Por Diego de Almeida
Há uma doença social que se alastra com mais rapidez do que qualquer frente fria, enxurrada ou vendaval: a incapacidade de discutir problemas reais sem transformá-los em espetáculo, deboche ou guerra política.
Nos últimos dias, dois assuntos aparentemente distintos expuseram a mesma ferida. De um lado, prefeitos brasileiros se organizam para discutir estratégias de prevenção diante da possibilidade de um El Niño forte em 2026/2027, com risco aumentado de eventos climáticos extremos. De outro, em Curitiba, uma jovem foi gravemente atingida pela queda de um galho de árvore na Praça Osório, num acidente de consequências devastadoras.
Em ambos os casos, como era previsível, as redes sociais não decepcionaram em sua vocação para decepcionar.
Vieram os comentários agressivos. As ironias baratas. As acusações automáticas. Os diagnósticos de sofá. As sentenças proferidas por gente que não leu um laudo, não conhece um protocolo técnico, não entende arborização urbana, não sabe o que é Defesa Civil, não distingue prevenção de alarmismo e, ainda assim, se sente autorizada a julgar tudo e todos com a segurança dos ignorantes.
O problema não é criticar o poder público. Criticar é necessário. Fiscalizar é indispensável. Cobrar transparência, laudos, planejamento, orçamento e responsabilidade é parte elementar da vida democrática. O problema é confundir crítica com linchamento, fiscalização com histeria e indignação com oportunismo.
Há uma diferença enorme entre perguntar “o que foi feito, quando foi feito, por quem foi feito e se foi suficiente?” e simplesmente gritar “culpa da prefeitura”, antes de qualquer apuração técnica.
Essa diferença parece pequena para quem vive de frases prontas. Mas é justamente nela que se separa a cidadania da barbárie digital.
A possível chegada de um El Niño forte exige preparação. Não porque o céu vá necessariamente desabar amanhã, nem porque toda previsão climática deva ser tratada como profecia. Mas porque gestão pública responsável trabalha com risco, probabilidade e impacto.
É assim na medicina, na engenharia, na aviação, na segurança pública e deveria ser assim também na administração das cidades.
Quando há possibilidade de chuvas intensas, alagamentos, deslizamentos, ventos fortes, enchentes ou colapso de infraestrutura, o dever do gestor público não é esperar a tragédia para depois posar de solidário. O dever é planejar antes.
Isso significa mapear áreas de risco, revisar planos de contingência, testar sistemas de alerta, preparar abrigos, limpar galerias pluviais, revisar pontes, encostas e vias críticas, integrar Defesa Civil, assistência social, saúde, educação, obras e comunicação pública.
Significa também conversar com outros municípios, com Estados e com a União. Desastres climáticos não respeitam divisas administrativas. A água não consulta o mapa político antes de invadir uma cidade. O vento não pergunta a legenda partidária do prefeito antes de derrubar uma árvore. A encosta não escolhe ideologia antes de deslizar.
Portanto, quando prefeitos se reúnem para discutir prevenção, a pergunta madura não é “quanto custa essa reunião?” ou “quem vai aparecer na foto?”. A pergunta correta é: “quais medidas concretas sairão dali?”.
Reunião vazia merece crítica. Prevenção séria merece apoio. O que não merece respeito é o comentário raso que ridiculariza qualquer tentativa de planejamento e depois, quando ocorre a tragédia, cobra exatamente aquilo que antes desprezou.
Noutra situação, temos uma fatalidade; A queda de um galho que atinge uma jovem em praça pública é um episódio brutal. Não há como tratar isso com frieza burocrática. Uma vida foi profundamente alterada em questão de segundos. Uma família foi violentamente lançada em sofrimento, angústia e incerteza.
Mas exatamente por ser um caso grave, ele exige seriedade. Seriedade não combina com conclusão apressada.
