domingo, 8 de março de 2026

8 de Março: Tanto Conquistado! Tanto Ainda a Conquistar...

 


Por Diego de Almeida

Todos os anos, quando chega o Dia Internacional da Mulher, repetem-se dois rituais quase automáticos. De um lado, as flores, as homenagens, as mensagens bonitas nas redes sociais. De outro, uma espécie de disputa ideológica sobre o que afinal significa o tal “feminismo”. Entre elogios superficiais e caricaturas militantes, o sentido original da data muitas vezes se perde.

E, como tantas outras coisas em nosso tempo, aquilo que nasceu como reivindicação legítima acaba sendo transformado em slogan, bandeira partidária ou guerra cultural.

Mas se fizermos um pequeno exercício de memória histórica, veremos que o feminismo, em sua origem, não surgiu para estabelecer uma guerra entre homens e mulheres, tampouco para negar as diferenças naturais entre os sexos. Surgiu, sobretudo, como um movimento de equiparação de direitos civis, políticos e sociais.

E isso, convenhamos, não é pouca coisa.

Durante séculos, em grande parte do mundo, as mulheres não podiam votar, não podiam possuir propriedades de forma independente, não tinham acesso à educação formal e eram frequentemente excluídas das esferas de decisão pública. O feminismo histórico foi, antes de qualquer outra coisa, uma reação a esse estado de coisas.

Não se tratava de afirmar que homens e mulheres são absolutamente idênticos em tudo — ideia que, além de biologicamente questionável, é sociologicamente ingênua. Tratava-se de algo muito mais simples e muito mais razoável: se a dignidade humana é a mesma, os direitos fundamentais também devem ser.

Esse era o ponto.

Entrementes, como ocorre com praticamente todo movimento humano, o tempo tratou de multiplicar interpretações. Algumas delas equilibradas e razoáveis; outras, francamente caricatas. Em certos ambientes contemporâneos, o debate sobre direitos das mulheres parece ter sido substituído por uma espécie de competição de ressentimentos, na qual o objetivo já não é construir justiça, mas sim inverter hierarquias.

Mas reduzir toda a questão a esses exageros seria igualmente injusto. Porque basta olhar ao redor, ou um pouco além de nossas fronteiras, para perceber que a realidade ainda está longe de ser plenamente civilizada.

Aqui mesmo no Brasil, ainda convivemos com números alarmantes de violência doméstica, feminicídios e abusos que revelam o quanto a dignidade feminina continua sendo violada dentro de lares, ruas e ambientes de trabalho. Não são estatísticas abstratas; são vidas interrompidas, famílias destruídas e comunidades feridas.

E quando ampliamos o olhar para o cenário internacional, o quadro pode tornar-se ainda mais sombrio.

Em várias regiões do mundo, meninas continuam sendo impedidas de frequentar escolas. Em alguns países, estudar ainda pode ser considerado um ato de rebeldia feminina. Nos últimos dias, por exemplo, surgiram relatos perturbadores de bombardeios e ataques a escolas destinadas à educação de meninas no contexto da guerra no Oriente Médio, lembrando ao mundo que, para certas ideologias e regimes, a educação feminina ainda é vista como ameaça.

Sim, ameaça.

A ideia de que uma menina possa aprender, ler, pensar, escolher sua profissão ou seu destino ainda provoca medo em determinados lugares do planeta.

Além disso, como costuma dizer uma grande amiga, a Rosângela: "A Mulher é um portal pelo qual todos vem ao mundo... é o Homem tem a chave deste portal. Cabe ao dono da chave zelar pelo portal!" Veja bem: zelar não significa possuir, ou mandar... Mas, extrapolando esta ideia, se destruiu o portal, nada mais passa por ele... Logo, dizimando as mulheres de uma localidade, acaba-se com aquele povo, simples - e cruel - assim!

Quando observamos esse tipo de realidade, percebemos que muitas das discussões travadas nas redes sociais do Ocidente são, em certa medida, luxos de sociedades que já avançaram bastante, ainda que imperfeitamente, no campo dos direitos civis.

Em outras partes do mundo, a batalha ainda é muito mais elementar.

Trata-se simplesmente do direito de existir com dignidade. Ou apenas, de existir!

Talvez por isso o 8 de março não devesse ser apenas uma data de celebração. Tampouco deveria ser monopolizado por discursos ideológicos estreitos. Ele deveria ser, antes de tudo, um momento de consciência histórica.

Um lembrete de que os direitos não caíram do céu.

Foram conquistados.

Foram defendidos.

Foram pagos, muitas vezes, com sofrimento real.

E, como toda conquista humana, também precisam ser preservados.

Desta feita, a melhor homenagem que se pode fazer às mulheres não está apenas nas palavras bonitas publicadas uma vez por ano; está na construção cotidiana de uma sociedade em que respeito, segurança e oportunidades não dependam do sexo de alguém.

