Por Diego de Almeida
Outro dia, um amigo me lançou uma dessas frases que parecem pequenas demais para causar impacto — mas que ficam ecoando como pedrinhas dentro do sapato da consciência: “Permaneça ensinável em todas as fases da vida. Nunca pare de aprender e ouvir. Permita-se a não ter todas as respostas.”
Confesso que sorri com condescendência no primeiro segundo. Frases assim costumam circular em canecas, quadros de consultório e posts de LinkedIn acompanhadas de um pôr do sol exageradamente saturado. Mas, como acontece com certas verdades simples, a coisa começou a me incomodar justamente por ser óbvia demais. Porque, no fundo, eu sei. E, sabendo, percebo o quanto falho.
Ensinável. Que palavra estranha para um adulto, não? Ela carrega um certo cheiro de sala de aula, de lousa verde, de boletim escolar. Mas talvez seja exatamente isso: nós aceitamos com naturalidade que uma criança seja ensinável, e tratamos como quase ofensivo que um adulto ainda o seja. Como se aprender, depois de certa idade, fosse um sinal de falha no planejamento original.
Acontece que, em algum ponto mal identificado da vida, a gente troca curiosidade por convicção. Troca pergunta por discurso. Troca escuta por resposta pronta. E ainda se orgulha disso.
Muitas vezes nos deparamos escutando alguém apenas o suficiente para preparar a réplica. Não para entender, mas para vencer. Não para aprender, mas para reafirmar. E sempre há uma justificativa elegante: “experiência”, “maturidade”, “senso crítico”, “já vivi o suficiente para saber como isso termina”. Tudo muito bonito — e tudo muito estéril.
Nunca pare de aprender e ouvir, diz a frase. Reparem que ela não fala só de aprender. Fala de ouvir. Porque aprender sem ouvir é apenas reciclar as próprias ideias com novas palavras. É aquele tipo de “estudo” que só serve para fortalecer preconceitos antigos com argumentos novos. O verdadeiro aprendizado exige a violência silenciosa de deixar uma ideia nossa morrer para que outra, melhor, possa nascer.
Mas aí vem a parte mais incômoda: permita-se não ter todas as respostas.
Isso, para mim, já não é mais autoajuda. É quase um voto espiritual.
Nós fomos treinados — profissionalmente, socialmente, digitalmente — para parecer competentes o tempo todo. Ter resposta virou sinônimo de valor. Dizer “não sei” virou sinônimo de fraqueza. Hesitar virou falha de caráter. E assim vamos construindo uma identidade baseada em certezas emprestadas, opiniões repetidas e verdades que nunca mais revisitamos.
O problema é que o mundo não parou para respeitar nossas certezas. Ele continua mudando, mesmo quando a gente finge que já entendeu tudo.
Permitir-se não ter todas as respostas é um ato de humildade ativa. Não é desistência intelectual; é abertura ontológica. É reconhecer que o real é maior do que o nosso repertório. Que a vida não cabe nos nossos manuais internos. Que talvez aquele estagiário, aquele aluno, aquele adversário político, aquele filho adolescente, aquele estranho na fila do banco… talvez todos eles saibam algo que eu ainda não sei.
E isso dói um pouco. Dói no ego. Dói na imagem que a gente construiu de si mesmo. Dói naquela fantasia confortável de que, se eu já cheguei até aqui, então devo estar certo sobre tudo... ou quase tudo, pelo menos.
Mas, entre a dor da humildade e a anestesia da arrogância, começo a achar que a primeira é a única que ainda nos mantém vivos por dentro.
No fundo, permanecer ensinável é aceitar viver em estado de rascunho. É admitir que não somos a versão final de nós mesmos. Que ainda há frases para reescrever, ideias para podar, convicções para revisar. Que a navalha de poda — aquela que corta excessos, ilusões e vaidades — ainda precisa passar por nós de vez em quando.
Talvez seja isso que essa frase tão simples esteja nos pedindo: menos palco, mais escuta. Menos discurso, mais pergunta. Menos certeza, mais presença.

Arassou no texto, parabéns!
ResponderExcluirParabéns querido Irmão pela clareza em retratar um grande mal que assola muitos de nós.
ResponderExcluirÉ difícil lapidar com profundidade a nossa pedra bruta, diante de tantas comodidades da vida atual.