sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Agenda, Consciência e o Preço da Ilusão

 

Por Diego de Almeida

Agenda, Consciência e o Preço da Ilusão

Durante muito tempo — talvez tempo demais — aprendemos a confundir vocação com renúncia, ética com sacrifício e compromisso com submissão. A medicina, envolta em uma aura quase sacerdotal, foi sendo empurrada para um lugar simbólico onde organização virou pecado, gestão virou mercantilismo e falar de dinheiro passou a soar como heresia.

Até que a realidade bate à porta.
E ela não pede licença.

Recentemente, um parecer do Conselho Federal de Medicina reacendeu uma discussão antiga: a possibilidade de o médico organizar sua própria agenda, inclusive mantendo distinção entre atendimentos particulares e por convênios. Para quem tiver curiosidade, é o parecer CFM nº 1/2026 (PAe nº 000035.10/2025-CFM). Nada de revolucionário, diga-se. Nada que não fosse praticado, em maior ou menor grau, há décadas. Ainda assim, a repercussão foi imediata — e ruidosa.

Talvez porque a agenda não seja apenas uma agenda.
Ela é símbolo.

Símbolo da última réstia de autonomia que ainda resta ao médico liberal. Símbolo do tempo que se tenta proteger. Símbolo do limite que se tenta impor a um sistema que, há anos, se acostumou a tratar o profissional como recurso inesgotável.

Curioso observar como muitos de nós, quando ainda jovens — ou apenas ingênuos — viam essa distinção como algo moralmente questionável. “Absurdo”, pensávamos. Até o dia em que abrimos um consultório. Até o dia em que as contas começaram a chegar antes mesmo dos pacientes. Até o dia em que percebemos que o convênio demora meses para pagar, mas o aluguel, os salários, os impostos e o plano funerário dos funcionários não aceitam postergação.

A maturidade profissional costuma chegar assim: sem cerimônia.

Há quem ainda invoque o juramento de Hipócrates como argumento final, como se em algum verso oculto estivesse escrito que o médico deve abrir mão de gerir o próprio trabalho. Não está. O juramento fala de zelo, de não causar dano, de respeito ao paciente. Não fala de voto de pobreza. Não fala de agendas caóticas. Não fala de aceitar, sem questionar, contratos desequilibrados.

Organizar a agenda não é negar atendimento.
É organizar capacidade.
É preservar qualidade.
É, paradoxalmente, garantir que ainda haja médico disponível amanhã.

Em meio às discussões, surgiu um argumento silencioso, mas profundamente honesto: no Brasil real, quem tem plano de saúde raramente é o mais vulnerável. Muitas vezes, separar agenda não exclui o pobre — exclui o intermediário predatório. O convênio. A engrenagem que paga mal, exige muito e ainda se ofende quando o médico tenta respirar.

A conversa inevitavelmente escorrega para impostos, holdings, pró-labore, distribuição de lucros. E não é desvio de assunto. É continuidade lógica. Quem começa discutindo agenda logo percebe que o problema é maior: insegurança jurídica, carga tributária errática, contabilidade defensiva, decisões tomadas às cegas. O médico aprende a intubar, mas não aprende a sobreviver como profissional liberal.

Não por acaso, alguém pergunta por que não tivemos aulas de gestão na faculdade. E a resposta vem, honesta: até existem, aqui e ali, mas são insuficientes. Uma disciplina não dá conta de desfazer décadas de romantização da profissão.

No fundo, o parecer do CFM não criou um novo direito. Apenas reconheceu algo óbvio demais para continuar sendo tratado como tabu: o consultório não é uma extensão do Estado, nem da operadora, nem de um ideal abstrato de altruísmo. É um espaço profissional, sustentado por quem o ocupa.

Separar agendas não é mercantilizar a medicina.
É recusar a ilusão de que desorganização é virtude.

Talvez o incômodo venha justamente daí. Porque quando o médico assume que precisa gerir o próprio tempo, cai por terra a narrativa confortável de que basta “ter vocação”. E admitir isso exige algo mais difícil do que trabalhar muito: exige pensar.

Entrementes, seguimos. Com agendas, consciências e boletos. Tentando, no meio do ruído, preservar aquilo que realmente importa: o cuidado — inclusive conosco.

Abraços fraternos.

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