Uma sociedade em que meninas possam estudar sem medo.

Em que mulheres possam trabalhar sem violência.

Em que mães, filhas, irmãs e amigas possam simplesmente viver com dignidade.

Se um dia chegarmos plenamente a esse ponto, talvez o 8 de março se torne apenas uma data histórica, lembrada nos livros.

Até lá, meus caros, ele continua sendo necessário.

E talvez mais necessário do que gostaríamos de admitir.

Abraços fraternos.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Quando a Lei Hesita, o Mais Frágil é Que Paga!

 


Por Diego de Almeida

Quando a Lei Hesita, o Mais Frágil é Que Paga!
Sobre Vulnerabilidades, Retrocessos e o Risco de Normalizar o Indefensável!

Há decisões judiciais que passam discretamente pelas páginas dos diários oficiais. Outras, porém, atravessam a sociedade como um raio; não apenas pelo resultado, mas pelo símbolo que carregam. A recente decisão de segunda instância do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, que absolveu um homem adulto acusado de manter relação com uma menina de 12 anos sob o argumento de “vínculo afetivo” e suposta convivência familiar, pertence a essa segunda categoria.

O caso, em linhas gerais, é conhecido: o homem havia sido condenado em primeira instância por estupro de vulnerável, nos termos do art. 217-A do Código Penal, que estabelece de forma objetiva a proteção penal a menores de 14 anos. Em grau de apelação, a condenação foi revertida por maioria de votos. O fundamento central foi a existência de um relacionamento estável, aceito pela família da menor, com aparência de núcleo familiar constituído. A mãe da menina também foi absolvida. O Ministério Público anunciou recurso às instâncias superiores. O Conselho Nacional de Justiça abriu procedimento para apuração. E o debate saiu do processo e ganhou as ruas.

A repercussão foi imediata e intensa. Influenciadores digitais, juristas, psicólogos, pedagogos e entidades de defesa dos direitos da criança e do adolescente manifestaram preocupação pública. Organizações voltadas à proteção infantojuvenil lembraram que a lei brasileira adota o critério objetivo justamente para evitar a armadilha da subjetividade: a ideia de que uma criança poderia consentir validamente em relações dessa natureza. Psicólogos apontaram o risco de romantização de vínculos marcados por assimetria de poder e maturidade. Pedagogos destacaram a vulnerabilidade cognitiva e emocional de uma menina de 12 anos. Entidades de direitos humanos advertiram que flexibilizar a proteção legal pode abrir precedentes perigosos, sobretudo em contextos de pobreza, dependência econômica e fragilidade familiar.

O ponto central não está em discutir a boa-fé subjetiva de quem decide. Está em compreender o efeito simbólico e normativo da decisão. O tipo penal de estupro de vulnerável foi construído exatamente para retirar da equação a discussão sobre consentimento. A lei parte de uma premissa civilizatória: há idades em que a proteção deve ser absoluta, porque a desigualdade estrutural é incontornável. Não se trata de negar que adolescentes possam manifestar afeto; trata-se de reconhecer que a maturidade jurídica e psicológica para consentir em relações com adultos não existe nessa faixa etária.

Quando o Judiciário relativiza essa proteção sob o argumento de vínculo afetivo, cria-se uma fissura na muralha normativa que protege os mais frágeis. E fissuras, na história jurídica, raramente permanecem isoladas.

Não é a primeira vez que o Direito conviveu com justificativas que hoje nos parecem inconcebíveis. Houve um tempo em que o chamado “crime de honra” servia de fundamento para absolver homens que matavam suas companheiras sob a alegação de traição. Houve época em que o adultério era tratado como crime, mas a violência masculina era socialmente tolerada como reação compreensível. Durante décadas repetiu-se, quase como mantra cultural, que “em briga de marido e mulher não se mete a colher”. O que estava por trás dessas fórmulas? A naturalização da desigualdade. A compreensão tácita de que determinados corpos, sobretudo femininos e infantis, estavam submetidos a uma lógica de posse, controle e assimetria.

A sociedade evoluiu ao reconhecer que tais entendimentos eram instrumentos de perpetuação da violência. O ordenamento jurídico acompanhou essa evolução, abolindo excludentes morais e reforçando a proteção às vítimas. O conceito de vulnerabilidade não surgiu por acaso; foi resposta histórica a abusos sistematicamente invisibilizados.

É precisamente por isso que decisões como a recente provocam inquietação. Não porque neguem a complexidade dos casos concretos, mas porque sinalizam uma possível normalização de exceções perigosas. A ideia de que um “relacionamento estável” poderia neutralizar a presunção legal de vulnerabilidade desloca o eixo da proteção: sai do direito objetivo e retorna ao campo nebuloso da avaliação moral e cultural.

