sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

“Entre o Clique e o Silêncio”

 


Por Diego de Almeida

Francamente, vivemos tempos curiosos. Nunca foi tão fácil acessar livros, artigos, vídeos, palestras, cursos, pranchas, comentários, “explicações definitivas” e, ironicamente, nunca pareceu tão difícil encontrar quem realmente leia, estude, medite ou se disponha a sentar com calma para pensar. Tudo está a um clique de distância, mas quase nada atravessa a superfície da mente. A informação chega rápido; o interesse, nem tanto.

Há quem diga — e a frase já circula como uma máxima moderna — que tempos fáceis produzem homens fracos. Não no sentido físico, claro, mas no sentido moral, intelectual e espiritual. E talvez o ponto mais delicado seja justamente esse: não somos menos capazes, apenas menos dispostos ao esforço. O desconforto do estudo profundo, da leitura lenta, da comparação de fontes, do silêncio reflexivo, foi sendo substituído por resumos, vídeos curtos e opiniões prontas, entregues com a gentileza de quem não exige nada em troca além de alguns minutos de atenção dispersa.

Assisti recentemente a um vídeo de um maçom — desses youtubers que hoje cumprem um papel curioso de instrutores digitais — falando sobre a perda progressiva do interesse dos maçons pelos livros, pelas bibliotecas pessoais, pela meditação e pelos grupos de estudo. Confesso que não lembro o nome do autor, mas lembro do incômodo que ficou. Porque não era um ataque, era um espelho. Antigamente, dizia ele, os maçons formavam pequenas células de estudo, trocavam livros, anotavam à margem, discutiam símbolos por semanas, às vezes por anos. Hoje, muitos se dão por satisfeitos após assistir a um vídeo em velocidade 1,5x.

E aqui convém uma pausa. Não se trata de nostalgia ingênua nem de demonizar a tecnologia. O problema não está no meio, mas no método — ou melhor, na ausência dele. A Maçonaria nunca foi uma Ordem de respostas prontas; sempre foi uma escola de perguntas bem formuladas. O símbolo não se explica, se contempla. O conhecimento não se consome, se constrói. E isso leva tempo. Tempo de leitura. Tempo de silêncio. Tempo de convivência intelectual.

A biblioteca pessoal, outrora tão valorizada, não era apenas um conjunto de livros, mas um mapa do caminho percorrido. Cada volume adquirido com esforço, cada obra lida e relida, cada anotação feita à lápis era, em si, um ato iniciático. Hoje, com milhares de PDFs armazenados e raramente abertos, corre-se o risco de possuir uma biblioteca infinita… e uma formação rasa.

O mesmo vale para os grupos de estudo. Eles exigem algo que nossa época parece evitar: compromisso, regularidade e exposição do próprio pensamento. É mais confortável consumir conteúdo sozinho do que sentar em círculo e sustentar uma ideia diante de Irmãos atentos, capazes de concordar — ou discordar. O estudo coletivo, afinal, lapida arestas. E ninguém gosta muito disso.

Talvez estejamos formando maçons extremamente informados, mas pouco formados; cheios de referências, mas vazios de método; conectados a tudo, menos ao trabalho interior. Uma Ordem rica em símbolos, mas pobre em simbolistas. E isso não se resolve com mais vídeos, mais posts ou mais facilidades. Resolve-se com uma decisão pessoal: desacelerar, escolher um livro, fechar a porta, silenciar o mundo e trabalhar a própria pedra.

Meus caros, a tecnologia pode ser uma aliada poderosa — desde que esteja a serviço do homem, e não o contrário. O verdadeiro progresso não é tornar tudo mais fácil, mas tornar o esforço novamente significativo. Ler menos, mas melhor. Saber menos coisas, mas compreendê-las de verdade. Falar menos e ouvir mais — inclusive o silêncio.

Abraços fraternos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário