Por Diego de Almeida
Todos os anos, quando chega o Dia Internacional da Mulher, repetem-se dois rituais quase automáticos. De um lado, as flores, as homenagens, as mensagens bonitas nas redes sociais. De outro, uma espécie de disputa ideológica sobre o que afinal significa o tal “feminismo”. Entre elogios superficiais e caricaturas militantes, o sentido original da data muitas vezes se perde.
E, como tantas outras coisas em nosso tempo, aquilo que nasceu como reivindicação legítima acaba sendo transformado em slogan, bandeira partidária ou guerra cultural.
Mas se fizermos um pequeno exercício de memória histórica, veremos que o feminismo, em sua origem, não surgiu para estabelecer uma guerra entre homens e mulheres, tampouco para negar as diferenças naturais entre os sexos. Surgiu, sobretudo, como um movimento de equiparação de direitos civis, políticos e sociais.
E isso, convenhamos, não é pouca coisa.
Durante séculos, em grande parte do mundo, as mulheres não podiam votar, não podiam possuir propriedades de forma independente, não tinham acesso à educação formal e eram frequentemente excluídas das esferas de decisão pública. O feminismo histórico foi, antes de qualquer outra coisa, uma reação a esse estado de coisas.
Não se tratava de afirmar que homens e mulheres são absolutamente idênticos em tudo — ideia que, além de biologicamente questionável, é sociologicamente ingênua. Tratava-se de algo muito mais simples e muito mais razoável: se a dignidade humana é a mesma, os direitos fundamentais também devem ser.
Esse era o ponto.
Entrementes, como ocorre com praticamente todo movimento humano, o tempo tratou de multiplicar interpretações. Algumas delas equilibradas e razoáveis; outras, francamente caricatas. Em certos ambientes contemporâneos, o debate sobre direitos das mulheres parece ter sido substituído por uma espécie de competição de ressentimentos, na qual o objetivo já não é construir justiça, mas sim inverter hierarquias.
Mas reduzir toda a questão a esses exageros seria igualmente injusto. Porque basta olhar ao redor, ou um pouco além de nossas fronteiras, para perceber que a realidade ainda está longe de ser plenamente civilizada.
Aqui mesmo no Brasil, ainda convivemos com números alarmantes de violência doméstica, feminicídios e abusos que revelam o quanto a dignidade feminina continua sendo violada dentro de lares, ruas e ambientes de trabalho. Não são estatísticas abstratas; são vidas interrompidas, famílias destruídas e comunidades feridas.
E quando ampliamos o olhar para o cenário internacional, o quadro pode tornar-se ainda mais sombrio.
Em várias regiões do mundo, meninas continuam sendo impedidas de frequentar escolas. Em alguns países, estudar ainda pode ser considerado um ato de rebeldia feminina. Nos últimos dias, por exemplo, surgiram relatos perturbadores de bombardeios e ataques a escolas destinadas à educação de meninas no contexto da guerra no Oriente Médio, lembrando ao mundo que, para certas ideologias e regimes, a educação feminina ainda é vista como ameaça.
Sim, ameaça.
A ideia de que uma menina possa aprender, ler, pensar, escolher sua profissão ou seu destino ainda provoca medo em determinados lugares do planeta.
Além disso, como costuma dizer uma grande amiga, a Rosângela: "A Mulher é um portal pelo qual todos vem ao mundo... é o Homem tem a chave deste portal. Cabe ao dono da chave zelar pelo portal!" Veja bem: zelar não significa possuir, ou mandar... Mas, extrapolando esta ideia, se destruiu o portal, nada mais passa por ele... Logo, dizimando as mulheres de uma localidade, acaba-se com aquele povo, simples - e cruel - assim!
Quando observamos esse tipo de realidade, percebemos que muitas das discussões travadas nas redes sociais do Ocidente são, em certa medida, luxos de sociedades que já avançaram bastante, ainda que imperfeitamente, no campo dos direitos civis.
Em outras partes do mundo, a batalha ainda é muito mais elementar.
Trata-se simplesmente do direito de existir com dignidade. Ou apenas, de existir!
Talvez por isso o 8 de março não devesse ser apenas uma data de celebração. Tampouco deveria ser monopolizado por discursos ideológicos estreitos. Ele deveria ser, antes de tudo, um momento de consciência histórica.
Um lembrete de que os direitos não caíram do céu.
Foram conquistados.
Foram defendidos.
Foram pagos, muitas vezes, com sofrimento real.
E, como toda conquista humana, também precisam ser preservados.
Desta feita, a melhor homenagem que se pode fazer às mulheres não está apenas nas palavras bonitas publicadas uma vez por ano; está na construção cotidiana de uma sociedade em que respeito, segurança e oportunidades não dependam do sexo de alguém.
Uma sociedade em que meninas possam estudar sem medo.
Em que mulheres possam trabalhar sem violência.
Em que mães, filhas, irmãs e amigas possam simplesmente viver com dignidade.
Se um dia chegarmos plenamente a esse ponto, talvez o 8 de março se torne apenas uma data histórica, lembrada nos livros.
Até lá, meus caros, ele continua sendo necessário.
E talvez mais necessário do que gostaríamos de admitir.
Abraços fraternos.