E nesse terreno, sabemos, as crianças e adolescentes quase nunca saem vencedores.

A proteção integral prevista na Constituição e no Estatuto da Criança e do Adolescente não é retórica. É cláusula civilizatória. Ela parte do reconhecimento de que há sujeitos que não dispõem de igualdade material para negociar, consentir ou resistir. Fragilizá-la, ainda que em nome de circunstâncias particulares, é correr o risco de reinstalar padrões que a própria evolução jurídica buscou superar.

O alerta que se impõe não é contra este ou aquele julgador, mas contra a tendência histórica de normalizar o inaceitável quando ele se apresenta sob roupagem de afeto, tradição ou costume. A violência raramente se apresenta com o rosto da brutalidade explícita; muitas vezes vem travestida de amor, de convivência, de arranjo familiar.

A pergunta que fica é simples e desconfortável: quando começamos a flexibilizar a proteção dos mais vulneráveis, quem passa a definir o limite? E se o limite se desloca hoje para justificar uma exceção, o que impedirá que amanhã ele se amplie para outras?

Direito é, em última instância, escolha de civilização. E cada decisão que relativiza a proteção de quem está na posição mais frágil deve ser examinada não apenas pelo seu efeito imediato, mas pelo precedente moral que inaugura.

Porque a história mostra, com incômoda clareza, que a normalização do abuso começa quase sempre com uma justificativa razoável. E termina, quase sempre, com a perpetuação silenciosa da injustiça.


Entre o Silêncio e a Sentença. Ativismo Judicial e Separação de Poderes; Limites e Tensões no Modelo Brasileiro

 


Por Diego de Almeida


Entre o Silêncio e a Sentença. 

Ativismo Judicial e Separação de Poderes; Limites e Tensões no Modelo Brasileiro


Há temas que entram em nossas conversas quase sempre acompanhados de uma tensão silenciosa. O ativismo judicial é um deles. Ele surge nos debates de família, nos grupos de mensagens, nas rodas acadêmicas e nos cafés políticos com a mesma carga elétrica de quem pisa num terreno ainda úmido após a tempestade. Uns o veem como escudo, outros como espada. E, entre esses dois extremos, permanece a pergunta que talvez seja a mais honesta de todas: afinal, qual é o lugar do juiz numa democracia?

Nos últimos anos, o protagonismo do Supremo Tribunal Federal tornou-se evidente. Decisões que antes ficavam restritas ao mundo técnico passaram a ocupar manchetes, editoriais e mesas de jantar. Quando a Corte equiparou a homofobia ao crime de racismo diante da omissão legislativa; quando discutiu a descriminalização do aborto em determinadas circunstâncias; quando redefiniu responsabilidades de plataformas digitais; quando enfrentou o chamado “marco temporal” nas demarcações indígenas; quando validou investigações estruturais no âmbito das fake news; ou, mais recentemente, quando o ministro Flávio Dino determinou a suspensão nacional dos chamados “penduricalhos” que ultrapassavam o teto constitucional — em todos esses episódios a percepção pública foi semelhante: o Judiciário teria avançado para além da mera interpretação e passado a ocupar espaço típico do Legislativo.

Entrementes, é preciso reconhecer que a Constituição de 1988 não é um texto tímido. Ela é extensa, dirigente, ambiciosa. Promete direitos sociais, impõe deveres ao Estado, estrutura políticas públicas. Não se limita a organizar Poderes; ela prescreve fins. E quando esses fins não se concretizam por inércia política, o que deve fazer o guardião da Constituição? Permanecer inerte em nome da separação de Poderes, ou agir para dar eficácia ao texto que jurou proteger? Eis o nó.

Os defensores do ativismo judicial lembram que direitos fundamentais não podem aguardar o calendário eleitoral. Argumentam que, diante da omissão reiterada do Legislativo, a Corte atua como instância de desbloqueio institucional, garantindo que minorias não fiquem reféns da maioria circunstancial e que promessas constitucionais não se transformem em ornamentos retóricos. Sustentam que o juiz constitucional não cria direitos novos; apenas concretiza aqueles já inscritos na Carta.

Os críticos, por sua vez, alertam para o déficit democrático. Juízes não são eleitos, não enfrentam o crivo periódico das urnas, não respondem politicamente por suas escolhas. Quando passam a definir políticas públicas amplas — seja no campo moral, digital, ambiental ou administrativo — assumem papel que tradicionalmente pertence aos representantes do povo. A preocupação não é apenas jurídica, mas institucional: o risco de deslocamento do centro decisório da arena política para o tribunal.

