🚂 Vai dar tempo — até o dia em que não dá mais
Meus caros,
Há coisas na vida que não deveriam precisar de estatística para nos ensinar, mas, ainda assim, insistem em se repetir com uma regularidade quase didática.
No Paraná, mais de uma centena de acidentes ferroviários ocorrem por ano. Em Curitiba, algumas dezenas, todos os anos.
A cena é sempre banal, até deixar de ser; O trem vem... Grande. Barulhento. Inevitável! Não se esconde. Não desvia. Não negocia...
O motorista olha. Calcula. Hesita por um segundo, ou nem isso. E então decide: “Vai dar tempo.”
E, convenhamos, na maioria das vezes… dá mesmo.
Mas não foi. Foi apenas tolerado pela sorte. O erro que se repete porque funciona, até falhar!
Entrementes, é aqui que mora o engano mais sutil.
Porque a decisão já foi tomada antes; muito antes!
Há um ponto que ninguém vê: Existe, em toda linha férrea, um ponto invisível. Um ponto em que o trem já não consegue parar e o veículo já não consegue sair. A partir dali, tudo o que resta é consequência.
E, quando se percebe, já não importa mais...
Agora, retire o trem da cena e observe:
Esse mesmo mecanismo se repete, com uma fidelidade incômoda, em outras áreas da vida.
Palavras diferentes. A mesma lógica.
A vida não buzina! Aqui reside uma diferença cruel.
O trem ainda avisa; Ele apita. Vibra. Anuncia sua presença. Ele dá sinais claros de que está vindo, e vindo forte.
A vida, não...
Ela apenas segue, e cobra.
Cobra sempre e caro, pelo atraso que não parece atraso...
No trabalho, o atraso não começa no dia do prazo. Ele começa no primeiro adiamento irrelevante. Na primeira tarefa “que pode esperar”. Na primeira vez em que você confunde folga com margem... E, quando você percebe, não está mais trabalhando, está tentando compensar.
Nos relacionamentos, o erro é ainda mais silencioso.
Até que, um dia, não há mais o que dizer. E, curiosamente, ninguém sabe exatamente quando começou. Mas começou cedo. Muito cedo!
Se há uma ilusão que nos acompanha com persistência, é esta: A de que sempre haverá um “depois” disponível para correção. Mas nem tudo na vida permite correção tardia.
Algumas decisões são como cruzamentos ferroviários: Elas exigem precisão antes, não reação depois.
O que deveria nos inquietar, então?
Não é o acidente em si. É o fato de que ele é previsível. Não nos detalhes, mas na essência.
E essa é, talvez, a forma mais perigosa de erro: Aquela que parece razoável no momento em que é cometida.
Em última análise, não é sobre o trem. Nunca foi. É sobre a confiança excessiva na própria capacidade de calcular o tempo, o risco e a margem.
É sobre ultrapassar, sem perceber, o ponto em que ainda seria possível parar.
E é, sobretudo, sobre reconhecer antes, aquilo que, depois, já não terá solução.
Meus caros, a vida não costuma anunciar seus pontos de não retorno. Ela apenas os atravessa conosco. E, quando percebemos, já estamos do outro lado.
“Não é o impacto que destrói; é a decisão tomada (ou não) quando ainda parecia que daria tempo.”

Excelente texto!
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