Por Diego de Almeida
Toda eleição é, em alguma medida, uma venda de futuro. Candidatos apresentam programas, anunciam mudanças, prometem corrigir aquilo que está errado e descrevem o país que pretendem entregar alguns anos depois. Faz parte do jogo democrático. O problema é que prometer é muito mais fácil do que governar. Uma boa equipe de comunicação consegue transformar praticamente qualquer intenção em uma frase convincente, qualquer meta em um gráfico bonito e qualquer dificuldade em culpa do adversário. Por isso, talvez devêssemos prestar um pouco menos de atenção ao que os candidatos dizem que farão e muito mais ao que eles, e os grupos políticos que os cercam, já fizeram quando tiveram poder. O passado não determina o futuro, mas costuma ser um indicador bastante mais confiável do que um programa eleitoral escrito às vésperas da votação.
O primeiro turno de 2026 tornou essa reflexão ainda mais necessária. Flávio Bolsonaro e Lula concentraram mais de noventa por cento dos votos válidos e chegaram ao segundo turno sem terem se enfrentado uma única vez em um debate. É uma situação curiosa. O brasileiro escolheu entre dois projetos políticos antagônicos sem assistir aos seus principais representantes confrontarem diretamente suas ideias, seus números, suas contradições e seus respectivos históricos. Houve entrevistas, podcasts, vídeos, transmissões ao vivo, redes sociais funcionando sem descanso e milhões de mensagens circulando todos os dias. Falou-se muito. Debateu-se pouco.
E talvez essa seja uma das características mais preocupantes desta eleição. Cada candidato conseguiu, em grande parte, falar para o seu próprio público. Quem apoia Lula recebeu a narrativa de um governo que recuperou emprego, renda e políticas sociais, defendeu a democracia e recolocou o Estado como agente de desenvolvimento. Quem apoia Flávio recebeu a narrativa de um país sufocado por impostos, gastos públicos, insegurança e excesso de intervenção estatal e judicial. As duas narrativas contêm fatos. As duas também selecionam cuidadosamente aquilo que preferem não mostrar.
Lula possui uma situação particularmente interessante porque não precisa pedir ao eleitor que imagine como seria seu governo. Ele está governando. Há resultados concretos que merecem reconhecimento. O desemprego atingiu níveis historicamente baixos, a renda do trabalho cresceu, programas sociais foram ampliados e a reforma tributária finalmente saiu do terreno das discussões intermináveis e entrou na legislação. É impossível analisar seriamente o governo ignorando esses resultados apenas porque eles incomodam a narrativa da oposição. Mas também é impossível analisar o mesmo governo fechando os olhos para a deterioração fiscal, o crescimento da dívida pública, a dificuldade persistente de controlar despesas e o peso que inflação, impostos e custo de vida continuam exercendo sobre a população.
É justamente aí que deveria começar uma discussão adulta. Não basta anunciar novos benefícios sem explicar quem os financiará. Todo programa público possui um custo, mesmo quando esse custo não aparece diretamente para quem recebe o benefício. Alguém sempre paga. Pode ser o contribuinte de hoje, o consumidor por meio da inflação, o investidor através de impostos ou o contribuinte de amanhã por meio da dívida pública. Uma visão liberal do Estado não exige que se rejeitem políticas sociais. Exige apenas que se abandone a fantasia de que elas são gratuitas.
Quando Lula promete ampliar programas, investimentos e direitos, portanto, a pergunta não deveria ser se essas propostas são socialmente simpáticas. Muitas delas são. A pergunta deveria ser se são sustentáveis. Depois de quatro anos de governo, já existe material suficiente para avaliar não apenas as intenções, mas também a capacidade de executá-las sem transferir indefinidamente a conta para o futuro.
Do outro lado ocorre algo semelhante. Flávio Bolsonaro apresenta um programa mais próximo de uma agenda liberal na economia, falando em redução do tamanho do Estado, privatizações, diminuição de impostos, estímulo ao investimento privado, controle de despesas e maior rigor na segurança pública. Para quem acredita que o Estado brasileiro se tornou caro, ineficiente e excessivamente invasivo, várias dessas ideias são atraentes. O problema começa quando se tenta transformá-las em números.