E talvez o ponto mais sensível esteja aí. Quanto mais o Legislativo falha ou hesita, mais o Judiciário é chamado a decidir. Quanto mais decide, mais se fortalece como protagonista. Quanto mais se fortalece, menos incentivo há para que o Parlamento assuma o ônus das escolhas difíceis. Forma-se um ciclo. Não necessariamente virtuoso, tampouco necessariamente vicioso — mas estrutural.

Meus caros, a questão talvez não esteja em saber se o ativismo judicial é bom ou ruim em si mesmo. O problema é de medida. Em baixas doses, pode funcionar como instrumento de proteção constitucional e estabilização democrática. Em excesso, pode alterar o equilíbrio delicado entre os Poderes e produzir dependência institucional. A Constituição exige efetividade, mas também exige contenção.

No fundo, o debate sobre ativismo judicial é um debate sobre maturidade democrática. Queremos um Judiciário que intervenha sempre que provocado, ou apenas quando a omissão ameaça o próprio pacto constitucional? Queremos um Parlamento que legisle por convicção, ou apenas sob pressão judicial? Queremos uma democracia que resolva seus conflitos na arena política, ou na arena judicial?

Não trago respostas prontas — talvez porque respostas prontas sejam parte do problema. Trago apenas a constatação de que a democracia é um organismo vivo, e como todo organismo vivo, depende de equilíbrio. Quando um órgão cresce demais, os demais sentem. Quando um falha, outro compensa.

A pergunta que fica, portanto, não é se o ativismo judicial deve existir. Ele já existe. A pergunta é: qual é o seu limite? E mais importante ainda — quem define esse limite?

Talvez a verdadeira reflexão não esteja sobre o Tribunal, mas sobre nós. Sobre a qualidade da nossa representação política, sobre o compromisso com a Constituição, sobre a disposição de assumir responsabilidades coletivas. Porque, no final, o Judiciário apenas ocupa os espaços que a política deixa vazios.

E vazios institucionais, como sabemos, nunca permanecem vazios por muito tempo.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

O Custo Invisível da Segurança

 


Por Diego de Almeida

De certo, toda vez que uma discussão técnica complexa é reduzida a uma nota administrativa, algo essencial se perde no caminho. A recente posição do Procon-Paraná, amparada em resoluções da ANS, sobre a chamada “cobrança indevida da taxa de instrumentação cirúrgica” nasce de uma intenção legítima, a proteger o paciente, mas escorrega perigosamente ao ignorar como a cirurgia acontece no mundo real. Porque entre o texto normativo e o centro cirúrgico existe um abismo que não se atravessa com comunicados oficiais.

É correto afirmar que o paciente não deve ser surpreendido com cobranças obscuras, especialmente num momento de fragilidade física e emocional. Até aqui, estamos todos de acordo. O problema começa quando essa proteção é confundida com a negação da existência do custo. Como se declarar “indevida” a cobrança fosse suficiente para dissolver, por decreto, uma função essencial à segurança do ato cirúrgico.

Na prática, o que se vê é outra coisa. Já houve situação em que, após um procedimento realizado dentro dos padrões técnicos e éticos, o paciente solicitou reembolso ao plano de saúde. A resposta da operadora não foi discutir a pertinência do pedido, mas emitir uma ameaça velada: caso houvesse reembolso da instrumentação, o valor seria descontado diretamente dos honorários médicos. Em termos simples, uma cirurgia cujo ganho bruto do cirurgião seria de quinhentos reais passaria a render trezentos, porque duzentos seriam subtraídos a título de instrumentação. Não se trata de negociação, mas de coerção econômica disfarçada de procedimento administrativo.

Esse tipo de prática revela o ponto cego da discussão: quando não se pode cobrar do paciente, o custo não desaparece — ele é deslocado. E quase sempre, deslocado para o elo mais vulnerável da cadeia: o profissional liberal, isolado frente a grandes operadoras, sem poder de barganha real. Chamar isso de “solução” é, no mínimo, ingenuidade institucional.

Outro aspecto convenientemente ignorado é a natureza da instrumentação cirúrgica. O instrumentador não é intercambiável como uma peça de reposição. Não se trata de um profissional genérico que pode ser deslocado de uma sala para outra, de uma especialidade para outra, como se todas as cirurgias fossem iguais. Na realidade, o/a instrumentador/a é treinado/a pela própria equipe, conhece cada etapa do procedimento, antecipa movimentos, entende o ritmo do cirurgião e participa de um entrosamento que não se improvisa. Colocar um instrumentador alheio à equipe, fornecido aleatoriamente por uma instituição, não é apenas ineficiente — é potencialmente inseguro.

Há ainda um terceiro ponto, mais incômodo, mas igualmente real: mesmo quando a taxa de instrumentação é cobrada, nem sempre o valor chega integralmente a quem executa o trabalho. Existem situações em que médicos ou instituições retêm parte dessa quantia, transformando o instrumentador em prestador invisível, remunerado de forma parcial e opaca. Essa distorção não protege o paciente, não valoriza o profissional e não melhora o sistema — apenas cria intermediários desnecessários.