Árvores são organismos vivos. Podem estar aparentemente estáveis e, ainda assim, sofrer falha estrutural. Podem ser afetadas por fungos, cupins, apodrecimento interno, encharcamento do solo, ventos, podas anteriores inadequadas, sobrecarga de galhos ou alterações urbanas no entorno. Algumas situações são previsíveis. Outras, não. Algumas decorrem de negligência. Outras, de atroz acaso.
A única maneira honesta de diferenciar uma coisa da outra é por meio de apuração técnica.
A árvore havia sido vistoriada? Quando? Por quem? Com qual metodologia? Havia sinais externos de comprometimento? O galho que caiu apresentava doença, podridão ou fratura prévia? O protocolo municipal de inspeção é adequado? A periodicidade das vistorias é suficiente? Há inventário arbóreo atualizado? Há equipe técnica e orçamento compatíveis com a quantidade de árvores da cidade?
Essas são perguntas legítimas.
O que não é legítimo é transformar dor humana em palanque, antes mesmo de saber se houve falha, omissão ou imprevisibilidade. Não é nenhum pouco plausível, muito menos produtivo, comentários de tipo “arranquem todas as árvores das praças”, “lugar de árvore é na floresta”, entre outros, que vimos por aí...
Também não é legítimo fazer o movimento oposto: usar a palavra “fatalidade” como escudo automático para impedir investigação. Acidente imprevisível existe. Mas a imprevisibilidade precisa ser demonstrada, não apenas proclamada.
O poder público não deve ser culpado por tudo. Mas deve estar preparado para explicar tudo.
Existe uma fantasia infantil na forma como muitas pessoas enxergam a vida urbana. Querem praças arborizadas, ruas sombreadas, feiras ao ar livre, parques bonitos, calçadas vivas e cidades menos hostis. Mas, ao mesmo tempo, ignoram que tudo isso exige manutenção, técnica, orçamento, poda, supressão quando necessária, reposição arbórea, fiscalização e decisões muitas vezes impopulares.
Quando uma árvore é removida preventivamente, alguém acusa a prefeitura de destruir o verde. Quando uma árvore cai, alguém acusa a prefeitura de não ter removido antes. Quando há reunião preventiva sobre clima, alguém chama de alarmismo. Quando vem a enchente, alguém pergunta por que ninguém se preparou.
Essa esquizofrenia cívica é uma das marcas do nosso tempo.
Queremos segurança sem custo, prevenção sem obra, fiscalização sem incômodo, cidade arborizada sem manejo, drenagem eficiente sem intervenção urbana, Defesa Civil forte sem investimento e poder público infalível sem admitir que a vida concreta possui riscos residuais.
Não existe cidade sem risco. Existe cidade que conhece seus riscos, monitora seus riscos, reduz seus riscos e responde melhor quando eles se materializam.
Essa é a diferença entre gestão e improviso.
É preciso abandonar dois vícios igualmente ruins:
O primeiro é o vício da culpabilização automática. A cada acidente, antes de qualquer dado, já se aponta o dedo. A prefeitura é culpada. O prefeito é culpado. O secretário é culpado. O servidor é culpado. O engenheiro é culpado. A árvore cai e a sentença já está pronta. A árvore é culpada!
Esse comportamento não é justiça. É preguiça mental com verniz de indignação.
O segundo vício é a absolvição automática. Tudo vira “fatalidade”, “força da natureza”, “impossível prever”, “ninguém poderia fazer nada”. Esse discurso também é perigoso, porque pode esconder omissão, desorganização ou precariedade técnica.
O caminho correto é outro: apuração.
Apurar não é perseguir. Apurar é esclarecer. É verificar se protocolos foram cumpridos, se eram adequados, se havia sinais prévios, se houve resposta rápida, se a manutenção estava em dia, se o sistema precisa ser corrigido e se alguém deve ser responsabilizado.
Numa sociedade minimamente séria, a pergunta não é “como uso isso contra meu adversário político?”. A pergunta é: “o que este evento revela sobre a nossa capacidade de prevenir e responder?”.
As redes sociais deram voz a muita gente. Isso foi bom. Mas também deram megafone a uma multidão que confunde opinião com conhecimento e raiva com lucidez.