Flávio promete cortes expressivos de gastos públicos e, ao mesmo tempo, diz que preservará programas sociais, aumentará investimentos, reforçará a segurança, reduzirá impostos e produzirá crescimento econômico mais elevado. Pode ser possível. Mas entre ser possível e ser apenas eleitoralmente conveniente existe uma distância enorme. Quando se fala em cortar centenas de bilhões de reais de despesas públicas, não basta usar expressões como “combate ao desperdício” ou “redução da máquina”. O orçamento brasileiro é dominado por despesas obrigatórias. Se o corte é real, é preciso dizer onde ele ocorrerá. Quais ministérios desaparecerão? Quais carreiras perderão privilégios? Quais subsídios serão retirados? Quais programas serão reduzidos? Quem será contrariado?
É justamente esse tipo de pergunta que um debate deveria produzir.
Flávio nunca administrou o governo federal e seria injusto responsabilizá-lo automaticamente por todas as decisões de Jair Bolsonaro. Mas também seria ingenuidade tratá-lo como alguém sem passado político. Ele reivindica explicitamente aquele campo, aquele eleitorado e boa parte daquele legado. E esse legado também precisa ser examinado inteiro, não apenas nas partes convenientes.
O governo Bolsonaro realizou reformas relevantes para quem acredita em uma economia mais aberta e menos dependente do Estado. A reforma da Previdência, a Lei da Liberdade Econômica, o marco do saneamento, a autonomia do Banco Central e a privatização da Eletrobras não são invenções de campanha. São realizações concretas e devem fazer parte de qualquer avaliação honesta daquele período. Mas o mesmo governo que defendia responsabilidade fiscal também flexibilizou regras fiscais e ampliou despesas quando a conveniência política falou mais alto. Isso também aconteceu. A direita não pode reivindicar apenas suas reformas e esquecer suas contradições.
Esse é um problema recorrente da política brasileira. A esquerda costuma imaginar que responsabilidade social absolve irresponsabilidade fiscal. A direita, por sua vez, gosta de falar em austeridade até descobrir que gastar dinheiro público também produz votos. No fim, ambas encontram boas justificativas para fazer aquilo que criticavam quando estavam na oposição.
Talvez por isso o histórico seja tão importante.
Quando alguém promete reduzir o Estado, é legítimo perguntar o que fez quando teve oportunidade de reduzi-lo. Quando promete responsabilidade fiscal, devemos observar como se comportou diante da possibilidade de aumentar gastos por conveniência eleitoral. Quando promete defender os pobres, devemos perguntar se as políticas adotadas efetivamente produziram autonomia ou apenas dependência. Quando promete defender a liberdade, é preciso verificar se essa liberdade vale também para quem pensa diferente.
E aqui surge talvez uma das questões mais delicadas desta eleição: o papel crescente do Judiciário.
Durante a campanha, tribunais eleitorais e ministros passaram a ocupar uma posição quase permanente no noticiário político. Conteúdos foram retirados das redes sociais, manifestações foram limitadas, regras de debates foram modificadas, candidaturas foram questionadas e diferentes decisões determinaram aquilo que poderia ou não circular durante o processo eleitoral. Algumas dessas intervenções tinham fundamentos compreensíveis. Mentiras deliberadas podem destruir reputações em poucas horas e, numa sociedade dominada por redes sociais, uma informação falsa pode atingir milhões de pessoas antes que a verdade consiga calçar os sapatos.
Mas reconhecer esse problema não significa conceder poder ilimitado a quem promete resolvê-lo.
Esse talvez seja o ponto liberal mais importante de toda a discussão. Liberdade não é apenas o direito de dizer aquilo que é verdadeiro, educado ou conveniente. E o poder de decidir aquilo que pode ser dito precisa ser cercado por limites muito claros. A fronteira entre mentira factual, interpretação política, exagero, sátira e crítica nem sempre é evidente. Quando essas fronteiras passam a ser definidas continuamente por decisões judiciais individuais, tomadas muitas vezes em poucas horas e durante uma campanha eleitoral, o risco institucional deixa de ser uma abstração.