Talvez por isso seja preciso dizer o óbvio: enquanto não houver regulamentação formal da profissão, o debate deveria caminhar no sentido da transparência, e não da negação. O pagamento direto ao instrumentador, com recibo ou nota fiscal, seja pelo plano, pela instituição ou, mesmo, pelo próprio paciente, é infinitamente mais honesto do que empurrar o custo para debaixo do tapete ou subtrair silenciosamente honorários médicos.

No fim, o erro não está em proibir a cobrança indevida ao paciente. O erro está em fingir que a instrumentação cirúrgica é um detalhe contábil, quando na verdade é um pilar técnico da segurança operatória. Cirurgia não se faz com ameaças veladas, equipes improvisadas ou custos invisíveis. Faz-se com gente treinada, entrosada e justamente remunerada. Todo o resto é retórica administrativa tentando domesticar uma realidade que insiste em não caber nas resoluções.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Agenda, Consciência e o Preço da Ilusão

 

Por Diego de Almeida

Agenda, Consciência e o Preço da Ilusão

Durante muito tempo — talvez tempo demais — aprendemos a confundir vocação com renúncia, ética com sacrifício e compromisso com submissão. A medicina, envolta em uma aura quase sacerdotal, foi sendo empurrada para um lugar simbólico onde organização virou pecado, gestão virou mercantilismo e falar de dinheiro passou a soar como heresia.

Até que a realidade bate à porta.
E ela não pede licença.

Recentemente, um parecer do Conselho Federal de Medicina reacendeu uma discussão antiga: a possibilidade de o médico organizar sua própria agenda, inclusive mantendo distinção entre atendimentos particulares e por convênios. Para quem tiver curiosidade, é o parecer CFM nº 1/2026 (PAe nº 000035.10/2025-CFM). Nada de revolucionário, diga-se. Nada que não fosse praticado, em maior ou menor grau, há décadas. Ainda assim, a repercussão foi imediata — e ruidosa.

Talvez porque a agenda não seja apenas uma agenda.
Ela é símbolo.

Símbolo da última réstia de autonomia que ainda resta ao médico liberal. Símbolo do tempo que se tenta proteger. Símbolo do limite que se tenta impor a um sistema que, há anos, se acostumou a tratar o profissional como recurso inesgotável.

Curioso observar como muitos de nós, quando ainda jovens — ou apenas ingênuos — viam essa distinção como algo moralmente questionável. “Absurdo”, pensávamos. Até o dia em que abrimos um consultório. Até o dia em que as contas começaram a chegar antes mesmo dos pacientes. Até o dia em que percebemos que o convênio demora meses para pagar, mas o aluguel, os salários, os impostos e o plano funerário dos funcionários não aceitam postergação.

A maturidade profissional costuma chegar assim: sem cerimônia.

Há quem ainda invoque o juramento de Hipócrates como argumento final, como se em algum verso oculto estivesse escrito que o médico deve abrir mão de gerir o próprio trabalho. Não está. O juramento fala de zelo, de não causar dano, de respeito ao paciente. Não fala de voto de pobreza. Não fala de agendas caóticas. Não fala de aceitar, sem questionar, contratos desequilibrados.

Organizar a agenda não é negar atendimento.
É organizar capacidade.
É preservar qualidade.
É, paradoxalmente, garantir que ainda haja médico disponível amanhã.

Em meio às discussões, surgiu um argumento silencioso, mas profundamente honesto: no Brasil real, quem tem plano de saúde raramente é o mais vulnerável. Muitas vezes, separar agenda não exclui o pobre — exclui o intermediário predatório. O convênio. A engrenagem que paga mal, exige muito e ainda se ofende quando o médico tenta respirar.

A conversa inevitavelmente escorrega para impostos, holdings, pró-labore, distribuição de lucros. E não é desvio de assunto. É continuidade lógica. Quem começa discutindo agenda logo percebe que o problema é maior: insegurança jurídica, carga tributária errática, contabilidade defensiva, decisões tomadas às cegas. O médico aprende a intubar, mas não aprende a sobreviver como profissional liberal.

Não por acaso, alguém pergunta por que não tivemos aulas de gestão na faculdade. E a resposta vem, honesta: até existem, aqui e ali, mas são insuficientes. Uma disciplina não dá conta de desfazer décadas de romantização da profissão.

No fundo, o parecer do CFM não criou um novo direito. Apenas reconheceu algo óbvio demais para continuar sendo tratado como tabu: o consultório não é uma extensão do Estado, nem da operadora, nem de um ideal abstrato de altruísmo. É um espaço profissional, sustentado por quem o ocupa.