O hater não quer entender; Quer reagir. Não quer melhorar a cidade; Quer vencer uma disputa imaginária. Não quer proteger vidas; Quer humilhar alguém. Não quer apuração; Quer culpados convenientes.
Se o prefeito se antecipa, é oportunista. Se não se antecipa, é omisso. Se poda árvore, destrói o meio ambiente. Se não poda, é irresponsável. Se convoca reunião, faz politicagem. Se não convoca, negligencia. Se comunica risco, espalha pânico. Se não comunica, esconde informação.
Esse tipo de comportamento não é fiscalização. É sabotagem do debate público.
E a consequência é grave: gestores passam a se preocupar mais com a reação digital do que com a decisão tecnicamente correta. Técnicos passam a ser desautorizados por clamor de rede. Políticas públicas viram reféns de frases de efeito. A prevenção perde espaço para a encenação.
Quando tudo vira disputa política, exacerbação de ego e ataque cego, nada é tratado com a seriedade que merece.
A resposta correta para o El Niño não é discurso. É plano.
Cada município deveria ter, de forma clara e pública, um plano de contingência atualizado para eventos climáticos extremos. Não um documento esquecido em gaveta, mas um protocolo operacional conhecido pelas equipes envolvidas.
É preciso mapear áreas de risco, atualizar cadastros de famílias vulneráveis, identificar escolas e ginásios que possam servir de abrigo, treinar equipes, revisar rotas de evacuação, garantir comunicação rápida com a população, limpar sistemas de drenagem e estabelecer canais diretos entre Defesa Civil, saúde, assistência social, segurança, obras e meio ambiente.
Também é necessário investir em comunicação pública simples. A população precisa saber o que fazer antes, durante e depois de uma emergência. Alerta que ninguém entende não salva ninguém. Sirene que ninguém reconhece não evacua ninguém. Aplicativo que ninguém usa não protege ninguém.
No caso da arborização urbana, as cidades precisam de inventário arbóreo georreferenciado, classificação de risco, vistorias periódicas, critérios técnicos de poda e remoção, registro público de intervenções e equipes capacitadas. Árvores não podem ser tratadas apenas como paisagem. Elas são infraestrutura viva.
Isso não significa sair cortando árvores de forma irresponsável. Pelo contrário. Significa cuidar melhor delas. Arborização urbana séria não é nem abandono romântico nem motosserra histérica. É manejo técnico.
A tragédia da Praça Osório não deve ser usada como munição política. Deve ser usada como alerta. O possível El Niño forte não deve ser usado como terror climático. Deve ser usado como chamado à preparação.
Entre a demagogia e a omissão existe um caminho mais difícil: o da responsabilidade.
Responsabilidade do poder público, que deve planejar, executar, prestar contas e corrigir falhas. Responsabilidade dos órgãos técnicos, que devem agir com rigor, transparência e independência. Responsabilidade da imprensa, que deve informar sem explorar a dor alheia. Responsabilidade da população, que deve cobrar sem linchar, fiscalizar sem inventar, indignar-se sem perder a razão. E responsabilidade de todos nós, que precisamos reaprender a distinguir acidente de negligência, prevenção de alarmismo, crítica de ódio e política pública de palanque.
Porque a cidade real não se governa com meme. Não se protege uma população com comentário raivoso. Não se evita desastre com lacração, nem com cinismo.
Prevenir catástrofes exige técnica, orçamento, coordenação e coragem administrativa.
Investigar acidentes exige serenidade, perícia e transparência.
E discutir tudo isso exige algo que anda escasso: maturidade.
A queda de um galho pode ser um acidente imprevisível. Uma enchente pode ser agravada por décadas de descaso. Um evento climático pode ser natural, mas seus efeitos são profundamente sociais. O que não podemos é continuar respondendo a temas complexos com a brutalidade simplória das redes.
A natureza não negocia com a nossa ignorância.
E a realidade, ao contrário dos haters, não está interessada em lacrar.

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