

O médico pode estudar onze, doze anos, ou mais. Pode continuar estudando pelo resto da vida. Pode assumir responsabilidade civil, ética e criminal por seus atos.

Mas continua inserido em um mercado no qual hospitais, operadoras, cooperativas, Estado, clínicas e inúmeros intermediários participam da divisão da receita.

Sua qualificação produz valor.

Isso não significa que ele consiga capturar financeiramente todo esse valor.

Enquanto isso, um criador digital pode vender diretamente ao consumidor mundial.

A questão econômica, portanto, não é saber quem “merece” ganhar mais.

A pergunta correta é: quem possui melhor mecanismo para transformar aquilo que tem em receita?

E, nesse quesito, a economia digital é implacável.

Talvez seja aqui que minha preocupação se torne mais pessoal.

Tenho filhos.

Tenho netos.

E, quando observo essas transformações, não estou pensando apenas no presente.

Pergunto-me qual será a escala de valores oferecida à geração deles. 

Não gostaria que crescessem acreditando que uma profissão vale menos porque paga menos. 

Não gostaria que confundissem salário com mérito.

Não gostaria que imaginassem que alguém que possui milhões de seguidores necessariamente possui algo importante a dizer.

Não gostaria que concluíssem que a maneira mais racional de viver seja escolher sempre aquilo que oferece maior retorno financeiro imediato.

E, principalmente, não gostaria que aprendessem que tudo aquilo que pode ser monetizado deve necessariamente ser colocado à venda.

Porque esse talvez seja o ponto mais delicado de todos.

A tecnologia está progressivamente retirando as fronteiras entre vida e produto. A casa virou cenário. A família virou conteúdo. O relacionamento virou conteúdo. A gravidez virou conteúdo. O sofrimento virou conteúdo. A cirurgia virou conteúdo. A opinião virou conteúdo. O corpo virou conteúdo. A intimidade virou conteúdo.

E aquilo que vira conteúdo pode virar dinheiro.

A pergunta que resta é se deveria.

Talvez a verdadeira pobreza seja não saber o preço do que não tem preço...

Não tenho qualquer intenção de fazer uma cruzada contra prostitutas, acompanhantes ou criadores de conteúdo adulto. Seria intelectualmente pobre e humanamente injusto.

Existem histórias, circunstâncias, escolhas, necessidades e realidades muito diferentes por trás de cada pessoa.

Também não sustento a fantasia de que antigamente vivíamos numa sociedade moralmente superior. A prostituição sempre existiu. A exploração também. A hipocrisia talvez fosse até maior.

O que mudou foi a vitrine.

O bordel ganhou algoritmo. A garota de programa ganhou seguidores. O anúncio ganhou narrativa de empreendedorismo.

E o que antes era oferecido discretamente ao cliente adulto passou também a circular como espetáculo diante de adolescentes.

Essa transformação merece ser discutida sem puritanismo, mas também sem ingenuidade.

Há enorme diferença entre defender a liberdade de um adulto e glamourizar uma escolha para quem ainda está formando sua identidade.

Há diferença entre reconhecer que determinado mercado existe e transformar seus casos mais extraordinários em propaganda de enriquecimento.

E há uma diferença fundamental entre valor econômico e valor humano.

Talvez precisemos reaprender isso antes de ensiná-lo aos nossos filhos. Porque o problema não é uma profissional do “job” comprar um carro melhor do que o meu. Ela pode comprar dois, até, se quiser!

O problema começa quando nossos filhos olham para aquele carro, depois olham para anos de estudo, esforço, disciplina e responsabilidade, e concluem que nós fomos os tolos.

Quando isso acontece, a discussão já não é sobre prostituição. É sobre cultura.

É sobre aquilo que uma sociedade escolhe exibir. Sobre aquilo que seus algoritmos amplificam. Sobre aquilo que seus jovens aprendem a desejar. E sobre o tipo de adulto que estamos ajudando a formar.

Talvez a pergunta que deva nos inquietar não seja quanto uma pessoa consegue cobrar pelo próprio corpo.

Talvez seja outra: quanto estamos dispostos a pagar, como sociedade, por uma geração que aprenda que tudo tem preço e quase nada tem valor?

Essa conta pode ser muito mais alta do que parece.