Separar agendas não é mercantilizar a medicina.
É recusar a ilusão de que desorganização é virtude.

Talvez o incômodo venha justamente daí. Porque quando o médico assume que precisa gerir o próprio tempo, cai por terra a narrativa confortável de que basta “ter vocação”. E admitir isso exige algo mais difícil do que trabalhar muito: exige pensar.

Entrementes, seguimos. Com agendas, consciências e boletos. Tentando, no meio do ruído, preservar aquilo que realmente importa: o cuidado — inclusive conosco.

Abraços fraternos.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

“Entre o Clique e o Silêncio”

 


Por Diego de Almeida

Francamente, vivemos tempos curiosos. Nunca foi tão fácil acessar livros, artigos, vídeos, palestras, cursos, pranchas, comentários, “explicações definitivas” e, ironicamente, nunca pareceu tão difícil encontrar quem realmente leia, estude, medite ou se disponha a sentar com calma para pensar. Tudo está a um clique de distância, mas quase nada atravessa a superfície da mente. A informação chega rápido; o interesse, nem tanto.

Há quem diga — e a frase já circula como uma máxima moderna — que tempos fáceis produzem homens fracos. Não no sentido físico, claro, mas no sentido moral, intelectual e espiritual. E talvez o ponto mais delicado seja justamente esse: não somos menos capazes, apenas menos dispostos ao esforço. O desconforto do estudo profundo, da leitura lenta, da comparação de fontes, do silêncio reflexivo, foi sendo substituído por resumos, vídeos curtos e opiniões prontas, entregues com a gentileza de quem não exige nada em troca além de alguns minutos de atenção dispersa.

Assisti recentemente a um vídeo de um maçom — desses youtubers que hoje cumprem um papel curioso de instrutores digitais — falando sobre a perda progressiva do interesse dos maçons pelos livros, pelas bibliotecas pessoais, pela meditação e pelos grupos de estudo. Confesso que não lembro o nome do autor, mas lembro do incômodo que ficou. Porque não era um ataque, era um espelho. Antigamente, dizia ele, os maçons formavam pequenas células de estudo, trocavam livros, anotavam à margem, discutiam símbolos por semanas, às vezes por anos. Hoje, muitos se dão por satisfeitos após assistir a um vídeo em velocidade 1,5x.

E aqui convém uma pausa. Não se trata de nostalgia ingênua nem de demonizar a tecnologia. O problema não está no meio, mas no método — ou melhor, na ausência dele. A Maçonaria nunca foi uma Ordem de respostas prontas; sempre foi uma escola de perguntas bem formuladas. O símbolo não se explica, se contempla. O conhecimento não se consome, se constrói. E isso leva tempo. Tempo de leitura. Tempo de silêncio. Tempo de convivência intelectual.

A biblioteca pessoal, outrora tão valorizada, não era apenas um conjunto de livros, mas um mapa do caminho percorrido. Cada volume adquirido com esforço, cada obra lida e relida, cada anotação feita à lápis era, em si, um ato iniciático. Hoje, com milhares de PDFs armazenados e raramente abertos, corre-se o risco de possuir uma biblioteca infinita… e uma formação rasa.

O mesmo vale para os grupos de estudo. Eles exigem algo que nossa época parece evitar: compromisso, regularidade e exposição do próprio pensamento. É mais confortável consumir conteúdo sozinho do que sentar em círculo e sustentar uma ideia diante de Irmãos atentos, capazes de concordar — ou discordar. O estudo coletivo, afinal, lapida arestas. E ninguém gosta muito disso.

Talvez estejamos formando maçons extremamente informados, mas pouco formados; cheios de referências, mas vazios de método; conectados a tudo, menos ao trabalho interior. Uma Ordem rica em símbolos, mas pobre em simbolistas. E isso não se resolve com mais vídeos, mais posts ou mais facilidades. Resolve-se com uma decisão pessoal: desacelerar, escolher um livro, fechar a porta, silenciar o mundo e trabalhar a própria pedra.

Meus caros, a tecnologia pode ser uma aliada poderosa — desde que esteja a serviço do homem, e não o contrário. O verdadeiro progresso não é tornar tudo mais fácil, mas tornar o esforço novamente significativo. Ler menos, mas melhor. Saber menos coisas, mas compreendê-las de verdade. Falar menos e ouvir mais — inclusive o silêncio.

Abraços fraternos.

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Permita-se Permanecer Sempre Ensinável!

 


Por Diego de Almeida

Outro dia, um amigo me lançou uma dessas frases que parecem pequenas demais para causar impacto — mas que ficam ecoando como pedrinhas dentro do sapato da consciência: “Permaneça ensinável em todas as fases da vida. Nunca pare de aprender e ouvir. Permita-se a não ter todas as respostas.”

