Por Diego de Almeida
Ah, Dona Oneida…
Ah, Dona Oneida... Matrona machista, mãe de quatro varões, tão obsequiosa em sempre olvidar objetificações ojerizantes. Dizia-se protetora; na verdade, era sacerdotisa de um pequeno culto doméstico: o culto aos próprios filhos.
Morava numa casa de esquina, daquelas antigas, com grades altas e cortinas sempre semicerradas. Ali dentro, criara quatro homens como quem cria galos de briga — não para lutar, dizia ela, mas para jamais perder.
— Homem não se curva — repetia, enquanto servia o café. — O mundo já tenta dobrar vocês demais.
O mais velho, Rodrigo, aprendera cedo que charme era uma moeda. Falava macio, sorria fácil, e deixava atrás de si uma sequência de histórias mal resolvidas. Sempre que alguma moça aparecia à porta, olhos vermelhos e voz trêmula, Dona Oneida suspirava com uma paciência quase pedagógica.
— Minha filha, você deve ter entendido errado. Rodrigo é um rapaz tão correto…
E fechava o portão com um gesto suave, como quem encerra uma conversa trivial.
O segundo, Marcelo, preferia a ironia. Dizia que o mundo era um teatro e que todos fingiam virtudes. Aprendera com a mãe que a culpa era uma ferramenta: útil quando projetada nos outros.
— Mulher hoje em dia gosta de drama — dizia Dona Oneida, abanando a cabeça. — Antigamente sabiam seu lugar.
O terceiro, Gustavo, era silencioso. Observador. Absorvera da casa uma filosofia menos ruidosa: a de que o poder verdadeiro se exercia na indiferença. Nunca gritava, nunca discutia. Apenas descartava pessoas como quem troca de camisa.
E o caçula, Henrique, ainda ensaiava o papel. Crescera vendo os irmãos retornarem tarde, rindo de histórias que Dona Oneida ouvia com indulgência quase devota.
— São jovens… — justificava ela, sempre. — Homem precisa experimentar o mundo.
Entrementes, como diria algum cronista antigo, havia algo de curioso naquele lar: a ausência completa de espelhos morais. Nenhuma pergunta incômoda. Nenhum limite real. Apenas uma narrativa contínua de absolvição.
Para Dona Oneida, seus filhos eram vítimas de um mundo ingrato. As mulheres eram exageradas. Os amigos, invejosos. Os patrões, injustos. O mundo inteiro conspirava contra seus quatro varões impecáveis.
E assim, noite após noite, ela os acolhia de volta ao porto seguro da casa.
— Aqui vocês sempre terão razão — dizia.
O curioso é que, com o tempo, os rapazes começaram a acreditar nisso.
Rodrigo já não seduzia: consumia.
Marcelo já não ironizava: desprezava.
Gustavo já não ignorava: manipulava.
Henrique aprendia depressa.
Rodrigo já não seduzia: consumia.
Marcelo já não ironizava: desprezava.
Gustavo já não ignorava: manipulava.
Henrique aprendia depressa.
Ensinará algo mais perigoso: a nunca serem responsabilizados.
Cria adultos frágeis — armados com a arrogância de quem jamais aprendeu que liberdade e responsabilidade caminham sempre juntas.
E Dona Oneida, sentada à cabeceira da mesa, servia mais café, mais desculpas, mais indulgência.
Era uma pedagogia silenciosa.
Não lhes ensinara a serem homens.
E quando, anos depois, os quatro começaram a colher as consequências inevitáveis — processos, rupturas, isolamento...
Certa feita, após discutir com a namoradinha da escola, Henrique chegou em casa. Não havia ninguém... Chamou alguns amigos. Depois, ligou para a namorada e convidou pra tomar um sorvete, pra fazer as pazes... ela foi. E com toda a sabedoria e astúcia de seus 17 anos, regou a taça de sorvete com as gotinhas que sua mãe usava pra dormir... Quando a menina ficou desacordada, Henrique pôs à mesa e chamou os amigos que aguardavam em silêncio no outro cômodo. Fizeram a festa! Refastelaram-se... não havia limites. Não havia não... tampouco, havia sim.
Dona Oneida chegou pouco depois ainda em tempo de ver uma menina semi-vestida, desacordada no chão da sua cozinha. Chamou um carro de aluguel, colocou a "mocinha que bebeu um pouco demais" dentro e mandou ela embora... Depois, chamou a atenção do caçula e seus amigos:
— Meus anjos, não tragam esse tipo de garota pra dentro de casa. Depois ela vai querer dar problema pra vocês... Façam o que tiverem que fazer na rua, da próxima, tá bom?
Ela não entendeu o porquê de a polícia bater na sua porta alguns dias depois e de levarem seu príncipe apreendido... nem entendeu porque aquele bando de repórteres falavam tão mal de seu filhinho e dos amigos dele.
Dona Oneida apenas suspirou e soluçou, olhando pela janela.
— Esse mundo está cada vez mais cruel com os homens…
Nunca lhe ocorreu que, talvez, tivesse criado quatro homens incapazes de viver nele.
Porque proteger demais, às vezes, não cria filhos fortes.
Ah, Dona Oneida... poderia ser Josefa, ou Maria... Osmar ou José Carlos. Não é sobre como se chama, mas como se cria!

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