O episódio envolvendo Nossa Senhora Aparecida foi quase uma caricatura desse problema. Durante dias, o país discutiu uma proposta que o candidato acusado de defendê-la nunca havia feito. A história ganhou redes sociais, campanha eleitoral, imprensa e finalmente tribunais. Ministros divergiram, conteúdos foram retirados, decisões foram revistas e uma parcela preciosa da reta final da eleição foi consumida discutindo as consequências jurídicas de algo que simplesmente não existia.
Enquanto isso, perguntas reais continuavam esperando.
Como equilibrar as contas públicas? Como financiar o SUS diante do envelhecimento da população? Como enfrentar o crime organizado? Como melhorar uma educação básica que continua produzindo resultados medíocres? Como aumentar produtividade? Como lidar com inteligência artificial, automação e mudanças no mercado de trabalho? Como tornar o Estado mais eficiente? Como crescer sem transformar a próxima geração em fiadora permanente da atual?
Esses problemas não cabem bem em vídeos de trinta segundos.
Também não rendem tantos compartilhamentos.
Talvez por isso tenham sido tão pouco discutidos.
A própria judicialização acabou ocupando parte do espaço que deveria pertencer à política. E é importante dizer que as decisões atingiram diferentes lados da disputa. Houve remoções de conteúdos contra Lula e contra Flávio. Houve decisões favoráveis e desfavoráveis a diferentes candidaturas. Transformar tudo isso simplesmente em uma teoria segundo a qual os tribunais trabalharam para eleger determinado candidato seria intelectualmente preguiçoso e, até aqui, não encontra sustentação suficiente nos fatos.
Mas o problema institucional permanece.
Uma eleição pode ter urnas confiáveis e, ao mesmo tempo, um ambiente político excessivamente judicializado. As duas coisas não são incompatíveis. A própria observação internacional reconheceu a normalidade e a confiabilidade da votação ao mesmo tempo em que chamou atenção para a intensidade da judicialização e para a insegurança provocada por decisões divergentes.
Esse talvez seja o debate que deveríamos estar fazendo.
Até onde deve ir o poder do Estado para proteger a democracia sem começar a tutelá-la?
Quanto mais transferimos para juízes a responsabilidade de definir os limites do discurso político, menos espaço deixamos para aquilo que deveria ser a principal defesa contra uma ideia ruim: outra ideia melhor.
O primeiro turno terminou e o segundo oferece uma oportunidade rara. Não precisamos ouvir apenas novas promessas. Já existem governos, votações, decisões, reformas, erros, acertos, crises e escolhas suficientes para comparar.
Lula deveria explicar por que um governo que ampliou políticas públicas e produziu bons números no mercado de trabalho ainda não conseguiu apresentar uma trajetória fiscal convincente. Deveria explicar como pretende financiar aquilo que promete ampliar e quais reformas está disposto a realizar quando elas cobrarem um preço político.
Flávio deveria explicar detalhadamente como pretende reduzir impostos, cortar centenas de bilhões de reais, preservar benefícios sociais, aumentar investimentos e ainda produzir crescimento acelerado. Deveria explicar também em que aspectos pretende repetir o governo Bolsonaro e, talvez mais importante, em quais pretende ser diferente dele.
Nenhum dos dois deveria ser poupado dessas perguntas.
É para isso que deveria servir uma eleição.
Não para escolher o candidato que conta a história mais agradável sobre si mesmo, mas para comparar evidências.
Não para perguntar apenas o que cada um pretende fazer, mas o que fizeram quando tiveram poder, como votaram quando precisaram escolher e quais princípios abandonaram quando a conveniência política apareceu.
Em campanha, todos descobrem virtudes.
Gastadores tornam-se responsáveis fiscais. Autoritários descobrem a liberdade. Estatistas encontram a eficiência. Liberais descobrem os benefícios do Estado. Políticos que passaram anos dividindo a sociedade repentinamente anunciam que governarão para todos.
Talvez seja por isso que o passado seja tão incômodo.
Ele não pode ser reescrito com tanta facilidade.
O futuro é sempre uma promessa.
O passado é evidência.
E, quando entramos numa cabine eleitoral, os dois deveriam estar conosco.