Confesso que sorri com condescendência no primeiro segundo. Frases assim costumam circular em canecas, quadros de consultório e posts de LinkedIn acompanhadas de um pôr do sol exageradamente saturado. Mas, como acontece com certas verdades simples, a coisa começou a me incomodar justamente por ser óbvia demais. Porque, no fundo, eu sei. E, sabendo, percebo o quanto falho.

Ensinável. Que palavra estranha para um adulto, não? Ela carrega um certo cheiro de sala de aula, de lousa verde, de boletim escolar. Mas talvez seja exatamente isso: nós aceitamos com naturalidade que uma criança seja ensinável, e tratamos como quase ofensivo que um adulto ainda o seja. Como se aprender, depois de certa idade, fosse um sinal de falha no planejamento original.

Acontece que, em algum ponto mal identificado da vida, a gente troca curiosidade por convicção. Troca pergunta por discurso. Troca escuta por resposta pronta. E ainda se orgulha disso.

Muitas vezes nos deparamos escutando alguém apenas o suficiente para preparar a réplica. Não para entender, mas para vencer. Não para aprender, mas para reafirmar. E sempre há uma justificativa elegante: “experiência”, “maturidade”, “senso crítico”, “já vivi o suficiente para saber como isso termina”. Tudo muito bonito — e tudo muito estéril.

Nunca pare de aprender e ouvir, diz a frase. Reparem que ela não fala só de aprender. Fala de ouvir. Porque aprender sem ouvir é apenas reciclar as próprias ideias com novas palavras. É aquele tipo de “estudo” que só serve para fortalecer preconceitos antigos com argumentos novos. O verdadeiro aprendizado exige a violência silenciosa de deixar uma ideia nossa morrer para que outra, melhor, possa nascer.

Mas aí vem a parte mais incômoda: permita-se não ter todas as respostas.

Isso, para mim, já não é mais autoajuda. É quase um voto espiritual.

Nós fomos treinados — profissionalmente, socialmente, digitalmente — para parecer competentes o tempo todo. Ter resposta virou sinônimo de valor. Dizer “não sei” virou sinônimo de fraqueza. Hesitar virou falha de caráter. E assim vamos construindo uma identidade baseada em certezas emprestadas, opiniões repetidas e verdades que nunca mais revisitamos.

O problema é que o mundo não parou para respeitar nossas certezas. Ele continua mudando, mesmo quando a gente finge que já entendeu tudo.

Permitir-se não ter todas as respostas é um ato de humildade ativa. Não é desistência intelectual; é abertura ontológica. É reconhecer que o real é maior do que o nosso repertório. Que a vida não cabe nos nossos manuais internos. Que talvez aquele estagiário, aquele aluno, aquele adversário político, aquele filho adolescente, aquele estranho na fila do banco… talvez todos eles saibam algo que eu ainda não sei.

E isso dói um pouco. Dói no ego. Dói na imagem que a gente construiu de si mesmo. Dói naquela fantasia confortável de que, se eu já cheguei até aqui, então devo estar certo sobre tudo... ou quase tudo, pelo menos.

Mas, entre a dor da humildade e a anestesia da arrogância, começo a achar que a primeira é a única que ainda nos mantém vivos por dentro.

No fundo, permanecer ensinável é aceitar viver em estado de rascunho. É admitir que não somos a versão final de nós mesmos. Que ainda há frases para reescrever, ideias para podar, convicções para revisar. Que a navalha de poda — aquela que corta excessos, ilusões e vaidades — ainda precisa passar por nós de vez em quando.

Talvez seja isso que essa frase tão simples esteja nos pedindo: menos palco, mais escuta. Menos discurso, mais pergunta. Menos certeza, mais presença.

E, quem sabe, um pouco mais de coragem para dizer, com serenidade adulta: “Eu não sei. Mas estou disposto a aprender.”

E assim sendo, sigo tentando.
Abraços fraternos.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

ENTREMENTES, O ENAMED...

 



Entrementes — palavra que anda sumida do vocabulário moderno, mas que cabe como uma luva aqui — saiu o resultado do tal ENAMED. E eu confesso: não fiquei surpreso. Fiquei, sim, inquieto. Que é pior. Os números são frios, como toda estatística. Um terço das escolas de Medicina com desempenho insatisfatório. Um terço! Traduzindo em gente de carne e osso: milhares de jovens médicos que, dentro de poucos meses, estarão atendendo gente como você, como eu, como sua mãe, como seu filho — com uma formação que o próprio Estado brasileiro reconhece como insuficiente. Não é uma discussão acadêmica. É uma discussão de pronto-socorro.

Sou médico. Gosto de sê-lo. Levo isso a sério. Talvez sério demais para os tempos líquidos em que vivemos, em que tudo virou serviço, produto, pacote, assinatura mensal. Inclusive a Medicina. O ENAMED veio para medir o óbvio: se estamos formando médicos que sabem o mínimo necessário para não fazer bobagem grave com um ser humano fragilizado numa maca. E a resposta foi: nem sempre.

Como foi que a gente chegou até aqui? Não foi de repente. Não foi ontem. Não foi por acaso. Foi um projeto. Mal desenhado, mal regulado e pior executado. Há uns vinte anos, alguém teve a ideia genial: “O Brasil precisa de mais médicos. Logo, precisamos de mais faculdades de Medicina.” Soa lógico. Parece progressista. Fica lindo no discurso eleitoral. Só esqueceram de um detalhe menor: qualidade não se imprime em decreto. Abriram cursos onde não havia hospital-escola. Onde não havia professor titulado. Onde não havia paciente suficiente para ensinar clínica. Onde não havia biblioteca decente, muito menos tradição acadêmica. E assim nasceu a aberração: diplomas iguais, médicos profundamente desiguais.

Hoje, Medicina virou um dos negócios mais rentáveis do ensino privado. Mensalidades de cinco dígitos. Turmas lotadas. Marketing agressivo. Outdoor prometendo “seu sonho de ser médico começa aqui”. Começa, sim. Termina mal, às vezes. Existe uma hipocrisia coletiva em torno desse assunto. Todo mundo sabe. Pouca gente fala. Médico mal formado não é só um drama pessoal do recém-formado inseguro. É um risco sanitário. É o infarto que passa batido. É a sepse que se diagnostica tarde. É o antibiótico errado. É o exame pedido sem critério. É a cirurgia indicada sem necessidade. É a complicação evitável. Não é teoria. É rotina hospitalar.

E aí começa a espiral: mais erro, mais processo, mais medicina defensiva, mais exames inúteis, mais custo para o sistema, mais desconfiança social. Todos perdem. Menos quem vendeu a vaga a doze mil reais por mês. Sempre houve médico ruim, é verdade. E sempre haverá. Somos humanos, afinal. A diferença é a escala industrial da coisa. Antes, o médico ruim era exceção. Hoje, corre o risco de virar produto seriado de um modelo educacional frouxo, permissivo e mercantilizado. O ENAMED apenas colocou números naquilo que todo mundo que pisa num hospital público (e alguns privados também...) já sente no dia a dia. Ele não é um ataque à Medicina. É um exame de consciência coletivo.

E aqui vem a parte incômoda para os relativistas: não é mistério por que algumas escolas dão certo. As que vão bem no ENAMED são, em geral, as mesmas de sempre. Públicas tradicionais, algumas privadas muito bem estruturadas. Elas têm hospital-escola de verdade, professor que dá aula e pesquisa, currículo baseado em evidência, não em moda pedagógica, rigor avaliativo, cultura de estudo, meritocracia sem firula. Não é magia. É método. É trabalho sério. É tempo. Formar médico não é startup. Não é franquia. Não é fast-food.

E qual é, afinal, o papel do médico nisso tudo? Aqui eu falo com algum lugar de fala, como dizem por aí. O médico não é só um prestador de serviço técnico. Não é um “fornecedor de laudo”. Não é um “aplicador de protocolo”. Ele é, ou deveria ser, guardião da vida, tomador de decisões irreversíveis, referência ética, líder técnico de equipes, última linha entre o erro e o desastre. Quando essa função se esvazia, a sociedade inteira paga o preço. Uma Medicina fraca gera uma sociedade insegura. Uma sociedade insegura gera mais controle, mais judicialização, mais desconfiança, mais burocracia. E aí ninguém mais confia em ninguém.

Quanto ao futuro, vejo três cenários. O primeiro é o brasileiro clássico: fingir que nada está acontecendo. Continuar abrindo faculdades. Continuar diplomando mal preparados. Continuar empurrando com a barriga. Esse termina mal. O segundo é o mínimo decente: usar o ENAMED como régua regulatória real. Fechar cursos ruins. Cortar vagas. Exigir padrão mínimo. Já ajudaria. O terceiro — que eu duvido, mas torço — é uma reforma de verdade: exame nacional obrigatório para exercício profissional, residência como porta de entrada padrão, investimento pesado em hospitais-escola, valorização real da docência médica, freio total na abertura de novos cursos. Sonhar não custa nada. Implementar custa coragem política.

Entrementes, seguimos. Eu sigo indo ao consultório. Você segue confiando no médico que lhe atende. O sistema segue rangendo. O Estado segue fazendo de conta. E o ENAMED fica ali, como um espelho incômodo na parede, mostrando um reflexo que ninguém gosta muito de encarar. Porque, no fundo, todo mundo já sabia. Só faltava a prova.